segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Banzo


Então, eu sou uma pessoa de muito riso, pouco siso e, menos ainda, pranto. Até quando estou triste faço piada, não tenho jeito. Só que não estou triste. Não estou deprimida. Não estou ansiosa. Estou mesmo é de banzo. Um grande, profundo e inescrutável banzo. Um ano e seis meses na nova cidade. O primeiro ano eu não senti. Era tempo de aventura e de preparação. Gente nova pra conhecer, trabalho gostoso pra me ambientar, esperando o grande amor e filho que viriam morar junto, casa nova a ser planejada, viagens freqüentes pra ver papys e mamyys, clima de festa sempre, reencontros...eu não sentia nada, a vida me levava em largas pernadas que eu nem me esforçava pra acompanhar.

Mas ano novo e a vida nunca é o que planejamos. Pelo menos a minha. Enfim: o grande amor virou fumaça, a casa nova ainda está em construção, o filhote veio na adolescência, as pessoas a conhecer já estavam todas conhecidas, os lugares todos desvendados. E eu comecei a sentir falta do cheirinho de casa. Quero minha cidade. Quero além, quero quem sou quando estou por lá. É até meio contraditório porque gosto mesmo é do meio da rua. Mas não tenho dinheiro pra viver viajando, então, o melhor lugar entre uma estação e outra é...minha casa. Aquela localizada na avenida de sempre. Lá, onde passam todos os ônibus.

Quero minha cidade onde eu sei tudo que eu quero saber: onde cobrir um botão, onde comprar papel laminado, onde consertar um sapato. Quero todos os cinemas perto. Quero minha cidade de sinucas e conversa jogada fora no pé do balcão. Quero os bares de sempre. Quero os restaurantes de nunca. Quero a praia com jeito de meu quintal. Quero me lambuzar de caranguejo. Quero ir ao Mucuripe e comprar cinco quilos de camarão. Quero ser aquela eu. Só que de cabelo curto. Quero ir ao Teatro Celina Queiroz. Ao José de Alencar. Quero farrear na Casa Alheia. Quero fazer compras no Mercado Central. Quero ser bairrista. Quero meu mar azul e verde e azul numa variação de belezas que estão nos meus olhos.

Quero me sentir na minha. Quero deitar encolhida e saber que a minha dor tem canto certo. Quero gargalhar na janela e ouvir o eco. Quero as esquinas conhecidas. Quero as ruas desconhecidas mas já tão minhas antes mesmo de chegar lá. Quero me saber em detalhes e desconhecer em partes iguais. Quero meu banheiro de vidro, tão planejado e tão mangado. Quero minha sala quente de pegar sol o dia todo. Quero o pó preto do asfalto cobrindo os móveis e me chateando. Quero me chatear. Não quero ser estranha na minha cidade, não quero pegar uma rua e descobrir que está em obras já faz tempo. E eu não sabia. Eu quero saber. Quero minhas livrarias, aquelas em que eu já sei onde deixei cada livro que quero comprar. Quero os sebos, poeira enchendo meus olhos de espanto e descobertas. Quero sentir que sou estrangeira em meu lugar, mas de uma forma íntima e cúmplice. Quero me sentir na palma da mão.

Eu sei que eu sou a própria mão. Eu sei que eu sou minha própria casa. Eu sei que o cheiro conhecido é o meu. Eu sei que só eu sou meu fim da estrada. Eu sei que sou meus pontos de referência, minhas placas, minhas esquinas íntimas. Eu sei. Mas e daí? Não se faz uma canja com um saber. Não se gela uma cerveja com um saber. Não se sente um abraço com um saber. Um saber não é uma língua outra na minha boca. Um saber não é o barulho de carros lá em baixo e nem o riso de gente conhecida cá na sala. Um saber não é.

No último post terminei a saga 5 (que viraram 25) coisas que me fazem feliz. Vai ver isso é ressaca. Aliás, esta é uma coisa que sempre quis partilhar e nunca deu certo. Vou fazer de conta que isso foi uma deixa apropriada: eu nunca tive ressaca. Pois é, até já me embebedei (no meu chá de panela) a ponto de esquecer de tudo que disse (intimidades de fazer corar uma stripper) e tudo que fiz (o mesmo que a mocinha que corou na frase anterior faz). Mas caí desmaiada e acordei quatro horas depois como nova. Lépida e fagueira. Outra vez, em JP, uma tal cachaça de canela quase tirou meus pés do chão (ou foi o rapaz fofo e de língua gentil?). Mas ressaca, nada, nadica. Acho isso bem perigoso.

