quarta-feira, 15 de junho de 2011

Escreva. Escrevo.

Quero. Quero que meus dedos sejam pincel e escrevam no teu corpo as letras do meu desejo. Quero. Quero fazer, da saliva, tinta, desenhando os indecifráveis signos da fome no ventre. Quero. Quero as narrativas sem sentido e as palavras cantadas como gemido na tua boca. Quero. Quero fazer do teu corpo mata-borrão do prazer que me sei dar. Quero. Quero deitar a cabeça no teu colo como se fosses livro e sugar-te como se ler fosse em quente sabor na língua. Quero. Quero as histórias do prazer em tatuagens passageiras pra começar a reinventar-nos logo a seguir do gozo. Quero. Quero esquecer os imperativos, a primeira pessoa, o verbo querer e deixar-me, pele, papel, pincel e letra, tudo eu, tudo teu. Até que, de novo, seja eu a escrever: quero.


No fim da década de 60 e começo da de 70, Gal Costa cantava com ênfase: meu nome é Gal, e desejo me corresponder com um rapaz que seja o tal, meu nome é Gal e não faz mal que ele não seja branco, não tenha cultura, de qualquer altura, eu amo igual e tanto faz que ele tenha defeito ou traga no peito crença ou tradição, meu nome é Gal, eu amo igual...eu tenho meus momentos Gal, e eles não são poucos. Mas tenho tentado construir uma vazante qualquer. Um pré-requisito. Eu sei, eu sei, os pré-requisitos que verdadeiramente contam são os inconscientes, uma covinha, um jeito de segurar o copo, a sensação de segurança, anyway, meu pré-requisito atual e consciente é saber quem é o Tennesse Williams. Pode ser o básico, franzir a testa e dizer meio na dúvida: o bonde chamado desejo, né? Já passa. Isso, claro, quando o mundo não me atropela. Tenho a impressão que ando sempre bem no meio de uma autoestrada. De salto alto e vestido de seda vermelha. Pra ficar absurdamente surreal, provavelmente eu estou de sombrero. Bom, já deu pra pegar o clima. Um dia desses fui atropelada. É até gostoso ficar ali esparramada, meio desligada, sem sentir muita coisa a não ser uma certa surpresa por ser eu. Foco: o mundo feito carreta esbarrou em mim mas eu ainda tive tempo de gritar: tennesse williams, o motorista sorriu compassivo e disse: sei. E sabia. Sabia mesmo e tanto que me disse: Livro. Cabeceira. Não, não era um convite pra ler na cama. Era uma senha de me desnudar. Se você não assistiu, nem sei como te dizer: está perdendo! Eu estava me perdendo. Livro de Cabeceira é do mesmo diretor de O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante e – todos sabem – estética deslumbrante e histórias sobre o prazer ele sabe contar. 

 Há dois tipos de filmes que me inquietam: os que me são muito distantes e os que são próximos demais. Quando me indicaram este filme – eu desconhecia quem dirigia -e assim que as primeiras imagens surgiram na tela, logo o pensei no primeiro grupo. Enganava-me, sob o véu do desencontro era dolorosa e saborosa intimidade o que o filme me oferecia. É um filme ocidental, embora utilize-se da mediação do que é o Outro: o Oriente, para justamente aproximar-se e afastar-se dos símbolos que nos são íntimos e do dito que, de tão nosso, é absolutamente indecifrável.

O filme me atingiu de várias formas e em muitas dimensões: o apuro estético, a narrativa insólita, a questão da escrita, o erotismo sutil, o tornar-se mulher, perguntas mais que respostas, propostas. É um filme de lindas imagens, como retratos de um sonho que gostaria de guardar, mas que me acanharia em  mostrar a não ser em tardes solenes, depois do sexo, quando tudo que é morno e rubro fica cálido. Mas não é só isso. Ou não é por isso. Será preciso muito mais que um post de blog pra acolher tudo e tanto que me é próximo e eu ainda estou me aprendendo no que tanto gostei. Por agora, há um sentir de espelho em:

- uma filha que se inscreve, teimosamente, na linhagem de um pai que é, necessária e simbolicamente, maculado;
- uma inscrição que é fálica, porque garantida e suportada em letras;
- mas uma inscrição que é, também, Outra, porque no corpo, apontando para um gozo além;
- uma proposição de relação baseada na troca entre letras e sexo;
- uma menina que se torna mulher justamente deixando o lugar de papel e ocupando-se do pincel;
- os sentidos todos em festa, as pulsões em alvoroço: visão – o azul escuro, o corpo como objeto a ser decifrado; tato – a pele como papel, o papel como pele, a textura como indicação de prazer e comunicação; o olfativo: o cheiro do papel como o odor de uma amante, a audição – as canções chinesas suavemente pontuando a identificação feminina; o paladar – a escrita deve ser provada, saboreada.
- um amante que se faz objeto, objeto a para o gozo dela, ainda que em outro lugar. Gozo que se torna mortífero quando não há borda;
- um amante que é, sintomaticamente, tradutor;
- um livro que ocupa lugares insuspeitos, que é um, mas é vários, que se desloca e é deslocado e que se consolida apenas em morte.
- o corpo como expressão e mediação do pensamento;
- um texto que diz: “só há duas coisas confiáveis: o prazer da carne e o prazer da literatura” (quanto tempo passei tentando expressar isso, sem essa objetiva e pertinente clareza)
- um outro que só pode ser completamente amado como livro, como objeto, como memória;
- separação entre potência criativa e falicidade, com a identificação de Nagiko à Sei Shonagon a partir do decisivo momento em que Nagiko não só se vinga do editor que parece apontar a incompletude e mácula paterna mas também do pai, na figura do editor, pai que lhe negou o olhar e desejo que ela demandou (como demandamos todos)
- a linda e delicada metáfora que sobrepõe aos textos iniciais - efêmeros e laváveis, que demandavam o corpo masculino para terem valor, como se a inscrição fálica fosse a única possível – uma tatuagem permanente, visível na amamentação, a estabilização do feminino sem prescindir da escrita, antes, afirmada por ela...


E eu nem disse ainda da beleza da protagonista; do Ewan MacGregor novinho e sensual; do lance Iago que dá tempero à narrativa em certo momento; do impacto visual que os Livros, insinuante e logicamente localizados e nomeados, provocam; o cuidado evidente na concepção de cada cena; a trilha sonora obsedante e como eu tive que assistir imediatamente de novo assim que terminaram os créditos finais. Nem disse da minha boca seca, do corpo pendularmente em pânico e acolhimento, da necessidade de me deixar adormecer, da ânsia de letra, tinta e papel. Eu nem disse e talvez não diga de como o motorista da carreta me deu vida ao me dar mortes: a primeira delas na autoestrada, eu nunca mais fui a mesma. Outras, a seguir, espero. Por falta de termo melhor. 

Em tempo, há as listas no filme.
A minha, de hoje: Coisas que excitam
O roçar da barba na nuca
Uma mão apertando a coxa
Riso na voz
Barulho de chuva
Folhear um livro
Encaixe de pernas
Gosto de sol e sal
Falar sem pressa
Habilidade com o sutiã
Mordida no ombro
Café: preto, forte, puro, na cama
Encostar no peito
Beijo na palma da mão



I am certain that there are two things in life which are dependable: the delights of the flesh and the delights of literature. I have had the good fortune to enjoy them both equally


"Eu envolvi esse livro em minhas pernas. "

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Cartinha

 Trago uma besta 
em meu ventre.
Por fora, linda borboleta.
Por dentro, lagarta esfomeada



Aqui, nesse dia, mês, ano

Eu acordei sentindo falta das tuas palavras que me dizem: desejo. Que ninguém mais leia, gosto de ser um pedaço de carne, só um pedaço de carne. O teu pedaço de carne.  Acordei sentindo. Acordei tuas palavras. Acordei o desejo. Que horas é o futuro?

Tua, na medida da balança, 
um palmo de rabo,

Cangaceira
matuta
jagunça
capivara
caipira

A Dor dos Outros

Um grito 
até que teus ouvidos 
não soubessem ouvir 
outra voz
que não a minha.



