sexta-feira, 20 de maio de 2011

Dos Nós ou Era Uma Vez, Outra Vez

De vez em quando é preciso um delicado tapa com luva de boxe nas nossas idealizações sobre o amor. Foi assim quando, convidada pela minha amiga HG, vi a peça Era uma vez nós dois.  Na época ela pediu e eu escrevi um texto pra publicação. Passou-se, o será dela tornou-se um é, o meu é virou um era e hoje esbarrei no texto entre os esquecidos no canto escuro do hd. Dei uma mexida porque só era compreensível pra quem tinha visto a peça. Dei uma mexida, também, pra que ficasse tolo. Meio bobinho, sabe? Tipo com rima? Porque sempre escrevemos coisas grandiosas sobre o amar, coisas solenes, mas amar é rir junto de uma mancha de graxa na bochecha. Amar é ridículo. Então, este post vem com um ar atrapalhado, sem referências cults. Quando a gente ama, pesa a mão, perde o ritmo, tropeça. É isso.


Então, era uma vez nós dois porque é só como ficção que o amor se faz possível. Amar é uma espécie de enganação em que nos fazemos de amáveis, fingindo ter e dar o que não temos e seduzindo o outro para que, neste mesmo jogo, realize a retribuição e fiquemos ambos a entregar o que não possuímos.

Era uma vez nós dois, porque ao amarmos, sofregamente nos entregamos ao delírio de ser um, de nos completarmos como metades da laranja; e aí, sermos dois, diferentes, já era. Era uma vez nós dois, que agora nos pensamos um, num lindo faz de conta, sem saber fazer uma conta essencial: de dois para um, um outro se perdeu, sumiu, desapareceu. Morreu? Alguém há de notar, para casar é preciso morrer. Algo de nós, perder. Às vezes de bom grado, outras com desengano... malgrado a intenção, no dia-a-dia, morre-se de montão. E, (entenda-se o humano!) muitas vezes, morre-se com satisfação.

Brincamos com a impossibilidade de encontrar a nossa cara-metade, de sermos felizes sempre e para sempre.  No amor, aquele que se diz amando, o que espera é ser amado. O que todos queremos é alguém que nos ame, queremos recuperar um estado de completude que nunca existiu, mas que permanece, imagem ideal, em nós. E é isto que exigimos do ser amado: que ele nos complete, agora, já; que ele não nos deixe mais sentir falta de nada, melhor, que ele não nos deixe sentir falta deste algo que não existe, nunca existiu e que a ausência nos incomoda horrivelmente.

No começo do amor, o amar é uma festa. Exultantes, exaltamos a pessoa amada pelo que lhe atribuímos; deduzimos: se eu não tenho o que me falta, está em ou com alguém, e lá vai a ilusão: "minha mãe me disse que eu escolhesse essa daqui"; é isso aí, o brilho que queremos para nós mesmos pensamos vislumbrar neste outro e a ele nos atrelamos. E ficamos juntos, como canta Chico Buarque, até que a casa caia, pequenos burgueses do querer bem, mantendo nossa quase fortuna parada na poupança, sem gozar de nada.

E chegam a promessa e solução, confissão e juramento; e, num descuido ou  distração, até o casamento. Tudo baseado na impossível promessa de fusão, sermos um só, sem saber do só depois, da incrível solidão de se manter uma relação. E haja combinação: Romeu e Julieta, Sansão e Dalila, Marília e Dirceu, sem ninguém reparar que nenhum destes pares teve final feliz, ou melhor, sem notar que foi isso mesmo que se apresentou para todos eles: um fim. Morte, deportação, degradação ou simples decepção. Fim dos mais variados, para o qual nunca estamos vacinados. Para fim de caso, não há prevenção.

Acreditamos, cada qual na sua incompreensão, que realmente tudo que possa nos interessar está no amado e que tudo que o amado precisa, encontrará em nós. Alguns chegam a fazer disto uma guerra, um apanágio do inferno: exigindo a plenos pulmões, sermões e senões que o outro lhe entregue sem demora o que o outro em verdade não tem para dar, exigindo que se faça da promessa, realização; que não apareça na relação um único senão. E que tudo se resuma a um pois é, pois sim, pois não.

