“Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros.
Há no ser humano, e ainda nos melhores,
uma série de ferocidades adormecidas.
O importante é não acordá-las.”
Nelson Rodrigues
Eu já disse que maio tem sido difícil (e dá todos os indicativos de continuar sendo por bastante tempo)? Não que isso impeça o riso fácil, a vertente pollyanna e a vontade de sorver a vida em goles imensos. Não. Nada que atrapalhe a alegria de ver o Peterson de novo nos comentários ou ter reencontrado gente admirável com quem não tratava já faz muito tempo. Não. É só aquela dorzinha fina de viver, a certeza da incompletude, a percepção dos limites, o desconforto comigo mesma, com o mundo. É só aquela preocupação que nunca deixa desfranzir completamente a testa. É só aquela compreensão de que não foi a melhor palavra, não foi o melhor momento, não foi. É só aquela sensação de ter perdido alguma coisa, talvez o bonde, talvez eu mesma. E daí? Daí que eu vou me procurar onde me deixo em rastros: nas palavras. Minhas, alheias, tantas. Procurando o olhar generoso sobre mim mesma. Como disse Clarice... “para ter algum luxo, por deus, que eu também preciso. Amém, pra todos nós”.
Penso
Mulher bandoleira. Taí, sempre achei bonito mulher bandoleira. Porque não, se aprecio os cínicos e outros mais? Meu alter ego sempre foi assim: meio devasso e, por vezes, eu também. Mulher bandoleira, digo e explico. Refiro-me à liberdade. Acho lindo mulher livre. Livre para amar. Para se entregar e entregar tudo o que não tem. Acho lindo não ter medo de dizer: sim, morro por ti! E como é verdadeiro no momento dito e não tão, num possível momento real. Mas o importante é dizer. É ter a coragem, a vontade e a leveza de dizer: morro por ti! e não morrer. As mulheres livres, que sabem partir, são as que, penso eu, mais sabem ficar. E digo isso, claro, legislando em causa própria. Desde menina lá no meu espelho, em relances, eu via Gildas e luvas e Carmens de Bizet e tantas Lauras sempre femmes sempre fatalles dos deliciosos filmes noir. Fui me fazendo na distorção das imagens, prescindindo do batom e das peles glamourosas, mas ficando com a sábia convicção de que amar é estar presa a si mesma e a ninguém mais. Assim, quando amo é como música – mesmo – eu devoro todo meu coração. Quando amo nada mais há de interessante e belo que não se ligue ao meu amor e ao meu amado. Quando amo não há bandejas de prata suficientes pra fazer a oferta do meu coração. E quando parto é sem olhar pra trás, sem me fazer estátua de sal, deixando o amor virar suor, deixando que se vá, no esforço mesmo de partir. Bandoleira, coração em trânsito, mala permanente no pensamento.
Pergunto
Talvez. Talvez seja você, com seu ar meio sério meio moleque, quase doce. Talvez seja você, ácido e direto. Talvez seja você dos grandes silêncios e da forte presença. Talvez seja você, com suas músicas no lugar dos dizeres. Talvez. Talvez fosse isso que eu esperasse: uma conversa que nunca termina. Ou uma que ainda não começou. Talvez eu tenha que me fazer menina pra merecer você, tão antigo. Talvez eu vá crescer pra ficar contigo, menino. Talvez seja assim: tudo simples e fácil com você. Ou não, talvez seja essa ansiedade de dizer a coisa certa, de fazer a coisa certa, tudo mais elaborado e difícil. Talvez não seja nada, só essa vontade de caber na tua mão. Talvez seja muito, essa necessidade de me saber no seu olho. Talvez eu deva correr e te dizer toda essa coisa que eu ando a escrever. Mas desconheço todas as palavras. Quem sabe a gente dança? Eu quase adivinho seu corpo no meu, sua mão é quente e seu queixo faz cócegas no meu rosto, nuca, colo. Talvez eu deva sentar e esperar todas as voltas que o mundo tem que dar ao seu redor, todas as chegadas e partidas, todos os intervalos e hiatos. Talvez eu tenha que arrombar as portas e plantar-me no jardim. Talvez eu tenha que lançar-me do porto e esquecer todas as âncoras. Talvez eu apenas quebre o espelho, baixe as cortinas e soluce um tiquinho. Talvez.
