quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Fim da Violência Contra a Mulher - Dia 4

A Semana de Ativismo Online pelo Fim da Violência Contra a Mulher continua por aqui com convidados que chegam dando uma sacudida nas teias de aranha que meu cérebro "ajunta" vez em quando. A gente não concorda em tudo? É pra isso que se convida, pra difundir idéias, discutir princípios, bater o pé ou mudar lentamente. Hoje o Borboletas recebe meu marido (e continua o favorecimento...): o Gui. Sabe afinidade e carinho? Sinto isso por esse menino do Rio. Um dia ainda dou um abraço real nesse xodó virtual. O Gui escreve n' O Ás de Espada e entre todas as virtudes que se encontra lá eu destaco a coragem, o desnudamento dos sentimentos, a verdade de quem escreve de coração aberto. Chamei e ele carinhosamente veio com seu olhar jovem e antenado. Vamos ler?

A mesma mão, by Gui
Estamos entrando na segunda década do século XXI (pra mim, a segunda década só começa no 11) e é incontestável a quantidade de direitos que as mulheres conseguiram. Hoje encontramos mulheres empresárias bem sucedidas, mães solteiras que não são mais, necessariamente, vistas como as grandes filhas da puta da estória, criando filhos também bem sucedidos. Hoje, temos, inclusive uma mulher presidente (a discussão de presidente ou presidenta não cabe aqui, né?) e que foi eleita, embora os marketeiros políticos usassem da imagem de 'primeira mulher presidente', sem que em nenhum debate isso fosse realmente citado. É maravilhoso perceber que apesar de se ouvir e ler em emails anônimos e difamadores: "a mulher safada da Dilma", "a mulher corrupta", no fim das contas o fato de ela ser mulher não teve relevância (ou não a relevância que os adversários queriam). Isso mostra o quanto já conseguimos progredir no óbvio conceito de que a mulher é tão digna quanto o homem, tem tanto o direito de ser tratada como cidadã quanto ele. Hoje, a mulher não é mais de segunda categoria.

Entretanto (sempre há um contraponto, infelizmente), existe ainda um machismo (muitas disfarçam dizendo que é apenas cavalheirismo) embutido nas próprias mulheres, que, muitas vezes, pode passar despercebido. Exemplo? Quantas mulheres acham 'ok' rachar um motel, por exemplo? Eu tenho muitas amigas que acham um absurdo. Assim como o cara não pode deixar de pagar o cinema e o jantar em um restaurante chique. Na boate, pra muitas mulheres, o 'privilégio' de conversar e até mesmo de ficar com algum cara depende dele ter a "atitude" de pagar algumas bebidas. (Claro que não cabem generalizações, mas é um comportamento MUITO difundido entre várias amigas, conhecidas, amigas de conhecidas e conhecidas de amigas)

