domingo, 5 de junho de 2011

Histórias de Joana - A Querida*


 Hoje é aniversário da Joana. Eu ia dizer: a do cemitério querido. Mas não. É aniversário da Joana, minha amiga. Ela que tem sempre uma palavra alegre, uma companhia solidária, uma ponderação lúcida. Ela tem o riso no olho, eu adivinho e isso é dos mais garantidos caminhos pro meu bem querer. Ela tem filhas lindas e escrita instigante. Ou o inverso, vá saber. O certo é que ela habita os campos do Direito, as campas do cemitério, mas habita, também e sempre, o lugar do meu afeto. Há muito que ver e aprender com Joana: o humor rápido e distante do óbvio, a reflexão ponderada e visionária, a indignação com o que ofende ao humano, a versatilidade de temas, a sensibilidade extrema para a beleza. É aniversário dela: Joana. Listo mentalmente todos os mimos que gostaria de enviar-lhe, tudo que poderia agradar e surpreender, interessar ou provocar. São planos. Disseram—me, hoje, que não há pequenas distâncias. Um dia, então, será um abraço. Por hoje, os votos: que a vida seja farta. Que seja em cores. Que seja silêncio, quando preciso, mas seja mais sons e risos. Que haja gosto, sabor, que ainda que não seja doce, seja menos ainda insossa. Que seja, a vida, em amores e amigos. Que seja em sonhos. Que seja. Parabéns, querida. 

Uma das coisas mais doces, mais belas que conheço é a canção João Valentão..."assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar...".  Espero que goste, querida. Com Maria Bethania, com Gal Costa, com Elis Regina, e a fantástica interpretação de Nana Caymmi.


* O título do post faz referência a uma excelente série que Joana escreveu sobre relevantes Joanas da história. Já recebi uma no Eu Sou a Graúna, lembram? Uma das que mais gosto é essa.

De Retalhos


 Tecido 1:
“Wilhelm, que seria do nosso coração em um mundo inteiro sem amor? O mesmo que uma lanterna mágica apagada! Assim que se põe lá uma lâmpada, imagens de todas as cores surgem na tela branca...E mesmo se fosse apenas isso – fantasmas –, ainda assim continuará fazendo a nossa felicidade, sempre que nos postarmos diante deles, como crianças extasiadas” (Goethe)

Tecido 2:
 "é barato viver como queremos e gostamos porque se paga com algo que não existe: a felicidade!" (nós que nos amávamos tanto)

Tecido 3:

  Agulha
"I'm very beautiful. But morally I stink." Eu e a Ava Gardner. Pelo menos estou em boa companhia.

Linha
Se eu estivesse sentada numa mesa de bar, hoje, com alguém a quem quero bem, eu diria: assiste “Nós que nos amávamos tanto”. E mais, acrescentaria: a seguir, vê lá “Estamos todos bem”. São dois filmes tão ternos, tão generosos com as limitações humanas. Eles parecem nos dizer: sim, ok, eu sei, acarinhando-nos não de forma condescendente, mas sentida. São filmes que sabem. Que nos sabem. Eu amava estes filmes antes de vê-los, pelos nomes que me comoviam e pelos diretores que eu admiro: Ettore Scola e Giuseppe Tornatore. São líricos, eis a palavra que me escapava.

Uma Colcha
“Estamos todos bem” é uma jornada. Um caminho de desencontros e surpresas. Filmado por um dos meus diretores preferidos (Cinema Paradiso é uma obra de arte), com interpretação sublime de Mastroianni, é daqueles filmes que nos faz querer abraçar os personagens. Mais: faz-nos querer sermos abraçados. Porque viver dói. Amar dói. Seguir dói. E, tantas vezes, é preciso dizer uma mentira que se faz verdade: sim, estamos todos. Sim, estamos bem.  É preciso em um arranque último poder dizer: estamos todos bem.

E “Nós que nos amávamos tanto”? Bom, tem uma Luciana. E ela mobiliza a trama. Mas não é isso que faz este filme ser tão querido (ou não é só isso). É que este filme é melancólico e engraçado, é um painel de uma época histórica e, ao mesmo tempo é universal e atemporal nos seus temas. O diretor brinca com o tempo: o tempo de aprender a viver. Há humor e há poesia, há aproximações e afastamentos, há paixões de todos os tipos. É um filme sobre sonhos não realizados que zomba dos absurdos da vida de um jeito nostálgico. Confesso que uma das coisas que me encanta são as citações cinematográficas, como a recriação da cena de Anita na Fontana di Trevi.