Mas era uma vez nós dois, é também contar uma história, era uma vez e outra vez e mais uma vez e, de tanto repetir, adiamos o fim. Se o casal descobre a forma, a fôrma, de se alternar ora objeto que completa, ora sujeito completado, isto tudo - como já queria Vinícius, com muito riso e pouco siso; quando se permite a idéia de um querer que não nos imponha a abdicação de outros quereres, quando o amante vislumbra o se manter sem imolação ou sacrifício do outro no altar do desejo de felicidade constante e plena, aí aponta um sabor diverso do amor.  Uma compreensão que se apresenta divertida na combinação de apelidos e comida; sábia e saborosa brincadeira: "docinho de coco" ou "abacaxi", "carne de tetéu" ou "creminho de ameixa" ; o amor é comida que alimenta mas não sacia; enche, mas não preenche. O único sempre presente na alimentação é a fome, que se renova apesar da comida de ontem. A fome que não parte é a lembrança de que, para além do amar, está o desejo e que este é a borda, o apoio e o limite do amor.

Na lápide ou na cama, ou em ambos – tantas vezes, os casais descobrem que amor tem parentesco com o gozo, onde brincam e se imbricam vida e morte. Relação é corte. Por isso às vezes sangra. Todos temos nossos dias de Mae West, "quando eu sou boa, eu sou boa; mas quando eu sou má, eu sou melhor ainda". E negar isso não é só morrer, mas principalmente matar. Matar qualquer possibilidade de continuação. Relação é dia-a-dia e dia-a-dia é um dia depois do outro. Um termina para que o outro comece. Todo dia morrer um pouco, morrer no outro, suspiro e exclamação. A noite separa os dias. A noite é corte. Amor é corte. É morte. É o que anuncia (e se delicia...) nosso Lado B, noiva e viúva, amolando a faca e a língua. Sua ironia é saudade, eu sei e ela sabe, mas ninguém faz alarde. Sua ironia é vontade, outro amor, quem sabe?
     
Era uma vez nós dois, pois só com humor sutil  que nos faz rir do nosso próprio ridículo, de nossas fracassadas tentativas de relacionamento, de nossas disfarçadas esperanças; é que se faz, do amar, um espelho, onde o que era esquerdo fica direito; o que era prejuízo, vira riso; e o sentimento não se desfaz - gabola, fica em cartaz.   

Então, foi bom pra você também?  

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Femme Fatale, Sombras do Gozo

O feminino sempre foi o obscuro da psicanálise. Freud inquietou-se a ponto de esbravejar: “o que quer a mulher?”, impossível resposta, afiançou Lacan, traduzindo a pergunta para um mais possível: O que quer uma mulher?
O feminino situa-se, psicanaliticamente, no limiar do gozo e não se traduz num dito. O feminino não tem registro. É a sombra. Uma incontornável oscilação, entre o culto à mulher como enigma e o ódio à mulher como mistificação. Ambas as posições apenas acentuam o desconhecimento da verdadeira questão: a feminilidade. Nessa perspectiva, não à toa é a sedução do feminino que emerge sempre como perigo e vertigem para os personagens dos filmes noir. A constante relação de atração e repulsão entre os protagonistas - geralmente detetive e uma mulher misteriosa – constitui uma das prementes características do gênero. E não é assim, sempre, a relação do neurótico com a possibilidade de gozo? Sente-se atraído por ele e o recusa, vislumbrando ali, no gozo, o mortal?

Os filmes noir dispensam apresentação. Retratos de sua época, apresentam um mundo de luz e sombra que dilui a moral maniqueísta - que dividia o mundo em bem e mal – em um jogo ambíguo em que a decadência, a desilusão e a incerteza são constituintes dos personagens. De forma reducionista, pode-se dizer que um típico filme noir apresenta uma série de particularidades: opera no cenário do submundo do crime; o (anti) herói é predominantemente um protagonista masculino que se vê envolvido com duas mulheres (ou com uma mulher que oscila entre os dois papéis, a mocinha inocente, devotada e leal e a femme fatal, ambígua, perigosa e excitante); o ambiente noir é predominantemente obscuro; o crime ou a ameaça dele são sempre presentes; o niilismo e pessimismo são intrínsecos a grande parte dos personagens; além disso, sob a influência do expressionismo alemão, o noir caracteriza-se tanto pelo uso particular da luz como, em termos narrativos, pela sofisticação e inovação no desenvolvimento dos enredos. Mais um pouco de clichês (deliciosos no gozo de repetir como em criança era bom a mesma história da mesma forma): ponto de vista dominante do protagonista masculino, aspectos conflitantes na narrativa e nas percepções dos personagens, uso sistemático de flasbacks e voz em off como modo de desconstrução e reconstrução da continuidade da história.