É interessante fazer o paralelo com o que chamam de cavalherismo. É realmente cavalheiro pagar tudo? Quando as mulheres lutam tanto para conseguir a própria independência financeira, ganhar tão bem quantos os homens de mesmo cargo, que o cara pague a maior parte das coisas? Porque se sim, uma vez que cavalherismo é uma coisa desejada por 11 entre 10 mulheres, os homens deveriam ganhar mais, porque além de todas as despesas que teriam, como as mulheres, também teriam que ter dinheiro para bancar duas pessoas, sempre, certo? Os homens heteros, digo. Embora no mundo gay masculino (não sei como funciona no mundo gay feminino, tem isso?) haja uma analogia parecida entre o passivo e o ativo (que por si já é uma definição um tanto quanto complicada), no qual o ativo representaria a imagem masculina e o passivo, a feminina. Leitoras, façam essa pergunta a vocês mesma. Se em um primeiro encontro, o cara quer rachar o jantar, o taxi e o motel, como vocês se sentiriam? Sejam sinceras.
Muitos vocês estão se perguntando agora o que isso tem a ver com a violência contra a mulher. A violência só se estabelece quando uma das partes se sente, de alguma forma, superior ou detentora de algum poder, em algum grau, à ou sobre a outra. Sendo mais claro, quando há uma relação de submissão. Se o homem - a figura equivocada do Homem da Casa - sustenta sua mulher, em todos ou em alguns sentidos, se é ele que assume as contas enquanto ela gasta seu dinheiro com futilidades (não estritamente no sentido da palavra, mas em coisas aparentemente dispensáveis), ele pode se considerar, embora equivocamente, o comandante, enquanto a mulher é apenas o subcomandante (e nisso nem estou incluindo as donas de casa, que tem uma forma ainda mais intensa desse sentimento da parte masculina) e, aí, em uma discussão, pode simplesmente se achar no direito de agredir fisicamente a mulher. E nem é preciso haver uma relação matrimonial pra isso. O que não faltam são casais de namorados (homens e mulheres) em que ocorre agressão (Alô, Luana Piovani?). 
Um dado interessante é o do Ibope em conjunto com a Avon (primeira das várias estatísticas presentes) que mostra que a preocupação com a violência doméstica é maior entre mulheres com baixa renda, escolaridade e em cidades pequenas. Podemos, de certo modo, considerar que esse dado corrobore a ideia  - equivocada - de que o homem que sustenta tem poder sobre a mulher sustentada (a descrição da mulher de baixa renda, baixa escolaridade e moradora de cidades pequenas suscita a ideia de dona de casa). O estudo, de 2009, também mostra que a preocupação com a violência doméstica só aumentou nas classes de baixa renda (D/E), em comparação com 2006, ano de aprovação da Lei Maria da Penha.
Esse comportamento, é, obviamente, resultado de séculos de castrações e doutrinamento, então, ainda hoje, esse tipo de pensamento está presente no inconsciente feminino. Como culpar uma mãe do interior, que não teve acesso ao estudo,Mais do que tudo, é preciso conscientização. A própria conquista da Lei Maria da Penha revela que essa mudança está acontecendo. As mulheres, finalmente, estão passando a se considerar tão importante quanto os homens.
No entanto, enquanto a mesma mão que agride e machuca, colocar comida dentro de casa e comprar o remédio da surra da noite anterior, as mulheres continuarão sendo vítimas. É preciso uma mudança na mentalidade feminina. Os joguinhos sexuais de sedução escondem uma forma de ser submissa que acaba se manifestando em outros momentos, extremamente perigosos. Não podemos deixar que anos de conquista sejam minados por um pensamento que, muitas vezes, passa despercebido.



terça-feira, 23 de novembro de 2010

Fim da Violência Contra a Mulher - Dia 3

Terceiro dia de guest post da Semana de Ativismo Online pelo Fim da Violência Contra a Mulher. Quem já passeia por aqui a tempos já me viu falando da minha família e sabe que humor é o nosso esporte. Quer dizer, eles são especialistas em me fazer rir e eu em ficar com o diafragma dolorido nessa brincadeira. A convidada de hoje é minha irmã. Podem me acusar de nepotismo, mas ela não é prima de nenhum papa (que eu saiba). Se o Évio me inspirou para o mundo dos blogs a Lica foi quem criou o monstro (eu). Ela que me ensinou a criar meu blog, mudar layout, inserir vídeos e imagens e, às vezes, eu ainda a acordo de madrugada pra perguntar uma bobagem qualquer, tipo: como eu faço pra um vídeo caber na barra lateral sem ficar saindo pelo ladrão? A Lica é tipo gênio, tem um HD e um GPS na cabeça. Mas essa não é sua característica principal e sim o bom humor com que ela leva a vida. Esporádica nos seus blogs (que digam as meninas do Só Miolo de Pote), em 1997 ela tinha um chamado Eu Estou Pensando Em...que o blogger, revoltado pelo abandono, excluiu. Depois veio o Mãe num Minuto, em que ela reparte as alegrias da adoção do meu sobrinho fofo. Hoje em dia ela mantém (?) um blog chamado Imagem e Semelhança que é tudo de bom. Síntese e riso, vai lá, vai. Mesmo atribulada no trabalho e em processo de mudança, a Lica aceitou participar desta semana por aqui. Com um texto longe do politicamente correto ela agarra a fera pelos chifres sem (muito) medo das reações. Amigas que me frequentam, lembrem-se: a genética não é decisiva...

Meu post começa do inocente dia que aceitei o convite da borboleta (que esconde uma pimenta atrás de suas asas, mas depois escrevo um tratado sobre isso) para escrever na semana pelo #fimdaviolenciacontraamulher. Bonito isso, e aceito (bobamente).

