quinta-feira, 7 de abril de 2011

Mãezices

Por muito tempo eu dizia que não era uma boa mãe. Depois de muita reflexão, percebi que isso era um juízo de valor condenatório de tantas outras mulheres e eu não sou juiz de ninguém. Daí comecei a pensar e dizer que eu não sou a mãe que eu gostaria de ser. Ou melhor, eu não sou a mãe que eu gostaria que meu filho tivesse. Eu queria que meu filho tivesse uma mãe igual à minha (ou igual à minha irmã). Minha mãe sabe fazer tudo. E não é exagero, puxa, ela sabe demais. Sabe cozinhar, projetar móveis, embalar, sabe a coisa certa pra dizer nos momentos difíceis, sabe falar eu te amo, sabe brincar de vôlei, fazenda, nave espacial, esconde-esconde. Sabe tudo, ela. Sabe balançar na rede e ensinar a filha as coisas do mundo. E sabe brigar. E abraçar. Sabe deixar ir. E sabe fazer ter a certeza de que pode-se voltar. Minha mãe reclama, protesta, diverge. E, todo o tempo, sabe-se que qualquer que seja a decisão, ela vai apoiar. Minha mãe é boa. De alma generosa. E é terna. Eu queria ser assim: fazer comidas gostosas que falem de amor, ter papos afetuosos, ser presente, sentar no chão por horas e entrar no mundo de fantasia e brincadeira, tomar banho de bica juntos, ensinar a autonomia e a liberdade. Ensinar o respeito e a tolerância. Acontece que eu tento mas eu esqueço de ser assim. Sou uma mãe ausente, não sei brincar, sou ruim de papo, exigente...Mas numa coisa eu sou do jeitinho que eu gostaria de ser: nos momentos de doença pode-se contar comigo. 

O meu filho está doente. Febre, tosse, dor de cabeça, corpo molinho e, claro, ataque de asma. Daí que eu mimo, cuido, alimento e boto pra dormir aqui, do meu lado. Passo a noite acordada só espiando: febre acabou, respiração difícil...Dou cafuné, puxo lençol, canto baixinho. Ele se sente seguro, eu sei, eu sinto. Ele põe a cabeça no meu colo, pede dengo, me beija. Se adoece quando está longe, casa do pai, avós, logo quer ficar comigo. Quantas vezes atravessei a cidade que morava, madrugada ainda, pra ir buscá-lo na casa do pai como se minha presença fosse antitérmico? Dessa vez, já estava aqui: molinho, febril, gripado. Noite longa. De manhã muito cedo: médico. Ou melhor, fila no médico. Espera, espera cuida, água, espera, espera. Enfim: remédio, nebulizador exames. Casa e agora ele dorme. O resto do dia é pajeando: comidinha e companhia. Sei ficar perto, sei segurar a mão. Sei que ele se sente melhor por eu estar por perto. 
Mas não é meio triste saber-se boa só nessas horas?

terça-feira, 5 de abril de 2011

Fruto

Porque as águas do desejo são turvas
e o que percorro tem cheiro de sexo.
Aqui, eu o tenho nos olhos,
mas o sinto entre as pernas.
E lateja o corpo.
A pele pede mãos,
 pede língua,
pede sonhos.
Porque em vermelho eu sentiria seu gosto
e lamberia sabores, em rubro, em rubro


Mordi a fruta aqui



Vento morno de fim de tarde, rede na varanda, o vai e vem quase à revelia, a perna escapando do pano, o pé em ponta buscando manter o movimento. Meio cochilo, suor escorrendo na pele em arrepios. A presença veio antes, antes de eu ouvir a voz que veio ferindo fundo, o corpo reconhecendo o chamado que me desconhecia. Moça? Levantei, rápida, as alças do vestido querendo ficar, escorregavam e ofereciam ombros que o olhar alheio logo aceitou. De novo: Moça? e eu, tonta, embaraçada como se pudesse saber o desejo que não sentia. Antes, antes não sentia. Agora: tonta. É que a voz. Olhei pra ele enquanto ele se olhava no meu olho. Estranho, como se sempre tivesse estado aqui. Estrangeiro de tudo, dele mesmo, aportava no meu querer assim, de uma vez. Moça? Uma terceira vez. Aí eu disse: Sim. Sim era tudo que eu queria dizer a ele. Sim.

