domingo, 5 de dezembro de 2010

Quando Eu Parti

Era pra ser um post que virou um comentário que volta a ser post:
E há vezes que se sente um frio por dentro que não há Nordeste que resolva. E se fica miudinha, miudinha, mas não de ser criança, só de não ser capaz. Se isso te acontecer, baby, you know, i'm here.


Eu tenho uma meia história pra contar. Ou nem meia. Um tiquinho de conversa sem começo nem fim. Eu ontem recebi uma coisa. Palavras. Palavras de uma pessoa que gosto. Gostava. Gosto. Gosto de um jeito diferente do jeito que eu gostava. Acho. Anyway, lá estavam elas, as palavras. Parecem coisinhas bem inofensivas, sequência simpática de letras e espaços, a gente dá um sentido socialmente convencionado e, voilá, você está repensando suas ações, escolhas, caminhos. Pensando: como eu fiz isso, sem sentir, sem saber, sem notar. E nem dá pra pedir desculpas porque se fosse de outro jeito quem sabe se teria sido melhor. O certo é que eu quase nunca me importo de ver o tempo passando e nem tenho vontade de passado. Dessa vez, tive. De chegar perto, de sentir tanto, de dizer tudo: oui, j'ai aimé. Et oui, je suis allé.

E, a propósito, ainda estou enterrada aqui. E não vi todas as coroas e velas e suspiros. Mas já recebi homenagens póstumas da Rita, Allan, HG, Nanica, Lunna, So Sad, Jussara...eita, jabá bom.

Allan e So Sad, já que vocês abriram a possibilidade de reinventar as respostas, estou matutando sobre o comitê de recepção. Logo, logo, news...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Se não doesse

E se não doesse? Se não houvesse nenhuma espera, nenhuma angústia? Se não fosse necessário que essa palavra viesse, que esse dizer chegasse? Se  eu não ficasse na janela, na estação, na calçada? Se não houvesse esse silêncio com gosto de ontem? Se não queimasse a pele cada letra não escrita? Se eu não me encolhesse, miúda, pra caber na sua mão? Se eu seguisse, apenas seguisse, sem precisar? 

Seria bem triste não saber desse sentir.

São poucas palavras, eu sei. Mas é porque hoje estou aqui, visitando um cemitério. Como pedágio, cobraram-me palavras, gastei-as lá. Tem minha lápide, assassinatos que eu cometeria e o segredo da vida. Vai lá e dá uma palavrinha. 


Ou então..ou então me visita aqui, nesse meu olhar, eu vou gostar.

É Quase Amor


Eu não acredito em metade da laranja, mas boto a maior fé em salada de fruta. E antes que alguém comece a pensar que me tornei, enfim, responsável em relação à boa alimentação, eu só quero mesmo saber é cadê a ruma de sapato velho pra este pé torto aqui...


Eu queria lhe confessar um amor imenso. Dizer, como quem morre: eu amo você e ter a exata medida do sangue batendo no pulso. Queria ficar na esquina do seu prédio, um tempão, esperando você passar pra acertar meu passo com o seu. Queria suspirar ao ouvir sua voz, linda; seu violão, doce; seu nome, forte. Queria esperar, ansiosa, o status nas redes sociais tornarem-se verde, livre, disponível. Queria sonhar seu cheiro. Queria, queria tanto, escrever cartas, poesias inocentes, cartões, emails, palavras de desejo. Queria pedir: fica comigo, fica mais, fica aqui. Queria marcar sua passagem, dizer chega logo, torcer as mãos em expectativa. Queria ligar de madrugada e perguntar feito boba: você estava dormindo? Queria ver o sol ou o céu ou o mar ou a lua e tudo me lembrar um querer você. Queria ficar a noite em claro pensando: bem-me-quer, mal-me-quer. Queria ter o rosto pintado de sal por não ter certeza: sim, ele quer? quer? quer? Queria querer sua mão, boca, presença. Queria querer-te. Queria querer. Isso é quase amor, não é?

Porque e porque eu não sei querer? gostar? amar? Porque não deixo meus olhos vasculharem  o horizonte perguntando por um você? Porque os meninos bonitos, os caras fofos, o estranho rapaz, os estrangeiros e forasteiros não podem ser, simplesmente, um Você? Um Você que me pusesse fogo no corpo e inquietação na alma? Um Você que me atormentasse, enlevasse, enervasse? Um Você que me tocasse, encantasse, animasse?  Porque há um mas, onde deveria dizer um vem? "Vem, que eu te quero fraco; vem, que eu te quero tolo; vem, que eu te quero todo meu". 

