segunda-feira, 18 de abril de 2011

#Mimimi

Carro no prego. Rendimento menor que contas. Garganta doendo. Semana Santa at home. Flamengo empatando com Macaé. Nenhum telefonema. Prazo  no pescoço para terminar 03 artigos. Sono atrasado. Saudade dos amigos. 
Mas...
Eu tenho muita sorte porque não vou fazer sexo hoje nem, provavelmente, nos próximos dias (tá, estou sendo otimista, não há previsão mesmo). Porque sorte? Porque se houvesse uma remota possibilidade eu engravidaria com animação. E, todos sabemos, seria uma péssima idéia, não tenho humor, dinheiro nem jeito pra ser mãe again. Este fim de semana viajei pra visitar mamys, papys e conhecer minha nova sobrinha. Foi ver e doer. Doeu o ventre querendo peso. Doeu o seio querendo leite. Nem vem com papo de instinto materno. Não existe e, se existisse, eu não tinha. Mas deu uma saudade/vontade daquele cheiro bom de recem-nascido, daquele peso morno no colo, daquela entrega absoluta. 

Eu sei, este post está tosco mas o blog é meu e eu resmungo o tanto que quiser \o/. Madrugada, quem sabe, alguma coisa melhorzinha pinte na área. Por agora você pode fazer como eu e ser mais feliz ouvindo Doris Day:


When I grew up and fell in love,
I asked my sweetheart, what lies ahead,
will we have rainbows
day after day?
Here´s what my sweetheart said:
que sera, sera,
whatever wil be, will be
the future's not ours to see.
que sera, sera,
what will be; will be

domingo, 17 de abril de 2011

Inter Dito

Se eu pudesse ser outra, 
seria tua.

Não marcamos encontro. Nenhum lugar é nosso. Eu nem te sabia. Tu nem me suspeitava. Desde a primeira vez ficou acertado: nada. Mas o desejo é teimoso. Solenemente nos ignoramos. Desassossego. Em palavras que não escrevo nunca, eu te planejo em mim. Nas palavras que escreves sempre, vais plantando o querer-te no meu corpo. Letra a letra eu me umedeço em futuros que não serão. Eu me preparo. Um dia? Uma cama? Uma letra? Seria assim: em orações subordinadas. Longas explorações da gramática do nosso corpo. Um novo glossário, só de interjeições de curiosidade e prazer. Reinventaríamos a língua. Ou, pelo menos, sua função. Me encontra. Quero as narrativas escritas em dedos na pele. Quero dissertações no meu ventre e descrições em longas incursões internas. Quero teu texto rude, firme e direto invadindo o que eu não sei dizer. Deixe-me muda, encha minha boca. Meus olhos. Meus planos. Me ocupe. Traga sua solidão, seu descompasso, seu medo e essa angústia que reveste a palavra de perguntas e as enterre fundo em mim. Pode vir. Eu agüento. Mais: eu convido.

Quero ser a vereda dos sertões que sabes tão bem em rosas e adivinhas em mim. Enorme e quente. Uma sede que é ânsia. Um percurso a desbravar. Um lugar pra se embrenhar. Venha trilhar-me. Venha.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Todos os tamanhos

Eu tenho sonhos miúdos: 
alguém que tenha olhos de Nino Belvedere e morra sussurrando Stella e segurando a minha mão. 

Eu tenho sonhos imensos:
alguém que tenha olhos de Nino e durma sussurrando Stella e segurando a minha mão. 




E se alguém quiser saber de bem-querer, delicadeza, sensibilidade e como eu sou linda é tão fácil. Vai aqui e lê o Rafa. Chama-se "Quando Setembro chegar" ou "À tarde, com Borboleta"

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Vitral

 "Sabe o que é melhor que ser bandalho ou galinha? 
Amar. O amor é a verdadeira sacanagem".