Uma das alegrias estéticas que encontro é, no noir, deparar-me com a realidade emergindo de forma onírica, com confrontos psicológicos tão frequentes quanto os físicos e o charmoso predomínio da ambivalência das intenções e gestos. Com narrativas formalmente marcadas pela desorientação e desconforto, com acentuada presença de comportamentos sociais aberrantes numa atmosfera intencionalmente dissonante, as narrativas noir não apresentam vencedores, vitórias ou possibilidades de redenção. O filme noir surge como teia de ilusões e de embustes que parecem conduzir à inevitabilidade da morte, acelerando esse processo tão humano. O noir um filme de morte. E morre-se em uma casa de espelhos, em múltiplas imagens e possibilidades de fim.

Esteticamente, os contrastes existentes no nível temático e narrativo se materializam nos filmes noir, privilegiadamente, nos altos contrates da luz. Como não lembrar Fellini? "a luz é a substância do filme e é porque a luz é, no cinema, ideologia, sentimento, cor, tom, profundidade, atmosfera, narrativa. A luz é aquilo que acrescenta, reduz, exalta, torna crível e aceitável o fantástico, o sonho ou, ao contrário, torna fantástico o real, transforma em miragem a rotina, acrescenta transparência, sugere tensão, vibrações. A luz esvazia um rosto ou lhe dá brilho.” Os filmes noir exacerbam esta concepção e apresentam o falso e o real unificados pela iluminação, com uso de contrastada fotografia em preto-e-branco, e de ângulos anti-convencionais, assim como de fontes isoladas de luz, profundidade de campo e locações naturais (isso não sou eu que digo assim da minha genialidade, é que fui ler sobre noir de tanto querer-lhe bem, em artigos científicos, dissertações, eita, tem um monte de material). 

O espaço da tela nestes filmes se tornou mais escuro, denso e profundo. As sombras não se ausentam, mesmo quando o protagonista entra em um ambiente qualquer e acende a luz, as sombras se mantém próximas e ameaçadoras. Aliás, os filmes noir apresentam, além da utilização estilizada da luz, uma série de recursos que acentuam o clima claustrofóbico e, ao mesmo tempo, sedutor, constantes na narrativa. O caráter erótico e fatal da mulher, nos filmes, é potencializado pela luz de alto contraste que esculpe o rosto e as formas do corpo da mulher, acentua os brilhos de sedas, pedrarias, lamês, as texturas nos tecidos vestidos pelas heroínas potencializam ao máximo o brilho da luz sobre eles.

Uma peculiaridade dos filmes noir que me agrada é que, apesar dos protagonistas serem, em sua maioria, homens, é do fascínio das mulheres que se trata, é a centralidade do personagem feminino que se leva na memória. É a mulher o personagem mais agudamente astuto, inteligente, intrigante. Seja ela a femme fatale, seja a redentora que remete o protagonista à possibilidade de integração num mundo estável (quimera que se perde, é claro, no decorrer da trama). Sabe, não importa que a femme fatale seja recorrentemente destruída nos filmes, é ela que se lança, incólume e vencedora, na lembrança dos expectadores. No filme noir, a questão do feminino tão cara à psicanálise se apresenta em todas as suas matizes: o que quer esta enigmática mulher que sustenta, provoca e perverte o protagonista? Como encontrá-la - objeto de gozo - e sobreviver? De onde ela fala - fálicos que somos todos - e pra onde ela aponta - o Outro gozo, que a todos encanta e atemoriza. O noir joga luz e brilho no feminino apenas para, em contraste, recordarmos que é na sombra que se coloca o feminino, no que não pode ser nomeado mas vivido.