Daí começa a semana e leio um super texto do meu amigo rubro-negro Évio, super focado e esclarecedor, tipo psicólogo paizão. Magnífico. Na segunda, somos presenteados com uma ficção uma lusitana muito mega-inteligente, mas muito mesmo. Não quero nem saber o que vão dizer, vou escrever meu texto antes de correr pra meu colchão, chupando o polegar e chorando pela mamãe...

Para quem não me conhece, sou irmã da borboleta. Uma lagarta desprovida do dom da palavra, mas também agraciada pelo riso frouxo. Ah, também sou arengueira (e isso vocês vão poder comprovar se conseguirem ler até o fim...). Gosto de escrever sobre nada com coisa nenhuma (e o gosto de escrever é um exagero, meu blog tá parado há mais de um mês). Enfim, neste meu ultra(passado) blog eu tenho um tipo de postagem que se chama “um pouco de tudo é quase nada”: são pensamentos, piadas, frases sobre um tema (ou não). E é isso que vou tentar aqui, fazer a minha coletânea sobre a violência contra a mulher. Qualquer piadinha infame que escapar não é mera coincidência, mas, feministas de plantão, relevem: não é minha culpa, é que eu só me sei fazendo piada.

Então, com vocês: Um pouco de tudo é quase nada: a violência contra a mulher começa antes do primeiro tabefe.

Tá, vou começar pelo humor. E na vou nem procurar muito, até a nata do humor já abusou da mulher:


Sem falar, nas piadinhas infames...
“Já que cada vez mais as mulheres estão indo em busca de seus direitos, bem que na volta poderiam trazer uma cerveja...”

O que é pior nas piadas, é que elas têm pé na realidade. Nenhuma piada seria engraçada se ela fosse 100% ficcional...

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A questão do gênero, além de ser a festa dos humoristas, também dá um caldinho na política. Hoje mesmo a ministra italiana de Igualdade de Oportunidades renunciou porque, segundo a ministra, era discriminada dentro do próprio governo.

Ainda com a campanha presidencial na memória, não dá pra deixar de mencionar os rótulos impostos à nossa presidenta eleita, muitos deles oriundos do ser feminino. Foi taxada de incompetente, embora tenha participado do governo Top 5 de toda a república (pra ser modesta). Foi chamada de assassina de criancinhas, por defender a vida das mulheres que se submetem a abortos em “açougues”. Por várias vezes presenciei xingamentos à sua pessoa, boatos sobre a sua preferência sexual, como se isso a impedisse de ser uma boa política (homofobia e machismo, ninguém merece tanto preconceito). E mesmo assim, elegemos uma ex-guerrilheira, torturada, como presidenta do Brasil... Como nós, cearenses, gostamos de falar... "Ô Brasil véi macho!"

Apesar de você, como diria o Chico, as mulheres continuam buscando (não a cerveja, as oportunidades). Em Mossoró-RN, interior no sertão semiárido, temos prefeita e governadora (e, a partir de 1º de janeiro, prefeita, governadora e presidenta). Não que sejam todas boas gestoras, mas é um indício de mudança de mentalidade (ou todas elas são bem mandadas em casa)...

Ah, e pra melhorar a imagem do LFV diante da comunidade feminista...



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As mulheres e as cores...
Não sei por que o feminismo aderiu ao tom lilás. Eu participei do dia lilás na campanha da Dilma. A logo do ativismo online veio tingida de lilás. O roxo de quem apanha vem nos mesmos tons... Será que... ? Não, não. Fui ao Google, que me levou à uma resposta mais politicamente correta.
Ainda bem que não foi rosa.
Aliás, sábia mesmo foi a comunidade GLBHTFSQRT, que escolheu o arco-íris. Melhor ser representada por sete cores do que todas as 18 consoantes...


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Não dá pra falar de feminismo sem falar mal do marido. Embora seja a pessoa mais doce e gentil do mundo, o meu deu pra perder a paciência por besteira. Nada não, eu sou mais grossa que papel de enrolar prego, se preciso for. Tudo para mantê-lo na linha, ajudando na louça varrendo a casa nos fins de semana... Tomara que eles não entrem nessa de #fimdaviolenciacontraoshomens....


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Dica de filme: assistam "o homem que fazia chover". O fofíssimo Matt Damon é um recém-formado advogado que, entre outras coisas, é super gut-gut com uma vítima de violência doméstica. 