Mas você não era. Não era em mim, pra mim. Não era autor, personagem, espectador. Não era aqui, nem agora, nem ontem, nem em nenhum amanhã que se pudesse saber. Não era. Não sou.

Eu espero meu baobá. Um amor que surja mansinho, discreto e, de repente, suas raízes estejam por toda parte, em meu coração, estômago, rim, de tal sorte que já não seja possível saber-me sem ele. Quero meu baobá fazendo sombra, ocupando espaço, invadindo, tomando sem perguntar. Quero tudo e quero logo. Quero logo e quero muito. 

E sempre há o mesmo Caio Fernando Abreu, tão outro, tão meu. Tão eu*:

"...você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado,
assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você
esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala,
uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira,
é, não estou sendo agressivo não,
esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira,
mas nunca, em nenhum momento, essa coisa enorme
que me obrigou a abrir todas as janelas,
e depois as portas,
e pouco a pouco derrubar todas as paredes
e arrancar o telhado para que você crescesse livremente"

* só que, dessa vez, está ao contrário, né?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Um é Pouco


Eu disse aqui que ler era uma delícia, um prazer e que nãovemquenãotem que esse papo de sem tempo é balela. Pois aí, quem mandou? Amanda (do imperdível Petit Journal de la Porte Dorée) chegou logo chutando a tampa e me desafiando a escolher letras pra ela percorrer. Coragem, teu nome é Borboleta, topei na hora.

Não é fácil indicar livros (mas já fiz a minha primeira parte de uma lista incompleta aqui). Muitas vezes eu nem sei porque gostei de um livro, só sei que há algo na forma como as palavras foram organizadas que não me permite desviar os olhos. Quase sempre eu leio num arrebatamento, mas há livros que eu vou tateando, lenta, lenta, relendo, voltando uma, duas páginas pra ver se é verdade...como? como? como alguém percebeu que aquelas palavras precisavam vir exatamente assim? Porque um livro é a história que ele conta, mas é mais. É o como. 

Claro que me deu vontade de ir no óbvio e recomendar uma bela Clarice e voilá, uma saída com estilo. Mas não, resolvi ser audaz. Então:

Pra começar pela exceção, inicio propondo Sala de Armas, da Nélida Piñon. É um livro de contos que alterna o simples e o extravagante, o real e o imaginado de tal forma que nos enreda. 

Marguerite Duras tem obras impressionantes como A Dor e A Doença da Morte, sem falar de Moderato Cantabile, Emily L., mas o livro que vou indicar é uma releitura de uma história que a própria autora já tinha contado. O Amante da China do Norte, doce, triste, a linguagem do impossível. Bom, bom.

No estilo mais pop, indico com ênfase Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, primeiro da toda deliciosa trilogia Millennium, pra quem tem nervos fortes. 

Mas se a preferência é por um romance de outras épocas, não há dúvida: Bernard Cornwell. Afinal quem mais tem títulos como: O Rei do Inverno, O Inimigo de Deus, O Andarilho, O Arqueiro e por aí vai. Para começar, As Crônicas Arthur.

Para uma línga que parece a nossa e é mesmo! sendo tão outra, tem O Primo Basílio do amigo Eça. Não, não vale procurar a minissérie no youtube.

Gosto muito de O Incêndio de Tróia de Marion Zimmer Bradley, pelo lugar diferente que dá à voz de Cassandra.

Faulkner é daqueles imperdíveis. Mesmo. Aqui proponho Enquanto Agonizo, uma espécie de coletânea de monólogos que nos apresentam uma família levando um corpo ao cemitério.

Do Garcia Marquez  tem Crônica de uma Morte Anunciada, mas eu não resisto aos badalados Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera. Como você já gostou de um, quem sabe não gosta do outro?

Tem, do Luis Sepúlveda, o tocante O Velho que Lia Romances de Amor, que devia ser lido nem que fosse só pelo brilhante título. Mas há mais, e tanto, um livro cativante.

Mas a verdade é que, se você não leu O Retrato de Dorian Gray, não há dúvida possível. É este.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sobre a Leitura ou Na Fazenda Do Seu Pai Pode?