Há muitos e deliciosos noir (em tempo, Má Educação de Almodovar, segundo ele mesmo, é um noir). Tem noir até com a Marilyn (e é um filme muito interessante passado em tempo real, tal como Festim Diabólico).  Tem Laura, uma aula de roteiro, direção e interpretações. Tem Bogart no que ele faz mais melhor: ser ele mesmo sendo outros tantos. Quem sabe faço uma lista...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A Menina Que Roubava Posts IV

Você conhece o Thiago Beleza? Já perdeu-se em suas letras, já se reconheceu Loco Por Ti America? Já se perguntou se Isso Aí é Literatura? Eu hoje percorri memórias e, delas, fiz as minhas. Ele escreveu um post, um belo post. Vai lá ler, vai. Eu fui e me deu coceirinha de dizer igualzinho só que tudo diferente. Ele não nomeou seu texto, talvez porque não há nome para a interrogação que somos. O meu, chamarei A Banda. Porque, tal qual a moça feia, eu me debruço na janela. E, porque, em madrugadas, eu sei mais a psicanálise que diz que o superficial é o que mais fundo sangra.
A Banda
Coração vagabundo. Ou algo que o valha. Coração apenas, ou nem isso, porque não é no entra e sai de rubros que eu sinto. Mas me perco. De novo: meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim. E mais nada, de tanto guardar o mundo não cabe mais ninguém por muito tempo. Divago. Coração, é assim: seu ritmo monótono de quereres, decepções, sofrimentos, gozos, angústia. Dizem que bate assim: tum-tum. O meu bate assim: sim-sim. Conheço alguém e a paixão é o inferno e sou capaz de ir à loucura pra ficar com ela. A quem engano? Já sou a loucura e o inferno é a cavidade onde alojo meu coração. E quem conhece alguém de verdade? Reconstruo...encontro alguém e desejo com loucura trazê-la ao meu inferno e, num rasgo de gentileza, visitar seu inferno. Ou seu íntimo. O que der. 

É euforia isso que sinto ao penetrar-lhe carne, sono e sonhos? Parece que sim. Eu rio. Mas é preciso respirar e me perco. Tudo acaba, eu sei, eu sinto, eu quero que acabe porque o coração em sims não sossega. Recomeça a pedir batida além, outro inferno a vasculhar. Chafurdo em olhos que são espelhos e me confirmam a loucura. Que é estar vivo senão ver-se no desejo alheio? Confirme, meu querer grita de encontro a uma nova boca, novas pernas enroscadas nas minhas, animal de quatro patas eu sempre me soube, sentimental é apenas a canção, eu sou corpo que lateja. Nas extremidades os dedos curtos já não abraçam o mundo, mas insistem em fazer-lhe cócegas.
Aprendi um nome para não gritar o meu: tsunami. Acho bonito dizer: devastado. É meu coração, impróprio para futuros mas de uma beleza de morte. Sinto-me viva ao caminhar no cemitério dos anseios alheios. Venta, você sente? Embaraça cabelos, olhos, mãos. Venta e chove, sangra, talvez, mas isso são poesias pra dizer um só sim: sozinha. E começa tudo de novo. E nunca é igual mas é sempre o mesmo.
E meu coração que bate em sim-sim recorda que soa como não e não. Fidelidade? Não. Lealdade? Não. Vergonha? Não. Verdade? Não, nem mesmo nessas palavras que insisto em emendar uma na outra pra não saber. O quê? nada. É só. Sou só. Há quem chame egoísmo. Eu já naveguei em mim mesma pra saber que é só voracidade. E arde. Dói. Em mim. Sempre em mim até quando é em outro que sangra. Porque a lâmina que corta é meu anseio. Gosto de pensar que dói mais aí do que aqui, mas também isso faz parte da minha loucura que não é nunca perdoada porque metade de mim não é amor e a outra metade perdi deixando-a como miolos de pão na floresta pensando em reencontrar-me, talvez. Em inocente desinteresse, anuncio: relacionamentos começam onde terminam, em uma recusa de respirar. Amar tira o fôlego. Morrer também.
Eu já não faço planos, eles é que me fazem em juras de desenganos eternos enquanto duram. Eu gosto de mentir. De dizer: agora quando eu sei que é nunca. E dizer que é sempre quando sei que é agora. Eu escolho a desesperança tatuada de gozos. Tudo acaba, tudo acaba, tudo acaba, mas enquanto repito isso, isso não cessa. Mas eu respiro e é de novo o novo. As pessoas não mudam: elas são sempre incompletas. Eu não mudo: sou em falta e não cesso de querer o que não está. Mesmo com a corda no pescoço.