De qualquer forma, de alguma forma, sempre há alentos. Como um cumprimento gentil (tema de um post em gestação: as mais fofas cantadas e os elogios mais comoventes já recebidos por esta Borboleta gabola). Ou os homens. Sabe, eles surpreendem. No desejo inesperado do camarada fofo, nas lembranças doces de uma voz estrangeira, nas quase indecências de um anseio além-mar, na possibilidade suave do moço bonito. Eu nunca disse porque ele é bonito, disse? Ele é tão sério. Tão diferente do meu muito riso. E ele é repentinamente doce. Mas também seco. Ele parte. Ele sabe ficar. Ele ainda não é. Nem, talvez, venha a ser. Mas me faz bem, tão bem.

UTILIDADE PÚBLICA. Uma coisa que me impressionou e fez pensar: Elena e os Polímeros. Leiam, sofram, revoltem-se, sintam.

E, claro, perguntinha básica: já votou? Já vai começar a quarta fase. Vai lá, vai.



sábado, 25 de setembro de 2010

Quando Você Faz a Minha Carne Triste Quase Feliz

Avisando que os trabalhos foram reabertos neste blog genial: Imagem e Semelhança.



Pois toda esta beleza que te veste,
vem de meu coração que é teu espelho
o meu bem é bem melhor que tudo posto...



z
PS. Isso é de ler, mas principalmente de escutar. Zeca faz desta canção um percurso.

Bom, e as coisas que me fazem feliz? Ahá, não esqueci. Eu sou feliz por ter idéias. E por mudá-las. Então são cinco coisas que me fazem/fizeram mudar de idéia:
O Zeca Baleiro. Eu sou uma nostálgica por história, vocação e necessidade. Vivo dizendo que não há mais letristas/canções/cultura como a de “antigamente”. Mas me derreto toda por esse cara. Sempre e muito. Valeu, Zeca.
Eu não como berinjela. E aí vem a minha amiga Bete e faz sei lá o quê que é tão delicioso que eu não só como a berinjela..eu também privilegio-a em relação às demais comidas saborosíssimas.
Eu já fiz todos os amigos que tinha que fazer. Pois é, pensei isso aí. E não foi agora não, foi quando eu tinha uns 30 anos. Claro que eu sabia que iam surgir pessoas especiais que participariam da minha vida (também não sou burra, né). Mas não pensava que sentiria essa afinidade de alma, essa vontade colocar no colo, essa segurança de poder dizer tudo e contar pra tudo. Confesso, com 30 anos eu pensava já ter concluído meu glossário da vida e tecido todas as relações essenciais. De lá pra cá, ladeira abaixo, foram aparecendo umas pessoinhas danadas que ganharam meu coração, pulmão, pedaço de fígado, um rim...o que elas quiserem. E, parece, vão continuar a aparecer. Valeu, Maranguape, por ser o primeiro a puxar meu tapete.
Só não faço isso: ensinar. Professora? Nem pensar. Valha-me, eu dizia e pensava que nunca. Nem de jeito nenhum. E, hoje, como pensar em outra coisa? No meu primeiro álbum, aquele em que os pais colam os primeiros registros e escrevem as primeiras profecias, meu pai colocou: pedagoga. E eu passei um tempo negando tanto e tudo. Mas, um dia, entre tantos outros ofícios, reconheci que e a minha praia.
Está sob judice. Mas caminha bem. Depende só do que depende mesmo. Quem sabe se. Pois é. Tenho dito.

Grande Merda. Desculpem o termo, mas é que tem hora que a paciência acaba. A minha acabou. Como assim tirar o Juan com 30 minutos do primeiro tempo? Como assim tirar um volante e colocar outro? Como assim barrar o Ronaldo Angelim? Como assim escalar mal e ainda colocar taticamente o time na retranca? Eu acredito no trabalho do Zico e sei que o Flamengo precisa de ações de longo prazo. Não estou cobrando resultados, mas postura. Quero meu time na ataque e que. se for perder - que isso é do jogo - que seja com coragem.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

De Alma Cigana

Como diz a canção, eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus. Quer dizer, eu achava que não precisava. Achava mesmo, afinal meus maiores gastos são com livros e cerveja. Mas fui percebendo, dia a dia, que eu devia ter mais grana. Ou, pelo menos, mais milhas. É que eu tenho um fraco por estradas. Viagens. Percursos. Caminhos. "Mei da rua". O nome que você quiser dar, desde que envolva partidas.