Invento
Meu homem dorme e, talvez, seja a última vez que o contemplo assim. Tudo começou com uma exigência, não era pra ser importante, os que amam têm caprichos que são perguntas: você me ama a ponto de? São pequenos obstáculos, esmero-me em desafios triviais, não são testes de verdade, é só o hábito do imperialismo. Já que não sou senhora de mim - pois meu corpo e meu pensamento prestam honras, felizes, inclinados em sua direção – pergunto-me sobre este pequeno reino que é o cotidiano do insignificante. O objeto que desejei, eu suponho, diria de ti. E este é o meu campo de estudo. Empenho-me em desvendar teu passado, teus anseios e pendores, para, estando onde te falta ou fazendo faltar, deixar-te feliz. Sim, penso que meus propósitos eram nobres: testar, sem comprometer, nosso amor e aperfeiçoar-me na arte de te agradar. Clato, também esperava fazer soar a trombeta da liberdade. Minha pergunta a ti era uma pergunta sobre se eu ainda era capaz de alguma independência. Uma pantomina da minha individualidade. Eu esperava um pequeno gesto, entregar-me algo que estava em tua posse, mas que nem era teu, porque faltava um sentido que tivesses dado a isto. Parecia simples e teria um final feliz. Não estou mais certa disto. Ainda está mantida uma parte. Haverá um final, mas já não sei se feliz. Porque não foi fácil para ti como eu esperava. Ao invés de desprendimento, resistência. E aí, a situação nos dominou. Eu não consigo e nem posso abrir mão de um dito. Até o fim do mês, eu disse. As palavras me comandam. Assim será. E o mês acaba amanhã. Vejo meu homem dormindo, e dói. Porque amanhã ele pode dormir sem que eu o veja, isto é uma morte. Ou duas. Amar é uma proposição matemática se a está para b, b está para a. Se eu o amo ele existe e eu existo porque ele existe para ser amado por mim. Da mesma forma, eu existo porque ele me ama e etc, mas não é isto que conta. O que entra na conta é que um menos o outro é o vazio. E o nada pode advir do insignificante. Gostaria de poder acordá-lo e dizer, não importa, eu não quero mais saber. Mas eu quero. Quero saber de nós. Por isto fico a olhá-lo dormir. Velo esta história de amor. E, de novo, o sono dele me hipnotiza. Sempre acontece isto, desperta do cansaço da paixão, entrego-me ao torpor de olhá-lo e o feitiço acontece. É belo, dormindo. No rosto descansado, vislumbro ainda as marcas de um decidido. Na curva sugerida da boca, descubro a sensualidade. Nos músculos dos braços em repouso, adivinho tua força suavizada. Sim, eu o amo. Amo por todas as coisas que ele põe nos meus olhos. Dói conhecer que amanhã talvez não haja mais nada para ver. Uma espada sobre a cabeça. A sentença que virá, poderá me exilar de mim mesma. Será este meu fim, vagar, desconhecendo a mim e ao meu mundo, que só pela presença dele eu podia perceber? Sim, será uma sentença. Uma sentença matemática: a não está mais para b, e aí? Uma sentença gramatical: haverá um sujeito, um verbo – ficar ou partir? – e eu, complemento nominal, sem saber se ainda vou estar na frase. Será uma sentença de vida ou morte. E, o mais engraçado, é que a questão, eu sei, ele sabe, não importa. Ele se mexe. Vai acordar. Saberei o que me espera. O temor de nunca mais ver tal despertar me assalta. Mas é necessário ter coragem. Para ser mulher dele é imprescindível a coragem. Ave, César, os que vão morrer te saúdam.

A última vez deve tirar sangue.
Unhas riscando
a palma.
Da mão. Da boca. Da alma
Mas não é de todo perdido, esse mês.
Hoje é aniversário dela. Tão linda quanto os dias deviam ser, acho. (Cara Belos, podia ser o seu também, se você quiser)