Aprendi outro dia que lagartas mudam de pele diversas vezes rumo à fase adulta. Do momento em que quebram a casca do ovo e a devoram, desde que devoram também a folha que abrigava o ovo, algumas espécies trocam de pele um sem-fim de vezes até que adotem a versão que um dia ressecará e se transformará em crisálida. Pensei que algumas pessoas são assim porque experimentam, ousam, alternam, desafiam, permitem-se e assim vão crescendo vida afora, acumulando vivência até compor a pele que melhor lhes abriga. Por exemplo, a pessoa pode ser poeta, mãe, amante, viajante, doida, calada, lutadora, ombro; pode gostar de tudo isso e colher um pedacinho de cada pele e, por fim, compor um mosaico bem bonito para a derradeira, aquela que a acompanhará até a grande metamorfose. Conheço uma borboleta que deve ter sido lagarta assim. Tenho cá comigo que se a escolha das peles for boa, a chance de se ter asas bonitas é imensa. Como no caso dela, por exemplo.
Imagino a lagarta que ela foi. Imagino do que são feitas as peles que experimentou, de onde veio tanta matéria prima para asas tão generosas - eu poderia escrever asas tão bonitas, e seria a mesma coisa. Fico imaginando em que momentos se moldaram essas asas fortes que ajudaram a romper o casulo e nos presentearam com presença tão... rubra. Em que momento nasceu a borboleta?
Gosto de pensar que podemos nascer muitas vezes, a cada aprendizado, cada passagem, cada avanço ou cada queda. Somos outros todos os dias. Eu mesma já nasci tanto: quando me apaixonei, quando meus filhos nasceram; quando entendi aquele texto, finalmente; quando joguei pro alto - nossa, nasci tanto aí; quando dei um basta; até quando desisti. Então imagino que assim também seja com a borboleta que nasce sempre que descobre, sente, vibra. Tudo bem, entendo que há que se escolher uma data, porque é preciso ter festa. Mas até que chegue o dia 12, vou ficar aqui pensando que essa borboleta traz em suas asas esse brilho todo porque soube compor bem sua pele, construiu uma crisálida boa, toda de sorriso vermelho, e se alimentou do melhor que lhe tocou. Juntou tudo, costurou bem bonito, enroscou-se nesse tanto de sentimento bom e um dia, quando se espichou, viu que tinha em si o vermelho mais vivo e que nunca passaria despercebida. E aproveitando-se disso, que tinha nascido borboleta e que todos a notariam, saiu por aí espalhando sementes boas, porque é isso que borboleta faz.
A Borboleta nasceu para mim quando descobri sua escrita vigorosa, num dia em que ela me borboleteou e me trouxe aqui, nesse blog vivo. Mas sei que essa foi só uma das muitas estreias que ela faz enquanto voa por aí. É bom de ver, adoro quando ela pousa na minha estrada e me dá carinho, amizade e papo bom. Gosto de vê-la crescer, cada dia mais assanhada, cheia de mundo pra voar. E é tão bonito pensar que ela nasceu assim, espichando as asas que ela mesma ajudou a fazer enquanto tinha outras formas. Tem a cara dela: ser bonita e se espalhar por aí. É assim que nasce, essa menina.