Eu me lembro de tudo. Do sorriso de canto de boca, da cor de cada camiseta, do suor da tua mão na minha. Lembro das perguntas todas que seu olhar trazia. Lembro do seu jeito esquerdo, do teu corpo grande demais, pequeno demais, outro demais. Lembro que eu tinha curiosidade e, você, desejos, e nós chamávamos amor. Lembro que fomos sorvete, cerveja, praças e risos. Lembro que fomos a todos os lugares que só deviam ser um: a cama. Lembro que fomos, até que o único caminho possível era você vir. Lembro da sua mudança, malas e sacos invadindo os espaços que eu cedia, alegre e desconfiada. Lembro um dia e o outro e o outro e o outro até que todos pareciam ser o mesmo, tocados no ritmo do que eu aprendi a chamar felicidade mas que já tinha nome e eu nem sabia: intervalo. Eu empilho memórias que ocupam espaço e dificultam o andar: seu cheiro na minha mão, seu gosto na minha boca, seu corpo tão dentro do meu que eu suspeitava que o plano era atravessar-me. E era.

Não é lindo sentir assim, sofrer assim, doer assim? Mesmo as palavras mal arrumadas como estas aí de cima dizem de uma verdade – e, no entanto, é mentira já que eu não sofro. Mas alguém sofre e é essa dor que me fascina. Eu só queria era morrer de amor. Só uma vez ter o peito pequeno demais e os sorrisos ausentes demais e os olhos longe demais, perdidos no que o outro vê. Só uma vez não saber seguir, não saber sorrir. Não saber. Só uma vez, dessa vez, deixar que me tatuassem.

Eu quero a dor, não a angústia. Quero todos os nervos expostos, sonho hemorragias. Quero a impossibilidade de seguir sem ele e não o conforto amargo de saber-me sozinha. Quero o destempero, o desmando, o espanto e não o açoite no ventre e os passos seguros. 

Um dia desses estávamos papeando sobre relacionamentos com os ex. E eu acho que tenho sorte. Tenho amizade com muitos ex...namorados, marido, rolos. Tenho contato com muitos outros. E os que nunca mais vi ou falei, foi por acaso e estradas diversas, mas tenho, por eles, carinho. Lembro ternamente os sorrisos todos que eles me deram. Meus namoros e similares sempre foram bons. Começaram bem, seguiram bem, e, com certa habilidade, bem terminaram. Eu os quis com intensidade quando os queria e não mais quando não queria, mas há que se aprender a cuidar e eu cuidei e fui cuidada. A maior dor de cotovelo que tive durou meia noite insone, três cigarros e a exaustiva repetição do disco Drama 3º Ato com a Bethania cantando incessantemente que “ao fim de cada ato, limpo no pano de prato as mãos sujas do sangue das canções” (é claro que há um pouco de fantasia nessa narrativa que me cai melhor que um mês tentando fazer dar certo o que já havia fenecido, três dias chorando no colo da amiga em uma praia sintomaticamente chamada Presídio e mais três horas encaixotando lembranças). 

O certo é que fui feliz com estes homens que me habitaram e em quem habitei. Mais ainda, fui alegre. Mas sempre tive nostalgia de uma grande dor. Romântica de verdade, não esperava o grande amor, mas o grande sofrer. Um tango habita meus íntimos espaços. Eu esperava aquela dor que ocupa as melhores canções, os maiores filmes, as indescritíveis solidões. Ansiava pela comoção dos sentidos e pela absoluta entrega ao sofrer. Eu sei que alguém, agora, meneia a cabeça em desacordo ou outrem se enraivece por sofrer exatamente assim e desejar apenas o entorpecimento das lembranças. Mas eu queria, fazer o quê. Queria uma parede da memória como a do Belchior, em que um quadro doesse mais. Queria a vida latejante. Tenho Dalvas de Oliveira cantando em mim. Tenho boleros potenciais. Tenho letras que se organizam em saudades, anseios de carne viva, desassossego e não encontram encarnação num dia a dia de seguir sorrindo. Aprendi a suspeitar do meu riso e a espreitar a alegria, esperando que ela fraqueje e deixe ver que é só um vazio. Mas ela segue, firme. Fui me acostumando a não sofrer e, às vezes, tenho medo de ter me acostumado a não sentir.

Eu tenho inveja de quem sente com intensidade, de quem morre de amor todo dia, embora me pergunte como podem sentir assim por estes eles. Por um tempo achei que o que me faltasse fosse o objeto do amor. Suspeito que o que não tenho são as ferramentas pra morrer de amar.