Disse sim e esperei. Parecia ouvir suas perguntas, mas só ouvia o sangue que batucava anseios que eu nem sabia nomear. Ele perguntava e perguntava e eu respondia como quem não pensa, eu era só corpo, a besta no ventre, rugindo, ansiando, as mãos frias antevendo pele, o rosto quente, o sangue querendo, querendo, querendo. Pouso? Escuto, enfim. Quarto é o que ele quer. É o que eu quero sem nunca ter sabido nada deste querer. Seu olhar me olhava em espera, eu por fim possibilitei que ele deitasse mala no quarto que lhe cabia na Pousada e fugi pra escapar de mim mesma. Desejo queimando até onde eu nem sabia que se podia querer.

Éramos de poucas palavras. Não as trocávamos, antes as entregávamos em desafio. Eram seus olhos que diziam. Não, engano-me, seus olhos perguntavam. Perguntavam em línguas que eu traduzia e entendia, dando em repostas sempre o mesmo sim.  Eu o encontrava: corredor, varanda, rua, saleta, cozinha. Ele estava sempre lá, seu olhar adivinhando meu corpo, antecipando o passeio das mãos, planejando o caminho da língua. Ele me sabia, eu sentia o que nunca sentia, eu já não era, o desejo é que era.

Seu olhar ensinou o meu. Ensinou o querer. A cobiça. Olhava e queria. Olhava e despia. Olhava o corpo dele como se os olhos fossem mãos, como as minhas que me acompanhavam mesmo com luzes apagadas. Agora eu vivia em vertigens. Olhava meu abismo e queria cair, queria saber, queria ceder ao convite que não se fazia, o corpo pedindo numa fome que me atormentava. Até que. No corredor as mãos chegam antes dos olhos. Empurrada contra a parede, o gemido é de desejo. Ele é todo olhar. Suas mãos me olham, sua língua me olha, seu corpo todo me olha entre as pernas que mal me sustentam. As roupas não evitam que eu sinta: quente, quente, quente. Suor escorre no corpo que eu já reconheço dele, só me resta o olhar que chora, eu toda úmida: rosto, corpo, sexo. Eu, em possibilidades: sim!

Ele me aperta, abre, desvenda. Ele quer mais. Eu quero tudo. São seus olhos que eu sinto bem dentro de mim. Em vôo livre, o corpo é o mistério do tudo sentir. Como se o corpo contasse uma história. Cantasse? Meu corpo sem controle aperta os seus olhos e goza.

Não sei do tempo, mas logo há a necessidade de restaurar o olhar tão nublado. Minhas mãos escorregam em carícias. Não, ele diz. Não?, meu olhar pergunta. Não acabou, suas mãos respondem me levantando, me conduzindo, me abrindo portas e botões, no quarto dele só vejo cama. Agora, lento, ele me delineia, artíficie do meu anseio. Desejo também é riso. Tudo ele toca, tudo ele cheira, lambe, morde, esfrega, ri. Tudo ele vê. Eu, senhora absoluta do desejo dele. Eu, entregue. Pedindo, pedindo, pedindo. Mas antes, seu olhar diz e ele toca. Mas antes, seu olhar diz e ele cheira. Mas antes, seu olhar diz e ele beija. Vermelho talvez seja o céu.

Vou embora hoje. Seus olhos se fecham, Como eu posso ouvir sem os olhos? A partida imediata prolonga-se na frase não entendida. Como? Vou embora hoje, mais forte, mais rápido, dessa vez. Pra ter certeza. Pra dar certeza. Estrangeiro. Mas partiu cego. Levou meus olhos e deixou o corpo. Queimando.


domingo, 3 de abril de 2011

A Menina que Roubava Posts III

Eu faço versos como quem morre*
Para o Zé. Não, por causa  dele.