Sinopse aqui.
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Eu ia escrever sobre as mulheres e o mercado de trabalho, mas acho que a borboleta vai virar abelha e me ferroar... Algo do tipo, “meu Deus, minhas amigas feministas vão parar de me ler depois de hoje.” Quem mandou me convidar? Eu sou gente fina, a favor da mulherada (e nada homofóbica, pelamordedeus). Mas eu só me sei fazendo piada.




segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Fim da Violência Contra a Mulher - Dia 2

A Semana de Ativismo Online para o Fim da Violência Contra a Mulher continua, a convidada de hoje é minha amiga Teresa Font e poder dizê-la amiga é uma das maiores alegrias que a net já me deu. Teresa já esteve aqui neste bloguinho falando das origens do feminismo dela. O texto chama-se Vá Fazer a Cama e, se você não conhece ainda, é uma boa oportunidade de divertir-se e refletir. Teresa é escritora de humor refinado e pensamento ligeiro. Inesperadas, as palavras em seus textos nos sobressaltam e conquistam. Como já apresentada no outro post, é autora do policial Foi Assim que Aconteceu, premiada em 2008. Um dia aporta por aqui seu livro em filme, torçamos. Ah, não sei se disse, mas estas palavras que seguem chegam de Lisboa. Além de inteligente, generosa, Teresa nos deu um guia prático para entender as referências...está ali, ao fim da página, para nossa educação e deleite.

Entre Amigas, por Teresa Font
LIsboa, 20 de novembro de 2010

Encosto-me à parede, extenuada. Escadas e mais escadas. “Que diabo, morri de uma hemoptise.” 
É ela quem me abre a porta. 