Rodoviária, aeroporto, garagem, não tem importância. O bom mesmo é a hora de ir. Mas, confesso, tenho um fraco pelas rodovias, o asfalto, o ônibus seguindo e aquelas risquinhas no chão entontecendo o juízo e me deixando pronta pro que vier. Sair do lugar, é esse meu mote.

Viajar me faz feliz. A estrada oferece uma oportunidade ímpar: ser cada vez mais eu, sendo menos. Explico. No outro lugar não há expectativas, não há planos anteriores, não há nada, você é o que você estiver sendo. Bom, eu acho isso muito bom.

De alma bandoleira, o que mais aprecio é o deslocamento. Não sou uma viajante culta. Não sou aventureira. Não viajo por negócios. Meu negócio mesmo é estar por aí. Não me pergunte o nome das ruas por onde andei, monumentos que vi, museus que visitei. Não sei. Não me peça pra te dar dicas de um bom restaurante ou de um passeio imperdível. Não sei. Eu simplesmente gosto de tudo, tudo, tudo. O gosto pela estrada não vem de arquivar conhecimentos, prazeres ou informações. Vem de, simplesmente, estar lá, nesse canto que é outro.

Até janeiro, sequer fotografava decentemente. Uma vez, fui a Porto Alegre e dessa viagem tenho duas fotos. Ambas do interior do quarto do hotel em que fiquei. E só. De janeiro pra cá, por amor à máquina que ganhei ou talvez por amizade por quem me deu, sempre registro um bocado de lugares e situações. Mas, admito, esqueço um tanto dessas coisas no cartão de memória. O certo é que as experiências ficam onde gosto que elas estejam: em mim. Não nas lembranças, mas na minha pele, nas palavras que passo a usar, nas ruguinhas ao redor dos olhos que franzi pra ver melhor ou por tanto rir, no jeito de andar, de gesticular, nas idéias que vou construindo.

Cigana, gosto de ir e de voltar. De passar pelo mesmo lugar, que já não é mesmo, nem mesmo em mim. E de ir aonde eu nunca fui, mesmo quando era outra. Dos lugares tantos que me fazem feliz só de estar lá pra que eu possa um dia retornar - ou simplesmente desejar - aos lugares que me fazem feliz só de ter estado lá onde eu pude chegar, fiz uma listinha. Claro. Outra. Seguindo o mote da semana (a propósito, já votou?) das cinco coisas que me fazem feliz.

Então, as cinco cidades que me fazem feliz:

Fortaleza. Lugar de partir. Lugar de chegar. É onde estão os tantos queridos: pai, mãe, manos, amigos, rua da minha infância, becos da minha mocidade. Não há praia como a Praia do Futuro. Não há brisa como a dos meus verdes mares. Não há tristeza como a que sinto na Praia de Iracema e não há mais riso em mim do que na Beira-Mar.

Rio de Janeiro. Meu umbigo foi plantado lá, não há dúvida possível sobre isso. Cheguei já reconhecendo. O cheiro, as cores, o clima, tudo me disse tanto de mim. Uma cidade que nasceu pra ser por enquanto e se fez eterna na impossibilidade de ser. Eu gosto.

Matera. Meu lugar preferido no mundo todo. Tem toda a história em si e nem liga. Acolhe. Promete. Ensina. Indica. É tão estranha a mim que parece espelho. Um mundo escavado em si mesmo. Não há nada tão lindo aos meus olhos nem tão caro ao meu coração.

Pedra Branca. Uma cidadezinha escondida no interior do Ceará, serra e sertão feitos um só. O que tem em Pedra Branca? História. Minha. Outras. Causos de rir. De pensar. Tem andar de pau-de-arara. Tem Pedro Jogador. Tem passa bombom. Tem tanto que nem sei dizer o tanto de mim que é.