Sou eu. A menina sou eu. Se o termo menina já está resolvido a debalde das "autonomias" e "paternalismos" que aceito, o roubo me fez mais exigências para assumi-lo. Mas, recorrente, nada me resta e não tenho dificuldades de aceitar o epíteto e a função: eu roubo. Na calada da noite ou anunciando em trombetas eu roubo as idéias do Zé. Já lhe roubei bem roubada uma aqui. E me redimo em acusações: a culpa é toda e inteiramente dele. Que se há de fazer se há tal provocação a zanzar no ar: O que é tão bom e ainda assim dá-lhe engulhos? Ah, bem sei que há bem mais belezas assim: 


...mas já captaram a idéia. Primeiro confesso, o que mais gostei ao ler foi poder cantarolar: "nós separados nas arquibancadas, temos sido tão chegados na desolação", se nos gostos há abismos (apesar de Adélia e Cornélio), neste seu (dele, Zé) desgosto, encontramo-nos. Não que eu conhecesse o  soturno Zurbarán. Não. Mas nem li o texto e já as imagens me davam tristes idéias de contenção. E eu sou do prazer e do riso, ainda que insinuado. Depois do uhhuuu inicial por sentir-me ali, perto dele que tanto admiro, passei a lembrar-me das minhas birras de estimação. E logo me chegou tão certinha e límpida de tanto que sempre a acarinhei. Acarinhei reservadamente, adianto, sempre tive vergonha de não gostar (até agora, até agora) do movimento concretista (concretismo?) especialmente na poesia. 

Imagem daqui

Deve-se muito por aqui aos concretistas, para além do seu fazer poético. Eles nos deram a tradução da Ilíada e das obras de Joyce, Rilke, Maikovski, entre outros. E, na produção original, eu aprecio a audácia de brincar com formas, cores, montagem e decomposição das palavras, mas, francamente, a proposta de anulação do eu-lírico me afasta (e já que estou pra revelações Oswald de Andrade também não habita meu top qualquer coisa não). Fico sempre com Paul Valery que afirmou que a poesia é uma hesitação entre o som e o sentido. Gosto de se querer revolucionário da poesia concreta, mas não do que esta revolução me oferece (ou não me oferece, mais exatamente). A poesia concreta me deixa só. Só de mim, ela não me remete para um mais além onde morro, gozo, sonho e em mim retorno. Ela me deixa fria, sem riso nem pranto, não me deixa seuqer sem nada que seria uma forma de convocar a angústia. Ela me deixa ou eu a deixo. Falha tão minha, sei bem que há tantos encantados. Mas, como já lá comentei, nem tudo que é admirável é amável, ou o que seria do amarelo se todos etc. vermelho? 

Para não ficar só nos maus bofes (mas quem quiser ver mau humor mesmo não deixe de ler meu desabafo em Que Passem os Hunos ou Meus Ódios de Estimação) procurei um mimo para o Zé, um mimo que me redimisse do roubo. Pareceu-me bem, em oposição ao sofrimento material  apresentado por Zurbáran, o êxtase enfático da Santa Teresa de Ávila de Bernini:



 Para melhor explicar do que falo:


Detalhe do Êxtase de Santa Teresa de Ávila, Bernini
Imagem recolhida daqui
Mais de perto? Pois seja...


Imagem diretinho daqui



OBS: Este post teria uma segunda parte que relaciona pessoas lindas e cristal, mas não combinou com tantos resmungos, fica para amanhã.


* Desencanto de Manuel Bandeira:


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora 
Não tens motivo nenhum de pranto.


Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.


E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
Eu faço versos como quem morre.


sábado, 2 de abril de 2011

Meu Querido Diário


Tenho trabalhado um bocado. E, hoje, trabalhei e trabalhei feito a mulher do sal (conhecem a história?). Nem tempo pra dançar na varanda eu tive. E quando eu já devia ter parado de trabalhar, fui pra casa da amiga e ficamos cinco horas seguidas preenchendo um formulário do PROEXT. Para o bem maior, mentalizei. Internet lenta, questões repetitivas, mas nós ficamos firmes. Muitos itens depois, a combinação: você termina essas duas coisinhas, eu termino essas duas coisinhas e amanhã a gente se encontra pra bater o martelo. Em casa passei um tempinho (tipo uma hora) lendo resenhas dos alunos e daí resolvi encarar a tarefa final do projeto. Abri o sigproj e quede projeto? quede? quede? vasculha daqui, vasculha dali, ligo desesperada pra amiga, pois é, o danado do site engoliu nosso trabalho sem direito a deixar nem penas de fora.