Virgínia.
Está na mesma, magríssima, os enormes olhos trágicos, embrulhada naquelas roupas de lã informes.
Recordações. Fico comovida, disfarço com uma graça.
-Esperava encontrar-te encharcada.
-Passaram muitos anos, Katherine. Entra. Dá-me o teu casaco.
Abano a cabeça. Não sei se quero ficar. Não sei o que  me espera lá dentro.
-Tens um colete-de-forças por baixo?
Começo a rir, desarmada.  Tiro o casaco de peles, um mimo do John nos bons tempos  e entrego-lho.
-Olha quem fala.
Entramos na sala. É acolhedora, grande e bem iluminada, com estantes cheias de livros a cobrir cada bocado de parede livre, sofás confortáveis de chintz e veludo. Alguns desenhos da Vanessa. Fotografias.
Na mesa, esmerou-se. Porcelana wedgwood, sanduíches aparadas, bolos, muffins, a parafernália completa do five o’clock tea, não percebo como é que não pesávamos todas cem quilos, naquela época.
Olho à volta. Tanta gente! Mas esta mulher enlouqueceu. Que disparate. Claro que enlouqueceu.
Uma pequena multidão deferente junta-se à volta de Emmeline, Christabel e Annie, que são servidas como rainhas.
Vou reconhecendo a maior parte das presentes. Emily, de bandós, folheia um livro e conversa com Anne e  Charlotte.  Charlotte, céus! Espero que não tenha trazido a doida.
Emma espreita-se disfarçadamente no espelho. Esta mulher é uma tola. Anna K. continua linda, porte de princesa, sentada muito direita, só as mãos, sem parar,  torcem um lenço. Esta nunca se conseguiu livrar da culpa.
Marilyn, com o célebre vestido branco drapeado,  está sentada à direita de uma senhora esquálida, de óculos e cabelo encaracolado, que não reconheço, uma coisinha feia mas com aspecto inteligente e decidido. Confiante. Ao seu lado esquerdo está uma mulher nova, de longas madeixas louras, que parece tensa e deslocada.  Tem alguma razão para isso, veste um  fato de banho. Felizmente a lareira está acesa.
Claro que também estão mulheres, digamos, anónimas. Duas meninas brincam, em  correrias pela sala.
Virgínia vai-me apresentando as desconhecidas. Nomes, nomes, nomes. De todas as nacionalidades. De todas as cores. De todas as raças.
E todas com as mesmas marcas. O olhar aterrorizado, sofredor. De vítima. Nódoas negras. Olhos negros. Braços, mãos, dedos engessados.
É pior nas que foram mesmo assassinadas, ou agredidas com armas. Ligaduras com sangue.
Estremeço. Mordisco uma bolacha, a ver se a náusea passa.  A Virgínia repara. Ri-se.
-Sempre esfomeada.
-Tu é que passavas a vida esfomeada, constantemente a falar em comida. E em criadas.
Acrescento:
-Isto é confortável. Muito mais do que um quarto.
-Aqui tratam-nos bem. A época é outra. E faço parte de um ‘projecto’.
Com os dedos desenha no ar aquele gesto horrível das aspas. Irónica.
-Onde é ‘aqui’? O céu?
-Katherine, eu suicidei-me. Mesmo sem outras considerações, só por isso já não teria um lugar no céu.
-Sei lá. Os ingleses são tão estranhos… – imito as aspas - que é isso do ‘projecto’?
Aponta discretamente a mulher que está ao lado de Marilyn.
-Estás a ver aquela? Joyce. E a outra, ali? De olhos azuis, muito bonita? Naomi. A de cabelos curtos, brancos? Camille. A morena ao lado? Christa. Ao pé da janela, a conversarem? Hilary, Graça e Waris. No sofá? A Sontag e a Anne. Bem. Professoras universitárias, escritoras, artistas, politicas. Opinion makers, como se diz agora. Poderosas, influentes. Conseguem rios, mas rios, tu não imaginas, rios de dinheiro para tudo o que tenha a ver com mulheres. Estudos. Legislação. Palestras. Arranjaram-me esta casa. Se eu quisesse, podia ser um palácio forrado a ouro. É claro que elas preferem que eu tenha desejado uma coisa mais…mais…