Canoa Quebrada. Eu já andei espalhando por aqui que Canoa me faz um bem danado. Quando chego lá tudo fica mais claro, mais alegre, tanta noite, tanto riso, tanto mar. Canoa tem um cheiro de festa que valhamedeusnossasenhora. Canoa é miúda mas tem o mundo todo de todo jeito ali, ao alcance do olho. Um azul que atordoa. Um sol que abraça. Uma noite que promete. Não há medo nem reservas em mim quando estou em Canoa.

Talvez o meu amigo querido dr. Paulinho estrile (adoro essa palavra). Afinal e a São Paulo que eu amei tanto? É verdade. São Paulo é rica e intensa. Mas a maior parte da minha paixão não é tanto por ela, mas porque nela estão estes que amo. O dr. com sua incrível habilidade pra querer bem e o Lemú sendo fofo sempre. Então São Paulo me faz feliz, mas eu ficaria feliz em qualquer canto em que o amor desses dois estivesse.

Eu ia terminar o post aqui mesmo, mas fiquei duvidando: será que consegui transmitir exatamente o que sinto viajando? A ternura, riso, calor, beleza, encanto? Aí lembrei dessa cena com essa música otimista nesse filme maravilhoso (e o menor dos motivos não é porque estão nele Paul Newman e Robert Redford). É assim que me sinto em trânsito. O que te faz feliz assim?



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Em dia de Scarlett


Scarlett O'Hara é um dos meus personagens preferidos. Gosto do seu jeito absurdo de lidar com a vida, sua determinação cega e sua ingênua surpresa ante os anseios alheios. Gosto muito. Gosto que ela não seja uma dama, porque eu passo longe de ser uma. Longe mesmo. Mas, vejam só, Scarlett queria muito ser como a mãe (e só quem leu o livro tem a exata noção da força, meiguice e calor que a mãe de Scarlett transmitia - Melanie representa um pouco isso, mas sem a mesma intensidade). Então, do que é mesmo que estou falando? Eu sou uma pessoa amorosa, pelo menos acho que sou. Gosto de gostar. Mas, puxa, sou uma estabanada no bem querer. Às vezes, eu queria me parecer mais um tantinho com a mãe da Scarlett. Com uma dama. E, aqui, não sei se ela consideraria um elogio, mas a Rita é exatamente assim, como penso que uma dama seria.Hoje ela nos deu flores. A nós, que gostamos de gostar dela. Foi doce. Mas também forte. Inteira. Admiro essa lâmina em seda enrolada.

Então, hoje, o que me faz feliz é pensar em mulheres que me inspiram. E as dividi em cinco grupos. Só pra fazer de conta, vagamente que ainda estou seguindo a regra: 05 coisas que me fazem feliz. Então: a) personagens femininas de livros; b) personagens de filmes; c) escritoras; d) contos de fadas; e) o povo lá de casa.

Nos livros. Capitu, claro. Já disse antes, digo de novo. Porque sim. Porque seus olhos são de ressaca. Porque soube seguir. Porque é um enigma e o que é uma mulher senão uma pergunta? Gosto também de Teresa, porque gosto de me imaginar menos Tomas. Delgadina de Memórias de Minhs Putas Tristes. Porque provocar amor é uma arte que me apetece. Alice, claro, correr atrás do coelho é a minha cara. E ela, Elizabeth Bennett porque uma boa fala é o melhor recurso que posso imaginar.

Nas telas. Bom, tem a Scarlett, né. E a Marquesa de Merteuil. Eu sei, eu sei, elas também habitam prateleiras de livros. Mas é que Vivien e Gleen Close conseguiram fazê-las tão perfeitamente que sequer consigo imaginá-las outras. Scarlett é desbocada, impetuosa, forte. E boba, tão boba. Politicamente incorreta. E a Marquesa, então, pior. Vilã, até. Mas que liberdade. Que consciência dos seus desejos. E que língua, meudeus. E eu gosto da Jessica Rabbit com todos aqueles peitos e curvas e ingênua devoção ao coelhinho. Ela sintetiza tantas divas do meu imaginário que nem sei. Sally Bowles, com suas canções, suas dores, seus amantes, suas unhas afrontosamente pintadas. E Amélie. Toda a doçura de Amélie.

Nas letras. Sem respirar: Clarice, Jane Austen, Marguerite Duras, Virgínia Woolf e Adélia Prado. Esqueci "alguéns"? Com certeza. Mas não posso nem pensar em mim sem elas. Sem lê-las.