 Aí, querido diário, fiz o que eu podia fazer:

1. Fui até a geladeira e separei uns camarões. Temperei com sal, canela, curry. 
2. Abri uma long neck muito, muito gelada. Tirei a roupa. 
3. Abri a torneira da banheira. Acendi velas, linda velinhas em recipientes em tons amarelo e marrom. Coloquei música: tangos inesquecíveis. Sabonete líquido e tabletes efervescentes que vieram de longe e ficaram esperando este dia (ou noite).
4. Desci e peguei outra cerveja. Os camarões com sede e inveja, dei-lhes um pouco de shoyu. Azeite quente, bem quente. Camarão rosado de um lado, rosado de outro, baixa o fogo. O resto de vinho branco na geladeira? Na frigideira. Uma colher de molho de tomate, uma colher de requeijão, desliguei o fogo (já cozinhou assim, pelada? é libertador). Verti tudo num prato fundo, ficou um molho grosso, camarões macios e completei com batata palha pra fazer contraste de textura. Outra cerveja.
5. Subi as escadas equilibrando tudo (momento de alto risco, estilo esse aqui). Montei a mesinha ao lado da banheira. Reiniciei o cd, apaguei as luzes e entrei na banheira. Liguei a hidromassagem e aí começou a surgir a espuma, igualzinha de filme. Deitei e deixei que tudo fizesse efeito: o camarão morno, a espuma brincalhona, a cerveja gelada, a música provocante. Espremi uns coraçõezinhos com óleo e fiz a mão deslizar me fazendo macia. 
6. Quando o CD acabou, o camarão era só memória na língua e a cerveja já pedia outra a um tempo (lembrete: colocar um frigobar no banheiro), levantei-me, molinha, deixei o chuveiro levar a espuma que insistia em me fazer companhia. 


Eu Só Queria Dizer

Em círculos, eu escrevo em círculos. São os mesmos desejos, as mesmas figuras, as mesmas  palavras. O mesmo ponto final, sempre desejando ser vírgula, intervalo, suspiro antes que, de novo, seja este um corpo feito letras que te desejam. Em círculos, escrevo em círculos, eu não vou a lugar algum, todos os lugares são sempre o mesmo, aquela estação onde seguro um coração em forma de mala e anseio por mãos, cheiros e sabores que sempre adivinhei. Em círculos, eu escrevo em círculos como palavras fossem braços e eu pudesse - em ditos - abraçar-te, trazer teu corpo pro meu. Tento fazer, de círculos, estrada. Ou redemoinho, que te alcance e te arrebate. Eu só queria dizer: vem.

Ou, ainda e de novo, com Adélia, sempre ela: 

O Amor no Éter
Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.



Eu Só Queria Dizer II


A Mulher do Sal
Ele e ela. Sacos de sal pra carregar. Ele forte e de pernas compridas. Ela magrinha, resistente e de pernas menores. Cada um com seu saco nas costas, saem andandao. Ele vai bem na frente, anda um bocado. Quando cansa, senta, ela chega depois, coloca o saco no chão, ele levanta e diz (sem maldade, só falta de empatia mesmo): "opa, descansados, vamo que vamo". E assim seguem, uma, duas, três, tantas paradas quantas necessárias ao cansaço dele e nada de descanso pra ela que chega sempre quando ele já recuperou as forças.



sexta-feira, 1 de abril de 2011

Eu Não Esqueço: Brasil, Nunca Mais

“A cada companheiro tombado
nenhum minuto de silêncio
mas toda uma vida de luta”

Exposição Direito à Memória e à Verdade -
 a Ditadura no Brasil: 1964-1985
Tenho claras as sensações de quando li Brasil Nunca Mais. Eu nasci nos anos de chumbo e cresci junto com a lenta "abertura política". Cresci sabendo Henfil e o irmão do Henfil. Cresci sabendo "Apesar de Você". Cresci sabendo Mafalda. E o Pasquim. Cresci. Mas nada nunca me preparou pra ler Brasil Nunca Mais. Nada. Nunca poderia estar preparada pra saber do pau-de-arara, não em conceitos - estes eu já sabia, mas em carne de pessoas penduradas. Nunca poderia estar preparada  pra saber dos eletrochoques que faziam perder a noção de si, que agiam onde mais frágil somos: no sexo, língua, dedos - como se os modos de encontro com o outro fossem condenados a priori. Nunca pra saber da pimentinha, dos afogamentos, da geladeira, da cadeira do dragão (quando li sobre ela eu chorava em soluços e espasmos e eu me condenava por chorar assim por tão pouco já que eles tinham sentido tanto). Nunca estaria preparada pra saber do trivial: lesões corporais, palmatória, queimaduras de cigarro, socos, pontapés. Nunca para a tortura psicológica, os dias sem banho nem sanitário, ameças à esposa e filhos, ficar sem dormir, o desespero de ouvir os gemidos dos outros torturados sem saber quem é a vítima da vez e consolando-se por não ser ele e sentindo culpa por sentir este alívio. Como eu poderia estar preparada? Nunca. Nunca. Nunca. Nunca posso pensar em tudo isso e seguir vivendo como se um dia fosse apenas isso: a sequência de outro.