-Conforme com a personagem?
-Isso. És tão esperta, Katherine. Foste praticamente a única pessoa a quem invejei o que escrevia, não sei se sabes.
-Sei eu e sabe toda a gente. É um lugar-comum. E que é isso do “praticamente”?
-Bom, claro que invejei outros autores. Mas não ia deixar essa confissão para a posteridade.
-Eu tinha a certeza de  que pensavas em publicação quando escreveste os diários.
-Sim e não. Sim. Qual é o escritor que não pensa em publicar o que escreve?
Qual, realmente?
Continuo com dúvidas a respeito do tal ‘projecto’.
-Mas está aqui gente morta, gente viva, conhecidas, anónimas, ficções, qual é o critério? E para que é que isto serve?
-Bem, indubitavelmente há algumas mortas – pisca-me o olho – as vivas vieram hoje excepcionalmente, é uma espécie de sessão de abertura. Depois controlam mas não aparecem. As conhecidas dão sempre graça. Como as ficções. E as anónimas…ficava mal não convidar algumas, não era? A maior parte das vítimas são anónimas. Isto serve…isto serve…isto é uma causa.  C-A-U-S-A. Com letra grande. Uma acção de apoio às mulheres maltratadas. Chegou a altura de pegar no assunto a sério. Há política que se farta também, já se sabe. O lobby gay. O Islão, as queimadas, as excizadas. E etc.. Mas também, se não for político, não muda nada.
Nem quero perguntar que raio é o lobby gay.
-E tu?
Mais aspas no ar.
-Eu sou a ‘musa’ do projecto, imagina.
-Não foste maltratada.
-Achas? Bom, o tema dava pano para mangas. Mas parece que inventei o conceito moderno de liberdade feminina, a independência económica. “A room of one’s own”. E, é claro,  toda a gente conhece o meu nome.
Rio-me. Ela tem o seu lado mesquinho, a Virgínia. Basta ler as páginas e páginas a falar dos problemas domésticos, o desejo de reconhecimento, a maledicência.
Perceba-se: o nome dela é mais conhecido do que o meu. Seja.
-Conhecido e  inspirador. Woolf, Wolf, Wolfe. Lobas, lobas. O que é que elas querem? -Morder os pescoços masculinos.
-Não admira que haja tanto homem com dores nas costas.
-Isso é da posição de macho. Eles que paguem massagistas.
-Já pagam. E a as outras?
-Tudo  personagens. A Marilyn da Joyce, maltratada por todos. A Kelly…
-É a pequena do fato de banho?
-É. Já lhe ofereci um casaco, mas recusou. Morreu afogada. Um senador americano bêbado despistou-se e atirou com o carro para dentro de água. Ele salvou-se, claro. E deixou-a morrer lá dentro.
Deu-me uma cotovelada e sussurrou.
-Olha, é praticamente cunhada da Marilyn…Bom. Ali, está a Medeia da Christa, que não matou os filhos.
-Disparate.
-Talvez. Mas a Christa defende muito bem a ideia. Deixa ver mais. Emma Bovary, detesto aquela mulher. Anna Karenina...Olha! A Manon Roland. Teve o bom senso e o bom gosto de trazer uma écharpe à roda do pescoço. E a Eudora…sempre achei o destino da  Eudora Roland mais interessante do que o da a mãe.
Ouve-se um uivo vindo de fora da sala, como o de um animal feroz. Ela revira os olhos e faz sinal a Charlotte.
Esta sai uns momentos e aparece com uma mulher alta e bonita, apesar de mal vestida e desgrenhada. Charlotte fala baixo com ela.
-A Bertha Mason? Piedade!
-Tinha que estar aqui, não achas? ‘A louca no sótão.’ Casada pela vontade do pai, encarcerada pelo marido, tiraram-lhe a filha, viu o lugar ser tomado por uma lambisgóia que parecia um pãozinho sem sal mas que tinha mais força do que um tanque de guerra, acabou por morrer queimada. E pensar que, se  fosse agora, um comprimido por dia resolvia o assunto.
