Quero. Quero que meus dedos sejam pincel e escrevam no teu corpo as letras do meu desejo. Quero. Quero fazer, da saliva, tinta, desenhando os indecifráveis signos da fome no ventre. Quero. Quero as narrativas sem sentido e as palavras cantadas como gemido na tua boca. Quero. Quero fazer do teu corpo mata-borrão do prazer que me sei dar. Quero. Quero deitar a cabeça no teu colo como se fosses livro e sugar-te como se ler fosse em quente sabor na língua. Quero. Quero as histórias do prazer em tatuagens passageiras pra começar a reinventar-nos logo a seguir do gozo. Quero. Quero esquecer os imperativos, a primeira pessoa, o verbo querer e deixar-me, pele, papel, pincel e letra, tudo eu, tudo teu. Até que, de novo, seja eu a escrever: quero.
No fim da década de 60 e começo da de 70, Gal Costa cantava com ênfase: meu nome é Gal, e desejo me corresponder com um rapaz que seja o tal, meu nome é Gal e não faz mal que ele não seja branco, não tenha cultura, de qualquer altura, eu amo igual e tanto faz que ele tenha defeito ou traga no peito crença ou tradição, meu nome é Gal, eu amo igual...eu tenho meus momentos Gal, e eles não são poucos. Mas tenho tentado construir uma vazante qualquer. Um pré-requisito. Eu sei, eu sei, os pré-requisitos que verdadeiramente contam são os inconscientes, uma covinha, um jeito de segurar o copo, a sensação de segurança, anyway, meu pré-requisito atual e consciente é saber quem é o Tennesse Williams. Pode ser o básico, franzir a testa e dizer meio na dúvida: o bonde chamado desejo, né? Já passa. Isso, claro, quando o mundo não me atropela. Tenho a impressão que ando sempre bem no meio de uma autoestrada. De salto alto e vestido de seda vermelha. Pra ficar absurdamente surreal, provavelmente eu estou de sombrero. Bom, já deu pra pegar o clima. Um dia desses fui atropelada. É até gostoso ficar ali esparramada, meio desligada, sem sentir muita coisa a não ser uma certa surpresa por ser eu. Foco: o mundo feito carreta esbarrou em mim mas eu ainda tive tempo de gritar: tennesse williams, o motorista sorriu compassivo e disse: sei. E sabia. Sabia mesmo e tanto que me disse: Livro. Cabeceira. Não, não era um convite pra ler na cama. Era uma senha de me desnudar. Se você não assistiu, nem sei como te dizer: está perdendo! Eu estava me perdendo. Livro de Cabeceira é do mesmo diretor de O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante e – todos sabem – estética deslumbrante e histórias sobre o prazer ele sabe contar.
Há dois tipos de filmes que me inquietam: os que me são muito distantes e os que são próximos demais. Quando me indicaram este filme – eu desconhecia quem dirigia -e assim que as primeiras imagens surgiram na tela, logo o pensei no primeiro grupo. Enganava-me, sob o véu do desencontro era dolorosa e saborosa intimidade o que o filme me oferecia. É um filme ocidental, embora utilize-se da mediação do que é o Outro: o Oriente, para justamente aproximar-se e afastar-se dos símbolos que nos são íntimos e do dito que, de tão nosso, é absolutamente indecifrável.
O filme me atingiu de várias formas e em muitas dimensões: o apuro estético, a narrativa insólita, a questão da escrita, o erotismo sutil, o tornar-se mulher, perguntas mais que respostas, propostas. É um filme de lindas imagens, como retratos de um sonho que gostaria de guardar, mas que me acanharia em mostrar a não ser em tardes solenes, depois do sexo, quando tudo que é morno e rubro fica cálido. Mas não é só isso. Ou não é por isso. Será preciso muito mais que um post de blog pra acolher tudo e tanto que me é próximo e eu ainda estou me aprendendo no que tanto gostei. Por agora, há um sentir de espelho em:
- uma filha que se inscreve, teimosamente, na linhagem de um pai que é, necessária e simbolicamente, maculado;
- uma inscrição que é fálica, porque garantida e suportada em letras;
- mas uma inscrição que é, também, Outra, porque no corpo, apontando para um gozo além;
- uma proposição de relação baseada na troca entre letras e sexo;
- uma menina que se torna mulher justamente deixando o lugar de papel e ocupando-se do pincel;
- os sentidos todos em festa, as pulsões em alvoroço: visão – o azul escuro, o corpo como objeto a ser decifrado; tato – a pele como papel, o papel como pele, a textura como indicação de prazer e comunicação; o olfativo: o cheiro do papel como o odor de uma amante, a audição – as canções chinesas suavemente pontuando a identificação feminina; o paladar – a escrita deve ser provada, saboreada.
- um amante que se faz objeto, objeto a para o gozo dela, ainda que em outro lugar. Gozo que se torna mortífero quando não há borda;
- um amante que é, sintomaticamente, tradutor;
- um livro que ocupa lugares insuspeitos, que é um, mas é vários, que se desloca e é deslocado e que se consolida apenas em morte.
- o corpo como expressão e mediação do pensamento;
- um texto que diz: “só há duas coisas confiáveis: o prazer da carne e o prazer da literatura” (quanto tempo passei tentando expressar isso, sem essa objetiva e pertinente clareza)
- um outro que só pode ser completamente amado como livro, como objeto, como memória;
- separação entre potência criativa e falicidade, com a identificação de Nagiko à Sei Shonagon a partir do decisivo momento em que Nagiko não só se vinga do editor que parece apontar a incompletude e mácula paterna mas também do pai, na figura do editor, pai que lhe negou o olhar e desejo que ela demandou (como demandamos todos)
- a linda e delicada metáfora que sobrepõe aos textos iniciais - efêmeros e laváveis, que demandavam o corpo masculino para terem valor, como se a inscrição fálica fosse a única possível – uma tatuagem permanente, visível na amamentação, a estabilização do feminino sem prescindir da escrita, antes, afirmada por ela...
E eu nem disse ainda da beleza da protagonista; do Ewan MacGregor novinho e sensual; do lance Iago que dá tempero à narrativa em certo momento; do impacto visual que os Livros, insinuante e logicamente localizados e nomeados, provocam; o cuidado evidente na concepção de cada cena; a trilha sonora obsedante e como eu tive que assistir imediatamente de novo assim que terminaram os créditos finais. Nem disse da minha boca seca, do corpo pendularmente em pânico e acolhimento, da necessidade de me deixar adormecer, da ânsia de letra, tinta e papel. Eu nem disse e talvez não diga de como o motorista da carreta me deu vida ao me dar mortes: a primeira delas na autoestrada, eu nunca mais fui a mesma. Outras, a seguir, espero. Por falta de termo melhor.
Em tempo, há as listas no filme.
A minha, de hoje: Coisas que excitam
O roçar da barba na nuca
Uma mão apertando a coxa
Riso na voz
Barulho de chuva
Folhear um livro
Encaixe de pernas
Gosto de sol e sal
Falar sem pressa
Habilidade com o sutiã
Mordida no ombro
Café: preto, forte, puro, na cama
Encostar no peito
Beijo na palma da mão
“I am certain that there are two things in life which are dependable: the delights of the flesh and the delights of literature. I have had the good fortune to enjoy them both equally“
"Eu envolvi esse livro em minhas pernas. "








