Todo mundo sabe que estou aperriada com o tempo, então me perdoem o post miudinho, meio blasé, doutrinário e esnobe. Foi escrito com todo carinho, ok?
Lá pelo fim da década de 80 ou comecinho de 90 o Verissimo escreveu em uma crônica que nunca tinha conhecido ninguém que fosse contra a Reforma Agrária. Que todo brasileiro, se questionado, respondia com ênfase: "claro que sou a favor da reforma agrária!" e alguns, depois, acrescentavam: "mas na fazenda do meu pai, não." Algo muito parecido acontece quando se fala em ler. Quase todo mundo que eu conheço diz que gosta de ler, claro. E que ler é muito melhor do que, por exemplo, televisão, que afinal como espectador se é passivo e como leitor há um comportamento autônomo e tal e tal. Bom, depois de uma pausa, chegam os poréns: não há tempo, livro é caro ou, pior (para mim que sou uma baita esnobe mesmo, podem atirar pedras), começam a apresentar a lista de últimas leituras: um negócio de gente mexendo no queijo, sendo padre, monge ou pastor executivo, uns segredos que é só você pensar num elefante que ele, buffo!, aparece bem na sua frente e por aí vai e eu fico pensando que estou meio fora do compasso.
Claro que estou falando de pessoas da minha geração e afins. As novas gerações são uma espécie de homo computers que eu irrestritamente desconheço a linguagem comunicacional. Bom, e tem o meu filho, 13 anos, que não consegue ler meia página do material escolar sem ser acometido por um sono doentio mas devora o livro de 600 páginas, que eu comprei pra mim, sem pejo e sem sono. E aí eu lamento não ter lido o Daniel Pennac antes. Pelo menos pra entender um tantinho mais. Mesmo nessa agoniação sem tempo de nada (e ainda relendo o maravilhoso livro do Ruy Duarte que ainda vou contar pra vocês), às vezes pego-me folheando Como um Romance, revendo as partes preferidas, relendo os trechos doloridos, remoendo a culpa e planejando os próximos passos.
Como um Romance é uma declaração de amor aos livros, não apenas à leitura. E uma tentativa de fazer da leitura ponte de amor e comunicação com os filhos, nossos e alheios. É irônico e bulina nosso juízo, mas é também poético e sensível. Se ler é um prazer e prazer não se comanda, a leitura só pode se dar em plena liberdade. Não é bonito tentar pensar assim? É um ensaio curtinho, mas me diz muito. Gosto dos direitos do leitor que ele propõe:
1. O direito de não ler.
2. O direito de pular páginas (nunca consegui, mas vamos na peleja).
3. O direito de não terminar um livro (ainda estou tentando exercer esse).
4. O direito de reler (plenamente exercido por mim).
5. O direito de ler qualquer coisa (de Sidney Sheldon a Tolstói, passando por bula de remédio, olha eu na fita)
6. O direito ao bovarismo (segundo Pennac, doença textualmente transmissível).
7. O direito de ler em qualquer lugar (por exemplo no cinema esperando o filme começar?).
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali (eu leio mais de um livro ao msmo tempo, que é que tem?!?).
9. O direito de ler em voz alta (tenho exercido pouco)
10. O direito de se calar (a gente não tem que ficar alardeando, né).
É um ensaio curto, eu encontrei pela Rocco naquele modelo pocket que fica tentando a gente nas araras perto do caixa.
Estava escrevendo isso e pensando na minha mana que tem um fofoinho de dois anos, na Jussara que lê tanto e é capaz de já ter até escrito algo sobre esse livro (vou já espiar) e na Rita que tem dois fofuchos justo na idade mágica que o Pennac aborda bem no comecinho do texto.
Pra dar um gostinho e já separar o joio do trigo ou será que vou gostar mesmo deste tal Pennac...
"O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver. (...) Eu nunca tive tempo para ler, mas nada, jamais, pôde me impedir de terminar um romance de que eu gostasse. A leitura não depende da organização do tempo social, ela é, como o amor, uma maneira de ser. A questão não é saber se tenho tempo para ler ou não (tempo que, aliás, ninguém me dará), mas se me ofereço ou não a felicidade de ser leitor."
Quem sabe mais tarde eu volto.