Às vezes eu penso nele. Ou neles. No meu, quase sempre. Penso no coração. É que quase toda a gente o traz lá, em seu frágil invólucro de carne e sonhos. Umas cartilagens, para aumentar a ilusão de conforto e segurança. Há quem o traga nos olhos, nunca sei se como filtro ou muralha. Os que andam com o coração na boca, claro, sempre a ponto de saltar e nos cair no colo. E tem aqueles outros, os que o trazem nas mãos, prontos para entrega, quero fazer um depósito, por favor. O que traz? Coração. Coração na mão - a gente se espanta com essa disponibilidade kamikase. "A gente", penso, paro: eu. Eu me espanto com este ataque kamikase a si mesmo. Porque meu coração está no lugar certo: no meio das pernas. 


Eu queria lhe confessar um amor imenso. Dizer, como quem morre: eu amo você e nada mais esperar a não ser um céu tão azul de doer a retina e o sol ferindo a pele em aguda percepção da solidão. Eu queria me desfazer em gozos e deixar os meus olhos banharem teus sonhos como se amar fosse praia em que pudéssemos deixar os pés em marcas que não descansam, mas se fazem lado a lado. Queria sonhar seu cheiro e fazer, de sua pele, manta. Queria pedir: mais, mais em mim, mais aqui. Queria não ter, em meu corpo, abismos; nem mentir baixinho como quem festeja; nem saber tanto a estrada que ela sou eu e eu sou partida. 
  
E se o corpo fosse percurso e tu andarilho? E se houvesse fontes pra saciar a sede e sombras onde recostar a cabeça? Se ofegasse nas curvas, tateasse as veredas e descobrisse os atalhos? Se a partida fosse chegada, alegria de esquecer o que já visitaste?

E se nada disso for mais que cenário pintado à mão e a verdade for uma moça de trança recostada na janela vendo a praça sem banda? E se os contos de fada não souberem do café esfriando e do calendário de um ano que já foi porque os dias nem se dão ao trabalho de se repetir, apenas são? E se ela não tiver palavra nenhuma pra se dizer e estiver usando todas as minhas e elas forem palavras erradas, como uma roupa apertada demais ou um sapato muito grande e você nunca puder conhecer, letra a letra, quem ela é, porque quando achá-la ela terá engolido as palavras todas em uma fome de ter algo dentro de si nem que fosse o dizer a vida?

 E se os desejos fossem cores de um vitral antigo, dançando em meu rosto, você saberia?

Hoje é Dia do Beijo. Pois é. O jeito é ficar de olho no vídeo.


Você leu a coluna Doces Bárbaros de ontem? Esteve em São Felix do Araguaia? Comoveu-se com a história e a resistência feito sonho e frágil corpo? Sabe de dom Pedro?


E você já enviou sua foto pra este projeto aqui? #EuSouGay. Por um mundo sem homofobia. Leia, participe, sejamos gays juntos.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Doces Bárbaros #2: O rio

(Oi! Agora eu já tenho a chave da casa e fui entrando. Licença, tá?)

Para ver mais fotos, aqui


Eu confesso que gosto de espirrar. Gosto da comichão, gosto do momento de dúvida em que o espirro sai-não-sai, gosto da realização de um espirro bem dado, sonoro na medida. Gosto dos “saúde” e de interrompê-los com outro espirro. Então, quando chegaram os primeiros sinais daquela gripe, eu não me dei conta.

Estava prestando atenção em outras coisas. Nas histórias sobre cobras amazônicas e sub-amazônicas no táxi até o aeroporto. Chegar em Brasília, encontrar um hotel, wi-fi, jantar. No dia seguinte, aeroporto novamente, o horóscopo no jornal que falava sobre buscar “vôos mais altos”, o pequeno Cessna Caravan, monomotor turbohélice, que deixaria a mim e a meu chefe, após algumas paradas, em São Félix do Araguaia, no norte do estado do Mato Grosso.