Nos contos de fadas. A Madrasta da Branca de Neve. Sua maldade simples e direta. A doce Ariel e sua terna entrega do que tem de melhor. Bobinha, mas linda. Fiona, encantadoramente em outro lugar. Mãe do Bambi, incrível na sua ausência. E a Bela Adormecida, não tanto por ela mesma mas pela linda poesia Eros e Psique.

Na rua. Tem minha mãe. Quando eu crescer quero ser igual a ela, ou seja, ter muita gente que me ama e admira e ter um cara fofo totalmente doidinho por mim. Tem minha madrinha, que segura uma barra incrível já faz tanto tempo que eu quase não me lembro como era quando não era assim. E faz isso com um humor e uma amorosidade constante. Tem a minha Tia Socorro que ri e bebe e ama e é livre e livre e querida e especial. E tem, na minha lembrança, duas avós tão diferentes em seus comportamentos quanto se pode ser e tão iguais em sua força, ternura, independência, humor, gentileza. Uma, avó de propaganda de margarina, cabelo branco, óculos, riso quente e tapioca sempre. Outra, riso largo, cachacinha, escorregar nas dunas, jogar sinuca. Mulheres amadas, mulheres amantes.

É isso aí. Saber de mulheres assim me faz feliz. E faz querer. Querer ser, também. O quê? Ainda estou descobrindo. Mas é bom e belo. E terno. E forte. E tanto que dói. Scarlett que sonha em ser Dama. Dama que sonha com Vagabundos. Gata de Rua. Sigo virando lata...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Homem Me Faz Feliz

E, bem na semana que eu estou no Concurso de Blogueiras que tem como tema "As Origens do meu Feminismo" eu vou enfiar o pé na jaca (assim, antes de continuar a ler o post vai lá, na Lola, vai, lê tudinho e vota em quem você quiser). Pois tá. O tema da semana é: o que faz você feliz e eu vou responder assim: homens me fazem feliz. Daí uma porção de novos visitantes assustados já mudam de blog e os amigos de sempre já cobrem a boca (não sei se horrorizados ou pra esconder a gargalhada). Fazer o quê, povo meu, senão tentar explicar? Lá vamos nós.

Homens me fazem feliz. Tenho um filho: ele é carinhoso, meigo, cuidadoso, inteligente, leitor voraz e companheiro pra tudo. Faz feliz. Eu tenho um irmão: já falei dele por aqui. Ele cuida, ri, abraça, dá idéia, faz birra. Faz feliz. Tenho cunhados e, puxa, eles fazem a minha família melhor, eles estão sempre disponíveis e são generosos. Feliz, de novo. Tenho amigos que seguram a minha mão, a minha barra, o meu copo. Fe-liz. Meu ex-marido é um amigo. Dos bons. F-e-l-i-z. Os homens que eu quis, os homens que me quiseram, ai, ai, ai, não reclamo nem protesto, foi sempre bom e do jeitinho que era pra ser. Fui amada, desejada, traída, querida, sacudida, procurada, envolvida, festejada. Deixei a fatia mais doce da vida na mesa dos homens de vida vazia (...) mas vida, ali, eu sei que fui feliz. O moço bonito, mesmo esse, me faz feliz no seu sem chegar que me atormenta. E tenho meu pai e nele tanto riso e felicidade.

Mas nem é por isso e por esses tantos que digo que homem me faz feliz. É o próprio universo cultural e comportamental masculino que me agrada tantas vezes. É aí que me desgraço de vez com as amigas leitoras: ou por não ser suficientemente feminina pra desprezar tais prazeres ou pra não ser suficientemente feminista e chamá-los de masculinos. Ou seja, tô perdida.

As cinco coisas deste universo - quase sempre masculino - que me fazem feliz: filmes de faroeste/western/western spaghetti, futebol, cerveja no boteco, a clara preferência de sexo ante os demais assuntos, a despreocupação com moda. Estereótipos, claro. Eu conheço um montão de homens que não curte nada disso aí de cima. Mas vamos a eles antes que eu me arrependa da idéia e prefira manter as amigas e os leitores.

Os filmes de faroeste possuem uma série de características que me enlevam: honra e rude bondade. Um certo desconforto e o fato de nunca, nunca ser o bastante. O vasto horizonte e o risco sempre perto, sempre próximo. A aridez da vida e a felicidade temporária e transitória. Heróis vulneráveis e duros. A solidão. A violência sempre presente e sempre perturbadora. As desilusões, os grandes gestos, os inesquecíveis duelos. Era uma vez no Oeste, é sempre a mesma vez nos meus desejos. Gosto. Um inventário abrangente do meu querer bem aos filmes de faroeste encontra-se aqui.