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Escreveu, não leu...com Update

 Escreveu, não leu...
(08/06/2011)
Porque se escreve? Muitos já responderam, cada um em seu estilo, com maior ou menor drama, com humor ou em trágica constatação. Escreve-se porque não se pode evitar, para ser lido, para tentar dizer, para não morrer. Escreve-se para passar o tempo, para parar o tempo, para mudar a história. Escreve-se para tecer em palavras um véu que esconda o horror deste vazio que nos ocupa. Escreve-se porque se é humano e o mais humano é dizer-se. Eu mesma já brinquei de inventar motivos: aqui e aqui, no outro blog: Olhos da Borboleta. Também eu já dei as minhas respostas no post sobre minha trama de impossíveis: Não sei escrever sobre mortes que não estão em mim. Só a morte íntima é que sabe se tornar letra. Assim, todo dia e a cada texto, insisto na vida aproximando-me da morte. Escrever é reconhecer toda falta: de tempo, de corpo, de ser. E é negar, em cada traço, o vazio.

Apesar da pergunta que continua e das respostas que se repetem, conversando com meu querido amigo sabor fruta (e que lindo poeta que é) nos deparamos com a questão: ainda mais inquietante é tentar dizer, não porque escrevemos, mas porque lemos ( não só nós pensamos nisso, João Cabral de Mello Neto, ao ser perguntado sobre porque escrevia poesia, devolveu: porque você lê poesia?). E, ainda além, porque lemos o que lemos e o que isso faz e diz de nós. Ler é uma entrega e uma conquista. É colocar meu exército no território do outro e fazer, dele, o meu. E isso será sempre posse e estranhamento. Leio porque em uma inflexão, em um intervalo, em uma curva da frase, espero a injunção ao meu desejo e a um saber. Leio porque espero, no encanto das palavras, uma possibilidade de encontro que no real se esquiva. Leio pela sombra, pelo escuro, pelo silêncio que um dito porta. Ler é uma solidão escolhida que nos aparta da solidão imperiosa de existir.

Nelson Rodrigues diz que “depois de matar, o criminoso se torna secundário, ou nulo, e repito: some como se jamais tivesse existido”. Parece-me, à princípio, que assim é com o escritor. Ele não importa, o que importa é a sua escrita. Ou, antes, o que importa é o que está escrito. É o texto que é, não o seu autor. Digo, reluto, e retorno. Flaubert me vem: Madame Bovary sou eu. O escritor é o criminoso rodrigueano, mas é também a vítima, é o que importa. Ele está no dito mesmo que não se confunda com ele. É nesta espiral que interessam os escritores e suas histórias, no que eles encarnam das suas letras. É esse o fascínio que encontro. E é esse o convite que faço. Hoje é dia de dicas. 

Tem este site que é uma delícia: o silêncio dos livros.
Tem este texto do Manuel que é mítico: ando sempre com um livro na mão
Tem estes dois sebos online (na verdade são sebos congregados em dois sites):

O convite principal é o que faz liga em tudo que se coloca neste post: é pra conhecer o programa Palavra Inquieta – Papo com Autores. Descrição na página: “O programa tem como propósito dar voz a escritores, experientes nas manhas e artimanhas do escrever. Destinado a todos aqueles que se interessam por melhorar sua atividade na escrita, levará também um pouco do que de melhor se produz no Brasil e no mundo”. Mas, claro, eu vou dar o macete pra vocês...

Primeiro: você pode participar por twitter ou facebook e fazer aquela perguntinha que fica coçando na ponta dos dedos. Depois: fica guardadinho, se você não puder acompanhar na hora, mas quiser saber o que se passou, não tem erro, vai lá e assiste (eu fiz isso com o programa da semana passada). Mas a dica principal é que quem apresenta o programa é o Léo Gonçalves e vocês não estão entendendo o quanto isso faz diferença. O Leo é poeta, desses que arrombam minhas janelas e desmancham meus cabelos. Desses que escrevem assim:

deve ter algo no céu
da sua boca
que me faz brilhar

Ele faz perguntas que são melhores e mais complicadas de responder, as que não trazem respostas e sim caminhos, as que trazem nas letras o fuxico inquieto de se saber um processo. Eu, se fosse você, assistia. Quinta, 09/06, 19hs, tem Claudio Willer. Aí vocês me contam se não é assim, gostoso, do jeitinho que tô falando pra vocês. Quase como dançar forró numa sala de reboco. Eu disse quase.