Todo mundo sabe que estou aperriada com o tempo, então me perdoem o post miudinho, meio blasé, doutrinário e esnobe. Foi escrito com todo carinho, ok?

Lá pelo fim da década de 80 ou comecinho de 90 o Verissimo escreveu em uma crônica que nunca tinha conhecido ninguém que fosse contra a Reforma Agrária. Que todo brasileiro, se questionado, respondia com ênfase: "claro que sou a favor da reforma agrária!" e alguns, depois, acrescentavam: "mas na fazenda do meu pai, não." Algo muito parecido acontece quando se fala em ler. Quase todo mundo que eu conheço diz que gosta de ler, claro. E que ler é muito melhor do que, por exemplo, televisão, que afinal como espectador se é passivo e como leitor há um comportamento autônomo e tal e tal. Bom, depois de uma pausa, chegam os poréns: não há tempo, livro é caro ou, pior (para mim que sou uma baita esnobe mesmo, podem atirar pedras), começam a apresentar a lista de últimas leituras: um negócio de gente mexendo no queijo, sendo padre, monge ou pastor executivo, uns segredos que é só você pensar num elefante que ele, buffo!, aparece bem na sua frente e por aí vai e eu fico pensando que estou meio fora do compasso. 

Claro que estou falando de pessoas da minha geração e afins. As novas gerações são uma espécie de homo computers que eu irrestritamente desconheço a linguagem comunicacional.  Bom, e tem o meu filho, 13 anos, que não consegue ler meia página do material escolar sem ser acometido por um sono doentio mas devora o livro de 600 páginas, que eu comprei pra mim, sem pejo e sem sono. E aí eu lamento não ter lido o Daniel Pennac antes. Pelo menos pra entender um tantinho mais. Mesmo nessa agoniação sem tempo de nada (e ainda relendo o maravilhoso livro do Ruy Duarte que ainda vou contar pra vocês), às vezes pego-me folheando Como um Romance, revendo as partes preferidas, relendo os trechos doloridos, remoendo a culpa e planejando os próximos passos. 

Como um Romance é uma declaração de amor aos livros, não apenas à leitura. E uma tentativa de fazer da leitura ponte de amor e comunicação com os filhos, nossos e alheios. É irônico e bulina nosso juízo, mas é também poético e sensível. Se ler é um prazer e prazer não se comanda, a leitura só pode se dar em plena liberdade. Não é bonito tentar pensar assim? É um ensaio curtinho, mas me diz muito. Gosto dos direitos do leitor que ele propõe:

1. O direito de não ler.
2. O direito de pular páginas (nunca consegui, mas vamos na peleja).
3. O direito de não terminar um livro (ainda estou tentando exercer esse).
4. O direito de reler (plenamente exercido por mim).
5. O direito de ler qualquer coisa (de Sidney Sheldon a Tolstói, passando por bula de remédio, olha eu na fita)
6. O direito ao bovarismo (segundo Pennac, doença textualmente transmissível).
7. O direito de ler em qualquer lugar (por exemplo no cinema esperando o filme começar?).
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali (eu leio mais de um livro ao msmo tempo, que é que tem?!?).
9. O direito de ler em voz alta (tenho exercido pouco)
10. O direito de se calar (a gente não tem que ficar alardeando, né).

É um ensaio curto, eu encontrei pela Rocco naquele modelo pocket que fica tentando a gente nas araras perto do caixa. 

Estava escrevendo isso e pensando na minha mana que tem um fofoinho de dois anos, na Jussara que lê tanto e é capaz de já ter até escrito algo sobre esse livro (vou já espiar) e na Rita que tem dois fofuchos justo na idade mágica que o Pennac aborda bem no comecinho do texto. 

Pra dar um gostinho e já separar o joio do trigo ou será que vou gostar mesmo deste tal Pennac...

"O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver. (...) Eu nunca tive tempo para ler, mas nada, jamais, pôde me impedir de terminar um romance de que eu gostasse. A leitura não depende da organização do tempo social, ela é, como o amor, uma maneira de ser. A questão não é saber se tenho tempo para ler ou não (tempo que, aliás, ninguém me dará), mas se me ofereço ou não a felicidade de ser leitor."

Quem sabe mais tarde eu volto. 




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