Começámos as duas a rir ao mesmo tempo. Um comprimido por dia também nos teria feito muito jeito.
-Não tenho paciência nenhuma para as Brontë.
-Nem eu. Mas são boas.
Aponta uma jovem loura, rechonchuda, com ar impenetrável, que conversa com a  Camille.
-Havia de ser a Natascha. Tem cá um jeito. Tão nova e é uma superstar.
Encolho os ombros. Que lhe faça bom proveito.
- Conta mais. E aquela? Muito vulgar.
Uma femme fatale, de olhos claros, vestida de um negro dramático, com os sapatos de salto alto cambados a denunciar a pobreza disfarçada e algo sórdida, meneava-se pela sala, com ar aborrecido.
-É linda, deixa-te disso. Elizabeth Short. Está maçada, não há homens.
-Elizabeth quem?
-Short. A Dália Negra. Em pessoa.
-Não a reconheci inteira.
-És uma peste. Mataram-na  e depois o Ellroy matou-a outra vez. De forma ainda mais cruel.
-O Ellroy queria exorcizar a mãe.
-Ahahaha. Freud numa altura destas? As mães nunca se exorcizam. A Elizabeth foi vítima às mãos de todos os homens, a começar pelo pai. E a acabar no Ellroy, justamente.
-A acabar no Brian de Palma, que o filme é péssimo.
As duas meninas brincam. Tropeçam, agarram-se a uma ponta da toalha e a mesa abana, fazendo tilintar as porcelanas.
Uma mulher de vestido preto, avental e crista branca,  acalma-as e dá um bolo a cada uma.
-Tu achas prudente deixar a Zerline aproximar-se destas crianças?
-Porque não? Pior era se fossem aquelas – indica com o queixo duas mulheres que estão a um canto.
-São as Papin? Olha, eu é que não as queria aqui. Nem mortas. – emendo - Mesmo mortas.
-São. Mais uma vez, que se há-de fazer? Daqui a pouco aparecem fotógrafos e tem que estar cá tudo. E agora há muita política, já te disse. Muita correcção. Temos que tomar cuidado para  não ofender ninguém. Uma coisa insuportável.
Mas, se finalmente temos poder, não vamos recusá-lo nem perder a ocasião com coisas menores.
Cheira-me que ela está a adorar a situação. Ou uma parte dela, pelo menos. Porque a  outra parte deve estar ansiosa por escrever, por ver aquela tropa fandanga toda pelas costas. Por silêncio e solidão.
-Quem são as meninas?
-Pergunta-lhes.
Hesito. No fim de contas, estava grávida quando morri. Quando me deixei morrer. As crianças, para mim…Escrevi “A woman at the store”, não esquecer.
Aproximo-me da mais nova. Uma coisinha loura, linda.
-Como é que te chamas?
Ela olha para mim, séria. Tem uma pequena marca no olho.
-Madeleine. Maddie.
-És muito bonita, Maddie. Que é que estás aqui a fazer?
-Não sei. Ninguém sabe. Acho que morri e pronto.
Larga o bolo, sai da cadeira e chama pela amiga.
-Joana!
Começam outra vez a correr entre as pernas das convidadas. Anna K. chama-as com a mão.
Parece-me  que vou buscar o casaco e sair à francesa. Ainda bem que as coisas estão a melhorar. Só me falta uma pergunta.
-Virginia?
-Sim?
-Acho isto óptimo. A sério. Dinheiro, mulheres a mandar, ajudas, confissões e punições públicas. Acho. Mas…se é assim, se é assim mesmo, como é que continuam tantas mulheres a morrer às mãos dos homens? Tantas a ser espancadas, maltratadas, discriminadas? Tantas a fugir a meio da noite com os filhos pequenos, sem uma casa, sem um tostão. Sem poder. Pergunta isso às tuas novas amigas. E depois diz-me. Agora vou-me embora. Estou cansada. E um bocadinho farta disto tudo.
-Eu sei.
Hesito. Ela beija-me na boca ao de leve. Com suavidade. Com amizade. Sorrimos.
-Adeus, Virgínia.
-Adeus, Katherine.