Futebol, o que inclui a barulhenta e emocionante ida ao estádio com direito a churrasquinho no caminho, cachorro-quente frio durante e buzinaço depois. Gosto de ver futebol, de falar de futebol, de discutir futebol. Ressinto-me de não ter aqueles desocupados neurônios que só servem pra decorar a escalação do campeão estadual de 39 e saber quem foi o Cafuringa. Mas compenso no entusiasmo. Gosto dos jogos, dos dribles, das tabelinhas, dos craques, dos raçudos, dos uuuhhhss e aaaiiisss de cada lance "mais agudo". Leio blogs sobre futebol. Assisto mesas redondas. Debato com o comentarista em voz alta, talvez esperando que eu na minha casa em frente à tv e ele no estúdio possamos nos entender. Enfim, boleira.

Boteco em todas as suas variantes: aquele pé sujo bom pra comer panelada no domingo de manhã, aquele azulejado que tem a melhor cerveja de fim de expediente, aquele pós-futebol, aquele pré-praia, aquele com sinuca, aquele do mais famoso arrumadinho da região, aquele do meio da estrada quando a sede apertou. Não me importo com banco em falso, mesa preguenta, copo de lavagem suspeita, banheiro misto. Gosto mesmo é do sentir-me à vontade, a risada muito alta e, claro, do bom papo, geralmente sobre futebol. Gosto de não ter hora nem rumo.

Sexo, claro. Já faz tempo eu descobri, um bom relacionamento é sexo e paciência. Nessa ordem. Claro que andar de táxi de mãos dadas eu também classifico como preliminar. Gosto de poder ser tranquila e clara em relação a isso: eu tenho um corpo e ele deseja.

Quanto ao último item aí, a tal relação com a moda, antes das merecidas contestações que incluem argumentos sobre homens no salão de beleza, metrossexuais e assuntos afins, quero dizer que desde que me mudei eu NÃO tenho espelho. É isso aí, nem no quarto, nem no banheiro, nem em canto nenhum, a não ser o retrovisor do carro. Eu me visto, passo o pente e pronto. Pronta. Eu tenho limites emocionais que me impedem de comprar blusas de mais de 40 reais e vestidos de mais de 70. Mesmo. Eu só tenho uma bolsa. Sério. Tenho duas sandálias: uma preta, uma bege. Nada mais.

Bom, como boa histérica, só posso dizer uma coisa: a culpa deve ser do meu pai. Ele já andou em vários posts por aqui. Já recebeu essa homenagem. Já foi mencionado aqui e aqui. Já contei causo do casamento dele e mamys aqui. Meu pai é uma pessoa incrível. Mesmo. O sorriso dele é a coisa mais reconfortante e inspiradora que já vi. Ele é simples. Bondoso. Meu pai é presente, disposto, inteligente. Turrão, claro, com quem vocês acham que aprendi a ser teimosa? Meu pai é um apaixonado, 36 anos de casado e ele ainda se desmancha quando minha mãe fala com ele. Meu pai é amigável, simpático. Meu pai leva à sério tantas coisas, mas sabe se divertir e fazer o mundo ser divertido. Meu pai é em paz. Ele sabe chorar. Ele sabe acolher. Ele conta a mesma história várias vezes. Ele cutuca a unha do dedão do pé e leva minha mãe à loucura. Meu pai é assim, um amor. Ele é um homem. É, os homens me fazem feliz. Hoje ouvi um zilhão de vezes essa música e, além de voltar a me apaixonar pelo Diogo Nogueira (eu tinha esquecido como ele é justinho perfeito certinho pra mim), essa canção me fez chorar e pensar e rir e querer ser um tantinho igual a ele, meu espelho, meu pai:




PS. Putz, depois de tudo feito, pronto e acabado, sabem o que achei? Chico e Diogo, ai meus sais. Pode chamar de tiete. Pode chamar de deslumbrada. Eu chamo de felicidade. Vou lá me perder em olhos e bocas e peitos e mãos que me fazem ansiar pela felicidade. Quem quiser ver, venha.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...