A ida a São Félix naquele início de setembro permitia ver, do avião, muita fumaça e algum fogo. O padre Paulo Gabriel nos falou das queimadas enquanto nos levava do aeroporto para o hotelzinho na margem do rio Araguaia. Lá também estavam hospedados agentes da Polícia Federal, preocupados com o assunto.

Finalmente, na tarde daquele dia, o primeiro encontro com dom Pedro Casaldáliga, o bispo que denunciou o trabalho escravo e que usou a poesia para se fazer ouvir quando os generais, os coronéis-fazendeiros e a cúpula da Igreja o tentou calar. Paulo Gabriel nos alertara que, além dos problemas de saúde que enfrentava, Pedro estava se recuperando de uma inflamação em um dente, que tornava sua fala mais difícil.

Nesse primeiro dia, dom Pedro falou com dificuldade, pediu ajuda para levantar e apoio para caminhar. Ainda não era a entrevista. Ele nos indicou o arquivo da prelazia, que guarda todos os documentos e, milagrosamente, nunca foi atacado. Ele também falou coisas bonitas, que eu não gravei mas tentei anotar: “muita coisa ficou na reticência”.

Eu vi esse dia entardecer à beira do Araguaia, comendo peixe e tomando cerveja. À noite, no quarto de hotel, não conseguia dormir. Calor, tontura, frio, aquela atenção aos mínimos detalhes da insônia, intercalada por um sono sobressaltado e confuso. Quando amanheceu, a gripe, que até então era apenas ventania e nuvens negras no céu, virou tempestade.

À tarde, começamos a entrevista com dom Pedro. Ele nos esperava no quintal, pediu ajuda para levantar, mas caminhou sozinho até uma pequena capela nos fundos. Sua voz fluía melhor, ele falou das transformações de 1968, ano em que chegou ao Brasil, dos salmos de Ernesto Cardenal, da tortura de moças e rapazes, da repressão que se infiltrava: “Figuras esquisitas que estavam chegando. Umas vezes eram vendedores de tapetes, outras vezes atendiam na saúde. Era espionagem pura, controle”.

Mais Araguaia, mais peixe, mais sono tumultuado e chegou o último dia em São Félix. Tivemos ainda mais uma sessão de entrevista com dom Pedro. Dessa vez, ele praticamente pulou do banco onde estava e foi sozinho, na frente, para a capela. Ele nos falou sobre as amizades e as dificuldades entre cristãos e comunistas e contou que teve um tio, padre, assassinado por socialistas na Gierra Civil Espanhola. “Agora cada vez mais pensar no mundo, na humanidade. Sem cair na pretensão de grandes palavras e não saber pisar no chão de cada dia”.

Na ida para o aeroporto, comentamos com o padre Paulo Gabriel sobre a evolução na disposição de dom Pedro. Ele riu e disse que já sabia como tratar o bispo quando estivesse enfermo: era só chamar jornalistas para ouvi-lo. Falamos sobre as eleições do mês seguinte e sobre o fogo que seguia queimando a Ilha do Bananal.

Chegamos à noite em Brasília, tivemos um jantar com amigos e, sem peixe, sem Araguaia e sem bispo, minha gripe assumiu o controle. O vôo de volta a São Paulo sairia de madrugada, uma espera mais longa do que parecera no planejamento da viagem. O corpo dolorido e o cansaço afetaram não apenas meu bom humor como meus bons modos. Meu chefe se zangou e a viagem terminou assim: lenços de papel acumulados e a sensação de que a Amazônia se afastava muito rápido.

Escrevo isso para distrair a Borboleta e seus leitores do meu atraso e para tentar ganhar alguma compaixão, já que agora meus olhos lacrimejam e a cabeça pesa um pouco. Para me distrair também, pensando no rio e no poeta-herói do Araguaia.


Bárbara Lopes, é jornalista, toma chopp, ama gatos, e escreve no Blogueiras Feministas. A cada semana residente aqui, uma característica a mais na apresentação. Vamos brincar de prazer em conhecer?
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