Elizabeth “Black Dahlia” Short – Mugshot

Nota: Este texto foi escrito em Lisboa, dia 20 de Novembro de 2010, durante a realização da cimeira da NATO. Entre os Chefes de Estado e outras entidades reunidas para o encontro, os ‘senhores do mundo’, 97% são homens. Das mulheres presentes, as mais conhecidas são Ângela Merkel, a primeira mulher a ocupar o cargo de Chanceler na Alemanha e Hilary Clinton, Secretária de Estado do Presidente dos EUA, Barack Obama - seu rival  dentro do Partido Democrático nas últimas eleições presidenciais.
 A NATO é uma entidade que promove guerras para defender a Paz. Nas guerras, toda a gente perde. Mas são os mais fracos que mais sofrem.

Tábua de Personagens


Por ordem de entrada:


Virgínia Woolfescritora. Modernista, expoente de um estilo de escrita inovador a que se chamou “fluxo de consciência”. Atormentada por depressões desde muito nova, Virgínia suicidou-se no rio Ouse, depois de encher de pedras os bolsos do casaco.


Katherine Mansfield, escritora, neo-zelandesa. Amiga de Virgínia, que confessou, nos “Diários”,  ‘invejar-lhe a forma de escrever’. Atormentada por depressões, morreu tuberculosa durante a gravidez.
John Murry, segundo marido de Katherine. Director da revista Rhytm, considerou” The woman at the store”, escrito pela mulher, o melhor conto que a revista jamais publicara.
Vanessa Bellnée Stephen, pintora, irmã de Virgínia e casada com Clive Bell. Todos pertenciam ao que ficou conhecido como “o grupo de Bloomsbury”.
Emmeline Pankhurst, líder do movimento feminista britânico, fundou a “Liga Sufragista”. Considerava lícito o uso da violência e foi presa diversas vezes. Antes de morrer, conseguiu o direito de voto para as mulheres inglesas, em 1928.
Christabel Phankurst. Filha de Emmeline, acompanhou a mãe na luta que esta manteve até ao fim da vida.
Annie Kenney, amiga e colaboradora de Emmeline e Christabel, sofreu sucessivas prisões por se manifestar a favor do voto para as mulheres.
Anne Brontë, escritora, uma das “irmãs Brontë”.
Emily Brontë, escritora, uma das “irmãs Brontë”.
Charlotte Brontëescritora, uma das “irmãs Brontë”.
Joyce Carol Oates, escritora, feminista, professora, vencedora de inúmeros prémios literários.
Naomi Wolfe, escritora, socióloga, autora, entre outros livros, de “O Mito da Beleza”.
Camille Paglia, escritora, professora, ensaísta, considerada uma feminista dissidente. Paglia é uma das mulheres influentes nos movimentos feministas dos EUA, apesar das suas opiniões polémicas.
Christa Wolf, alemã do leste, escritora, ensaísta, professora. Reinterpretou nas suas novelas alguns dos mitos clássicos, como a Batalha de Tróia ou as histórias de Medeia e Cassandra, dando-lhes um significado diferente e actual.
Hilary Clintonmulher do ex-presidente dos EUA Bill Clinton, senadora, concorreu ás eleições para a presidência em 2009. Se ganhasse, ter-se-ia tornado a primeira mulher presidente dos EUA. Perdeu, dentro do Partido Democrata, para Barack Obama.
Waris Dirie, somali, ex-modelo, escreveu vários  livros e tornou-se uma das representantes do movimento contra a mutilação genital feminina.
Susan Sontag, escritora, ensaísta, defensora dos direitos humanos, feminista.
Annie Leibovitz, fotógrafa, autora de vários livros, viveu com Susan Sontag desde até à morte desta.
Madame de Roland, ou Manon Roland, uma entusiasta da revolução francesa, chega a ter um papel importante no processo revolucionário. Inimiga de Danton, acaba guilhotinada pelos seus pares.
Eudora Roland, filha de Manon Roland. Depois da morte da mãe e do suicídio do pai, Eudora viveu sem família, de protector em protector. Terá tido relações sexuais com alguns desses homens, acabando por casar com um deles.
Natascha Kampusch, austríaca, foi raptada aos dez anos por um vizinho da família, que a manteve   sequestrada num quarto subterrâneo. Com dezoito anos conseguiu fugir O seu sequestrador suicidou-se.
James Ellroy, escritor, autor de policiais noir, entre eles “The Black Dhalia”, que ficciona um caso real. A mãe, com quem vivia,  foi assassinada em Los Angeles quando ele contava dez anos. O assassimo nunca foi descoberto.
Sigmund Freudaustríaco, médico neurologista, fundador  da psicanálise.
Brian de Palma, cineasta, realizou inúmeros filmes, entre a adaptação do romance de J. Ellroy.
Christine e Léa Papinassassinaram as patroas de forma barbara, aparentemente sem razão que justificasse o ataque. Foram objecto de estudo de Lacan, que considerou o caso como um surto psicótico. A história deu origem a alguns filmes e peças de teatro.
Madeleine “Maddie” McCann, quatro anos de idade, inglesa, desapareceu do quarto onde dormia com dois irmãos durante umas férias em Portugal. Apesar de todas as especulações, não se sabe o que lhe aconteceu. O corpo nunca foi encontrado.
Joana Cipriano, sete anos de idade,  desapareceu uns meses antes de Maddie McCann. Supõe-se que tenha sido assassinada, depois de uma confissão da mãe, mais tarde considerada como tendo sido obtida sob coacção. O corpo nunca foi encontrado.
Emma Bovary, personagem central do romance “Madame Bovary” de Gustav Flaubert. Casada, entediada coma a vida que levava, Emma arranja vários amantes, arruinando a família e perdendo pouco a pouco o contacto com a realidade. Acaba por adoecer e morrer.
Anna Karenina, personagem central do romance do mesmo nome de Tolstoi. Casada, Anna apaixona-se e a situação leva-a a deixar  o lar, o marido e o filho. Abandonada pelo amante, Anna suicida-se, atirando-se para debaixo de um comboio.
Marilyn Monroe, actriz, amante de John Kennedy quando este era presidente dos EUA e provavelmente também do irmão deste, Robert, Marilyn morre aos trinta e seis anos, supostamente de uma overdose, embora existam suspeitas de assassínio. A sua vida é  romanceada no livro “Blonde” de Joyce Carol Oates, que mistura realidade e ficção.
Kelly Kelleher, personagem do livro “Águas Negras” , de Joyce Carol Oates, onde esta romanceia o caso da morte de Mary Jo Kopechne, amante de Ted Kennedy e afogada no lago de Chappaquiddick, quando o carro que este conduzia se despistou. 
Bertha Mason, personagem do livro “Jane Eyre” de Charlotte Brontë, Bertha era a mulher do dono da mansão, Rochester, a qual, alegadamente devido à loucura que a levava a maus comportamentos e abuso de álcool, era mantida fechada no sótão da casa pelo marido, impedida de ver a filha e guardada por uma empregada/carcereira.
Elizabeth “Black Dhalia” Shortjovem assassinada barbaramente em Los Angeles- foi  torturada durante dias e cortada ao meio, inspirou o livro “A Dália Negra” de J. Ellroy. O culpado nunca foi descoberto.
Zerlinepersonagem da peça “La servante Zerline” de Hermman Broch. Já de idade avançada, Zerline relembra episódios do seu passado, nomeadamente a história amorosa que manteve com um dos patrões e da qual nasceu uma filha, que nunca foi reconhecida.



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