São dois filmes adultos. Para adultos. Filmes que não são “difíceis” mas que trazem questões próprias do amadurecimento e colocam em xeque as opções, os caminhos, as paixões. Trazem lindas metáforas. São elegante e inteligentemente dirigios. E, principalmente, tem roteiros invejáveis. Em Nós que nos amávamos tanto, uma daquelas frases que nem parecem que foram escritas, parece que sempre estiveram por aí para nós a sabermos: "é barato viver como queremos e gostamos porque se paga com algo que não existe: a felicidade!" -

Fazendo a barra...
 E no clima junino e sertanejo, vamos brincar de saber os dois (pelo menos) sentidos das palavras...você sabe esclarecer: peba, caco e cabaça?

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Como Um Romance

Um romance precisa ser cada vez mais outra coisa. É. 
E outras coisas precisam cada vez mais ser um romance. Né?


Uma voz. Uma voz cantando.
É simples o que nos faz sorrir.


As palavras tem peso. 
Um corpo também


Vontade de ficar perto, se longe
e mais perto, se perto.
(ai, seu Vinícius)


Carta de apresentação:
sou de peixes e gosto de beijar.




quarta-feira, 1 de junho de 2011

No Tempo Certo

Olha pro céu, meu amor
veja como ele está lindo...


É junho. Já sinto o cheiro de mugunzá. De pamonha. Canjica. Já os pés mais leves de quadrilhas lembradas e esperadas. Já cores e promessas de risos a mais. Um último réquiem para maio: começaste muito pior do que terminaste. Em algum momento me trouxeram de volta o riso. Trouxeram-me a espera e a inquietação. Não faz mal, melhor o tanto querer que me agita que a apatia e desesperança. 

É junho e há tantas cores a mais. E vestidos. Bandeirinhas e balões. Há mais música, sanfonas choradeiras a me convidar o corpo. Há anseios por salas de reboco. Há inesperadas coreografias ou ensaiados passos. Há chuva, mas de bala. Há santos que casam e tantas simpatias. Acho lindo esse nome: simpatia. É lúdico e escorre da língua. Dá vontade de sorrir. 

É junho e há um certo cansaço de fim de semestre, mas é morosidade de fim de tarde e rede na varanda chupando rolos de cana. É doce. O corpo se lembra de se saber carne. Gosto dos momentos finais do semestre, o assombro de alguns, a tranquila certeza de uns poucos, a agitação de muitos. Gosto de olhar acertos e equívocos e já saborear a expectativa do novo, do outro, do próximo.


É junho e há chegadas. Há amiga que cruza o oceano. Traz, nos olhos, no colo e no riso, um saber novo. Eu a espero com um querer bem que se faz abraço e histórias e silêncio, muito silêncio de simplesmente se olhar e saber que uma e outra se são em amor. Há amigas que vem do Sudeste. Ali, de um frio sem espelho aqui. Vêm em encanto, em conversa, em aprendizado. Vêm em entrega. Em revelações. São bárbaras. Desbravam meus caminhos e me dão a conhecer. Eu as espero com varandas, livros e cervejas. Eu as espero com solar afeto. Com risos e danças e juninas belezas.

É junho e as meninas só pensam em namorar. E usam saia que termina muito cedo porque facilita. É junho e eu não preciso chorar porque a sanfoninha chora chora a minha dor. É junho de terreiro iluminado, de fogueiras saltadas, tempo em que eu me amoreno em cheiro de fulô. Junho de cabo a rabo tempo de sentir o sertão latejando no pulso.  


É junho, não mais maio, não ainda julho. É junho. Junho. Junho em amarelos. Em sol. Calor de praia. Convite. É junho para os sentidos. Para ver o que há pra se desejar. Cobiça. É junho pra ouvir. Vezes e vezes a voz se fazendo música. Junho para tocar, a pele se fazendo seda. Para provar. Deixar-se ser sabor. Junho para oferecer. E torcer. Junho para despir a tristeza de maio, a angústia de maio, o vazio de maio. Nua de maios, estou pronta. É junho. 



Há Canções e Há Momentos

Nessa cidade todo mundo é d'Oxum. 
Eu sou.