E é por isso que escolhi fios de seda e trago tesouras nos olhos. E nas mãos. Personagem de mim mesma, arrebento como ondas e moldo as rochas ao meu redor. Vou sempre embora, chego sempre. É o ritmo, lembra? Sim-sim querendo dizer agora, só agora. Deixo-me navegar. Afogar-se em mim queima a garganta, aperta o peito, faz arder.
Há quem pense. Não. Ninguém pensa quando aceita o inferno de dizer: amo-te. Procuram a vida e encontram o labirinto. Em cada parede arabescos de quem passou em confusão, volubilidade, raiva, incerteza, vulnerabilidade, frustração. Porque é disso que eu sou feita, paredes rabiscadas em direção a um oco.
Se todos os labirintos, digo, se todas as pessoas são iguais é porque se está olhando apenas o vértice do labirinto. Não tenho vergonha do meu percurso. Não tenho orgulho. Não tenho nada senão passos que me levam a caminhar o teu vazio. Em grandes erros, sigo, causando estragos e transtornos, rabiscando paredes alheias, procurando passagem e, na falta dela, arrombando paredes e deixando portas atrás de mim.
Não sei o que há no fim do percurso, no meio do labirinto, na margem da estrada, nem mesmo sei onde piso, mas desconfio que isso tudo me leva tão longe quanto se possa estar de alguém, ou seja, bem dentro e bem fundo.

domingo, 15 de maio de 2011

Cavernas e Cicatrizes

Cavando por aqui
Algumas vezes escrever é como caminhar no pó de estrelas, lúdico e brilhante, e a gente se sente um tanto Wendy, fazendo a curva no Big Ben e partindo para o mágico espaço onde agora é sempre. Mas, confesso, na maior parte das vezes, escrever é desbravar cavernas subterrâneas, onde incessante se escuta o gotejar das dúvidas e a mágica possível é continuar respirando e acreditando que o sempre é só agora e um nunca prometido e visionário está em alguma curva, em algum vão, no próximo tropeço, talvez. 


Talvez, aceito, para alguém, escrever seja um piquenique em tarde agradável, mas pra mim, usualmente, é escalada ou mergulho, excesso ou falta, fome ou gozo. Nunca paz. Como amar, talvez. E eu estou aqui, sempre, escrevendo. Porque viver é ter esta  voracidade de sentir. Não por escolha, mas porque viver é sentir intensamente cada falta. E é tão bonito uma língua que comporta esta ambiguidade, porque viver é sentir cada falta: cada ausência e cada erro. Eu sinto. Sinto todos os caminhos que não percorri, todas as escolhas que não fiz, todos os lugares em que não estive e sinto, como uma amputação, todas as palavras que não foram minhas. Sinto as ausências, o querer que lateja a alma e faz dos olhos os úmidos memoriais do querer. Sinto cada falta deixando suas marcas no corpo e amo as cicatrizes pelo que são: a escrita do tempo. 

De quando em quando eu me reinvento em vinícius. Assim, sem maiúscula mesmo, ele que se fez em diminutivos o mais querido poetinha pra melhor caber nos intervalos entre desejo, desilusão e esperança que costumam fazer latifúndios nos corações e memórias. Foi com ele que aprendi a nomear meu desapego: meu tempo é quando. Foi com ele que defini meu estilo: é melhor ser alegre que ser triste. Foi com ele que construíram o mais belo espelho e me puseram uma flor imaginária nas mãos. E é com ele, todos os dias, que me lanço sem redes de proteção e mãos estendidas: a vida só se dá pra quem se deu, pra quem chorou, pra quem amou, pra quem sofreu.

Cavando por aí
De vez em quando eu me reconstruo em enredos. Foi o que fiz por estes dias. Já contei os cansaços de maio. Mas escolhi ser alegre. Escolhi seguir. Peguei minhas muletas de sempre: um olho para os livros, outro para os filmes. E tantas belezas há pra se ver e rever. Tanto a construir em mim, tantos espaços sem nome, tantos ditos sem ritmo. Vi Enrolados e foi belo, apenas um tom a menos que o encanto. Revi Denzel Washington n'O Grande Desafio (se você não viu, corra, corra, é daqueles filmes que cada momento sem ele é um dano incalculável) e revi o meu sempre escapista e delicioso Maior Espetáculo da Terra. Encontrei Dustin e Emma e um pouco do meu mal jeito no Tinha de Ser Você, uma excelente história de um encontro maduro e possível. E me surpreendi com Tempos que Mudam e suas impossibilidades tão ternamente retratadas. Sem falar que C. Deneuve e G. Depardieu juntos é bom demais. Li, em uma crítica do filme, a frase que me tocou: seu crepúsculo é uma aurora. É assim que tenho sonhado o viver (tenho a impressão que amanhã revejo este filme e falo mais sobre ele que me deixou um tanto engasgada).