Bom de Papo -UPDATE
 Você não viu o Palavra Inquieta? Não se deixou levar pela conversa boa que embala e cutuca? Não deixe de dar uma espiada, mesmo com atraso. É fácil, vai aqui.  Aconteceu uma discussão interessante sobre a confluência da linguagem entre poesia e ensaio e a especificidade de alguns poetas serem também pensadores críticos da cultura. Teve leitura de poemas com boas histórias ligando os momentos. E, ainda, uma conversa sobre o papel da linguagem e, mais especificamente, da poesia, como criação de sentidos alternativos. Além disso, Baudelaire sempre presente. Isso tudo antes dos vinte minutos, que minha conexão é fraca e não me deixa ver tudo de uma vez. Mas amanhã de manhã eu vejo, ah, vejo. 

Bom de Papo -UPDATE do UPDATE
"Na próxima quinta, dia 16 de junho às 19h, o Palavra Inquieta terá a presença de Ademir Assunção. Autor de livros inusitados como Adorável criatura Frankenstein e Máquina Peluda, é um dos poetas mais ativos na cena nacional. Foi um dos mais ardorosos defensores do Movimento Literatura Urgente, que mobilizou escritores de todo o país em 2004 e cujo manifesto continua ainda hoje gerando efeitos nas iniciativas privadas e públicas de incentivo à literatura"...(roubadinho da silva daqui, vai lá e lê o resto). 

O programa Palavra Inquieta – Papo com Autores acontece às 19h e tem transmissão ao vivo pela internet. Para assistir, basta acessar o site: http://on.fb.me/eCtIrD. 

terça-feira, 7 de junho de 2011

Doces Bárbaros #6: A ciência da abelha


Começa junho com seu gosto de festa no interior e a Lu pergunta o que é peba. “Peba é um tatu, e a gente caça ele pra comer. E com pimenta fica mais gostoso”. O outro sentido eu só posso adivinhar, mas pelas risadas da platéia, bem...



Daí que estou há três dias cantarolando João do Vale. Na verdade, estou há mais de trinta anos cantarolando (um dia, quem sabe, aprenderei a cantar e deixarei de cantarolar). Na minha cosmogonia particular, está lá João. O mito é o seguinte: meu aniversário. De quantos anos? Dois não pode ser, pois no meu segundo aniversário minha mãe chegava da maternidade com minha irmã. No terceiro aniversário, já não estávamos no mesmo apartamento. Só pode ser de um ano. (Todas as vezes que a história é contada, é preciso fazer esse cálculo.) Então, meu aniversário de um ano, no apartamento da praça Roosevelt. Meus pais chamaram João do Vale, de quem tinha ficado amigos nas turmas de artistas e intelectuais dos botecos do centro de São Paulo. Quando João chegou, meu pai o apresentou para mim e explicou: “ele que fez aquela música ‘Pisa na Fulô’”. Eu de pé, apoiada na grade do berço, bati os pezinhos e cantarolei “pisa fulô, pisa fulô”.




Meus pais também contam que João, analfabeto, por vezes tinha uma inspiração no meio da noite e pedia para o mais próximo companheiro de copo que anotasse alguma coisa. Nem sempre esse companheiro era honesto; já houve quem levasse a anotação embora, para João se lembrar dela ao ouvir no rádio. Aliás, ele já ouvia algumas de suas músicas no rádio, gravadas por outras vozes, enquanto ainda trabalhava na construção civil. Ele comentaria com um colega pedreiro, que riria de sua pretensão: “até parece que você que fez essa música”. Quem o ajudou muito foi José Sarney. Na música “Minha História”, João lembra quando vendia doces na porta de uma escola no Maranhão. Sarney era um dos alunos. Mais tarde, lhe arrumou dinheiro quando João precisava.

A última vez que minha mãe viu João do Vale foi quando ela estava grávida do meu irmão. Ele brincou: “agora desandou a parir e não para mais”. João morreu em 1996 e tem um documentário bacana contando sua vida. Mas falta alguma coisa. Minha vida.



 Bárbara Lopes, não gosta de doces, é paulista, jornalista, prefere calor (talvez porque toma chopp), ama gatos, e escreve no Blogueiras Feministas e no Feministas na CozinhaA cada semana residente aqui, uma característica a mais na apresentação. Vamos brincar de prazer em conhecer
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