Momentos
Eu sei da impossibilidade de fazer do afeto uma coisa material. Se ele, querer bem, sequer pode ser dito completamente, que dirá cristalizado em coisas que mal conseguem se evadir da lógica do consumo. Mas tentamos, porque a nossa seara, dizia Lispector, é a das palavras discursivas e, acrescento eu, da materialidade do mundo vivido. Assim, sigo expressando de forma inferior o que me anima, em abraços, cartas, bombons, livros, discos, tudo isso vãos indícios do sentir. E, também assim, reconhecendo o que não está todo na matéria, sigo me alegrando quando o bem querer chega em coisinhas (inha como carinho e não como definição de tamanho, massa ou importância). É, o carteiro estranha, porque recebo umas coisas e me ponho a saltitar, menina de novo, feliz com aquele laço azul de que falo sempre. Põe brilho no olho. Foi assim quando chegou o livro que a Amanda encomendou desde lá da França e ele pousou, morno e cálido, na mão. A metafísica dos Tubos, eu a descobri e aprendi porque Amanda tem um coração generoso.  E veio Fernando Pessoa, em dvd, pra me apresentar Lisboa. Foi Teresa, que algumas vezes vem fazer brilhar esse espaço, quem fez a alegria nesse dia. São muitos e tantos exemplos, o livro da Lilian que a Rita gentilmente enviou. A lembrancinha de recém-nascida da Sofia, que atravessou o oceano porque minha amiga Hertenha assim o quis lá da distante Holanda. As cartas que a Dani e o Rafa e a Lu Guedes me escreveram (mesmo as que não chegaram) e que me fazem companhia em horas de cinza no olhar. O livro que a Joana mesmo escreveu e que me enviou com tanto afeto. E, ontem, chegou o filme que o Sérgio me mandou. Elvira Madigan. Um filme assim descrito: "sua beleza forte, escandalosamente colorida, solar" e que chega em minhas mãos só pode ser um mimo a ser festejado. 

Sinto-me grata. Um sentir morno, de colo ou de praia de manhã cedo, deixa disposição na alma. Obrigada, obrigada, obrigada. Eu nem sei dizer toda a gratidão que sinto por este espaço ter se tornado ponte. Entre eu e você que lê, que deixa seu afeto em letras que é, também, uma tentativa de dar forma ao que se sente. Tanta gente especial que me chegou por aqui, de forma direta ou indireta, gente como a Thayz, a Cecília, a Barbie Lopes, Iara, a Bárbara Manoela, a Cláudia, a Renata Lima, a Srta. Bia, a Marília, gente que se faz presente todo dia e que se eu não troco uma palavra, um cutucão, uma idéia é como se não houvesse temperado a comida. Gente como a "turminha do melville" (Iara está em todas, né) de quem preciso. Gente que eu não preciso nomear porque se sabe no gtalk, no msn ou simplesmente ali, onde não há mais nada só o querer bem.

É tão mais fácil amar, tão mais gostoso querer bem. Obrigada por sempre me lembrarem isso: os comentários são como afagos. Ou abraços.


Canções

Tem música que eu preciso ouvir bem alto. Que me cutuca por dentro. Que joga sal nas feridas que eu nem sabia que tinha. Que me comove sem eu saber porque, já que me levam onde nunca estive e por onde jamais senti. Elas ardem. E o Belchior tem um jeitinho especial de compô-las. Eu sei lá o que me dá quando escuto: "cada um guarda mais o seu segredo, a sua mão fechada, a sua boca aberta, o seu peito deserto, a sua mão parada, lacrada, selada, molhada de medo". É muita dor, muita. E liberdade, sabe? Como se tudo rompesse, dique esfacelado, invasão, inundação de sentir. Tudo, tudo, tudo em nervos expostos. Ou quando toca: "calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado lá no campo ainda era flor" e eu sei lá o que é que essa imagem tão doce faz em mim que logo me dá uma nostalgia das felicidades que nem tive. E, ainda: "mas quando o canto for tão natural como o ato de amar, como andar, respirar, dar vez e voz dos sentidos, Virgem maria - dama do meu cabaré, quero gozar". São todas terríveis. Absurdamente feliz, aqui.

E a que me diz toda, inteira, intensa e, ao mesmo tempo ,a que nunca foi.  Qual a canção que te desnuda? Que chega antes da compreensão, chega em sons e arranjos...

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