E vi o inesperado Peter&Vandy. Ah, que bom que vi. Que bom que é. A bem da verdade, é um filme meio sem nada. Não tem grandes atores, não tem grande trilha, nem mesmo tem uma história com reviravoltas, sobressaltos, ápices. Tem uma direção segura, diálogos interessantes e uma abordagem inusitada (o recorte temporal é encantador). O melhor do filme é sua simplicidade. O jeito honesto com que apresenta um amor tão cotidiano que alguém pode ficar se perguntando...ora, porque eles se amam? Porque gente ama. Simples assim. E gente sofre (a incrível disputa na cozinha por causa de um sanduíche mostra bem os despropósitos humanos). E gente ri. Gente se confunde, duvida, esquece. Gente cuida. Ah, gente sente. 

E eu convido pra visitar meus outros espaços:

No Feministas na Cozinha, além da receita de dois tira-gostos, tem um tanto de história...
Eu não ando muito bem. Maio não tem sido clemente, o tempo e o bolso bem menores que as demandas. A angústia que só sai do sótão muito esporadicamente resolveu se instalar na sala e uma solidão danada no corpo faz tudo parecer um tantinho mais cinza. O sem sabor chegou? Deixo entrar, vivo, (me) acolho. E deu. Levanta, sacode a poeira e bola pro mato que o jogo é de campeonato. Porque isso de viver a tristeza eu faço, mas curtir a tristeza não é da minha índole. Saquei minha oração do AA (bláblá aceitar, coragem blablá mudar, sabedoria pra distinguir e tal) e fui direitinho pro que posso mudar. Por exemplo: a foto do meu avatar no twitter. Mudei e coloquei meu maior sorriso. Continua aqui.

No Outras Borboletas tem um dos textos que eu mais quis ter escrito na minha vida: namore uma garota que lê - acho que vou mandar fazer cópias...
Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas. Continua aqui.

No Eu Sou a Graúna tem cinco posts novos seguindo o Desafio das Listas...já foram:




sexta-feira, 13 de maio de 2011

De Tempos em Tempos (resgatando o que o blogger levou)

Primeiro Tempo
Desde muito cedo eu quis que já não fosse. Sempre tive pressa, sabe. Ânsia de saber muito, quando descobri que tudo era o impossível. Sôfrega de vida, de sentir, daquele frêmito que me diria: sim. Um risco enorme: de viajar, sem ver a paisagem, querendo chegar ao fim da estrada. Minha sorte, minha sina, descobrir que o quando é tão bom quanto o onde e muito melhor que o se. Eu sempre tive fome do que não havia e que deveria, deveria... e a palavra faltava, o ar faltava, o chão faltava e eu caminhava em estrelas. Eu sempre. Isso me vem tão fácil e, ainda assim, eu nunca. Ou: eu quase. Sempre não é todo dia, não é fácil repetir o Oswaldo. Meu sempre vem em vírgulas de satisfação e certezas. O sempre é a angústia em intervalos de completude. Minha angústia é o óculos de ver as belezas. Sem me saber incompleta, como saberia a suavidade da seda, o amargo da cerveja, o sabor da língua outra na minha? Sem me saber em falta, como nomearia a umidade no corpo de antecipar um você? Saber-me é encontrar os furos, as ausências, os vazios. Saber-me é dizer: preciso. E, ainda assim, olhar o meu olho no espelho em sorrisos de amor. Eu amo. Amo esse eu que precisa, que se sabe em imperfeitas belezas. Amo esse eu que tem sonhos e carne e passado e futuros. Amo do jeito que amo: em reclamações, lundus, afagos, exaltações e temores. Amo nos tempos que vivo: passado mais-que-perfeito, futuro do presente, imperativo. Amo em gerúndios: andando, chorando, lendo, querendo. Amo até, em subjuntivos: quando eu consigo, se eu falar, que eu trabalhe...mas, por índole, amo mesmo é no presente do indicativo e em verbos irregulares: eu faço, digo, dou, sei. Amo. Aceito. Dói, às vezes. Sempre não é todo dia também em interrogações.