Quando eu lembro de Brasil Nunca Mais eu me pergunto que estranha operação mental nos protege de enlouquecer de arrebatada culpa. Porque somos humanos e permitimos que tanto de mau e cruel (não direi desumano, se é homem que faz, é tão humano quanto abraçar um amigo ou acalmar o filho depois de um sonho ruim) aconteça. E permitimos que fique esquecido. Que seja calado. Que não seja obrigatório ler o livro de D. Paulo e saber das coragens e do medo, saber dos sofrimentos e das pequenas vitórias, saber das perdas, das angústias, das perguntas. 

Como, como, como seguimos sabendo que há mães que sequer sabem onde está o corpo do seu filho (porque está morto, está morto está morto e dói como se fosse filho meu mas não é e não dói igual, claro que não, eu só quero pensar que sim porque se elas sofrem mais que isso...como seguem respirando)? Como seguimos sem imaginar nem gritar em revolta por tantos que ficaram sem seus companheiros de cama, de bar, de planos? Como não pensar em Nelson Rodrigues, tão arrogante, pedindo, perguntando, rastejando pelo filho?

A angústia, ah, a angústia. A angústia dos que se preocupavam claro, morriam de preocupação ou morriam por preocuparem-se como Zuzu Angel. A angústia dos que se calavam. A angústia dos que ouviam os que não se calavam e temiam por eles. A angústia. A dor. O desespero. A solidão. Porque o outro era sempre perigoso, possível delator, possível inimigo. Uma solidão doída e angustiada. 

Há quem me fale das perdas do outro lado. Das lutas armadas, das guerrilhas urbanas. Eu digo que não tenho balança para o sofrimento. Não tenho fita métrica para a crueldade. Não tenho barômetro para a infelicidade. Tenho é, em mim, cicatrizes alheias, invisíveis, que ardem sempre que penso que estão em mim só como memória, mas foram sangue em corpos mortos. Corpos que antes amavam, que comiam, que riam, tinham preconceitos, eram indelicados, brigavam, choravam, viviam. Corpos. Corpos que antes eram gente. Como eu. Só que mortos. E, antes, torturados. 

Não, eu não tenho balança para a dor mas ela me doeu quando li e dói sempre que lembro. Que venham dias em que mais que lembrar possamos saber, chorar nossos mortos e reconstruir um sonho. Porque hoje, quando durmo, é em ausências que esse sonho chega. 

Eu cresci, mas ainda há, em mim, a menina que cantava em suave e sentido desejo, com olhos além do que lhe dava o Chico:


Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou
Mas não me deixe assim, tão sozinha
A me torturar
Que um dia ele vai embora, maninha
Prá nunca mais voltar...



Links:
D. Paulo Evaristo Arns lançando o livro Brasil Nunca Mais, em Natal/Rn. Único lançamento conhecido.
Resenha precisa do livro Brasil Nunca Mais.
Prefácio do livro Brasil Nunca Mais.
Modos e Instrumentos de Tortura.
Eu jamais poderei deixar de me sensibilizar com Frei Tito.




Essa postagem foi generosamente acolhida pela Campanha DesarquivandoBR que tem como propósito abrir os arquivos da Ditadura Militar. Este é o terceiro momento de blogagens coletivas e fico feliz de participar. Você sabe tudo, tudinho, com mais profundidade aqui no Blog da Niara: Pimenta com Limão. Lá você encontra também o link para textos muito melhores que o meu. Mas é sempre bom ser formiguinha.


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