Intervalo
E da madrugada que me ronda, eu encontro as vísceras da emoção jogadas no meu espelho. Culpa do intenso Thiago Beleza que me lembrou Elza. Como dizer de Elza? Uma voz que me rasga os sentidos? Um talento que me demanda desejos? Um cantar que me revira em avessos de mim? Uma inquietude que faz do meu viver um perguntar-se? Elza canta com seu corpo inteiro e além dele. Sua voz vem dela mesma: da coxa, da bunda, da garganta, dos seios, dos olhos...e vem de um lugar outro, sem nome nem endereço, e que só se chega a custa de empenhar o coração. Fiquei de música em música como em uma viagem cujo destino esqueci, indo para lugar nenhum, e tudo que resta são as estações. Uma viagem que não tenho passagem, em um trem descarrilhado. Ouvi essa, com a Cassia Eller. E essa, de um tempo que é outro e é esse. E fiquei presa nessa,que diz de carne e sangue e cor.

Segundo Tempo
Ele segura sua mão. Ela, deitada, enfraquecida, muita pele, muito osso. Dor. Muita dor. Ele chora. Ela, não. Ela não produz mais lágrimas. Produz ausência. Lembranças. Ele lembra: o riso, sempre. O primeiro beijo, tudo errado, dentes batendo, línguas demais. Desejo. Recorda o choque do primeiro abraço, seus corpos repentinamente sábios um do outro. Ruborizado, lembra os seios, jovens e duros, depois macios e pesados e, num depois ainda mais distante, saborosos e moles. Sempre dela. Sempre bons. Lembra a pele enrugando e a mão dele se perdendo nos cantos quentes: entre os dedos, atrás do joelho, entre as coxas, na curva do pescoço. Sempre pronta, ela dizia. Verdade.
Lembra as certezas que teve: pra vida toda. Só não sabia é que, mesmo toda, a vida também acaba. Lembra de esquecer a felicidade mas, em fragmentos, ela o machuca. Lembra as conquistas que avaramente empilhava e ela sempre tratava de zombar, ele fazia o inventário de sua felicidade e ela espalhava em ventanias de desassossego. Lembra as perdas, todas as perdas que eram vazios maiores que o espaço do seu abraço. Lembra que sempre queria mais e ela sempre tinha mais pra dar.
E, agora, ela quase não está mais lá. Ele segura sua mão pra que ela não parta sem que ele saiba. Não, ele segura sua mão para que ela não parta. Ele a quer, tanto. Ele, em pontadas, reconhece sua fome. Será? Vira a mão que segura com zelo e beija o pulso que se acelera quase imperceptivelmente. Ele sempre a tirou do prumo. Ele a olha. Olhos entreabertos, respiração difícil, osso, pele, dor. Ela adivinha. Sempre soube dos quereres dele no momento mesmo que. Quero. Tem certeza? Quero. Ele sobre na cama de hospital, alta demais, estreita demais, não importa. Ela está nua, coberta apenas pelo lençol. Levanta o lençol e, no abraço, inquieta-se com o corpo frio. Curva-se sobre ela com uma certa dor nas costas, a idade pesa nele um pouco menos, mas também já chegou. Desajeitado, repete o beijo. O primeiro. O errado. Línguas demais, dentes batendo, vontades que não se pode dizer. Que nem mesmo se devia sentir. Mas ela sabe, sempre o soube antes dele aceitar o querer. Ela ri. Ou não é riso isso que acende lágrimas no olho dele? Ela soluça. Em um arranque, leva a mão dele com esforço até a boca e, num movimento firme, chupa o polegar. Ele também arfa, meio sem ar. Ela sempre soube deixá-lo tonto. Ele chora. Ela não. Não produz mais lágrimas. Há um gozo em dizer adeus, mas eles não sabem. Nunca treinaram as distâncias e desaprenderam a conjugação no singular. Ela geme, ele já não sabe se de prazer ou da dor que é sempre dela. Ela vai embora hoje, ele sabe, ela sabe. Ele desliza pra fora da cama, pega um copo d’água, senta e segura, mais um pouco, a mão dela. Beija o pulso, mas já não há.

Final dos Tempos
O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. 
O senhor avista meus cabelos brancos… 
Viver – não é? – é muito perigoso. 
Porque ainda não se sabe. 
Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo” (G. Rosa)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...