
Tem duas coisas que detesto. Muito. Mesmo. Tanto. Ai, ai ai. Pois é. Duas coisas: quando alguém diz que estou acima do meu peso e quando alguém me diz que pareço ser mais nova, ter menos idade do que realmente tenho.
Se alguém diz algo assim: "ah, mas eu pensei que você tinha X anos" (que é qualquer idade menos do que meus 35), como se fosse um elogio... Não quero, não gosto e acho um desrespeito. Como assim? Ser mais nova é melhor? Em quê? Por quê? Porque se diz isso como se fosse um elogio? Poxa, foram bons anos, todos os 35 (ou pelo menos os que lembro, que tem uma época aí de fraldas e sono e leite e cocô a toda hora que sei não...). Eu gosto de cada idade que tive e tenho a impressão que gosto mais a cada ano. Viver é uma delícia, porque ter as recordações e marcas disso também não pode ser? Tenho o corpo da vida que levo. Tenho o rosto da vida que levo. E tudo isso é bom e não preciso me sentir mais nova pra me sentir bem. E o que é parecer ter 25 ou 35 ou 45 ou sei lá quantos anos? Qual é o padrão de comparação? É a atriz da Globo de 25 anos, malhada e produzida? É a sertaneja de 25 anos de face curtida do sol? É a sofrida presidiária de 25 anos, pele macilenta e olhos tristes? É a minha vizinha, 25 anos de boa saúde, bem alimentada, pele amorenada e olhos sorridentes cheios de ruguinhas ao redor? Quem parece ter 25 anos pra eu me parecer com ela? Fico doidinha com isso. Não é pessoal, ok, amigas? Só fico ouriçada com o assunto. É tipo uma bandeira.
Outra coisa: eu estou acima do meu peso. Como assim? Eu nunca entendi a lógica dessa frase. Como eu posso ter um peso acima do que ele é de verdade? Meu peso é esse (não escrevo porque não sei, faz anos que não me peso, mas é mais de 70 folgado). Não pode ser acima do que ele é. Entende o problema? Meu peso pode estar acima de um peso suposto ideal para alguém com algumas características minhas. Mas não pode, na realidade, estar acima dele mesmo. Ele é o que é o que é o que é. E, de novo, entram em cena os padrões definidos longe e fora de mim. Como assim meu peso ideal? Ideal pra quem? Alguém perguntou minha opinião? Ideal pra eu não morrer de alguma doença supostamente ligada à minha forma? (Quero dizer que não me pesei, mas faz seis meses que fiz váaarios exames e o meu colesterol, por exemplo, está em um nível ótimo). Então o peso é ideal para alguém parecido comigo mas que não sou eu. Alguém que não curte comer panelada de manhã no mercado, que não fica horas vendo o mar e tomando cerveja, alguém que não paga um mico por um prato de torresmo, uma pessoa que não sou eu. Outra. Meu peso pode estar acima do peso dela, desta pessoa aí que não quero ser, porque fora uma teimosia e outra, um dengo e outro, um esturro e outro, até que gosto bem muito de ser eu. Assim, desse jeitinho cheio de dentes que sou.
Mas pra cortar os resmungos, uma coisa que adoro. Gentileza. Poxa, gente, tem coisa mais linda que delicadeza, finesse, bom gosto, gentileza? Não sei se me faço clara, óbvia e evidente como queria. Quando digo gentileza digo aquele gesto de extrema consideração, aquela palavra corretamente colocada, aquela ação cortês. Acho que é isso: cortesia. Sim, um tantinho formal, mas não é isso, é ser espontaneamente polido, fino, meigo. Ai, quanto mais esclareço mais confuso fica. Eu não sei dizer como é. Só sei sentir. Principalmente sentir falta disso, na época de esbarrões sem o pedido de desculpas, de furar filas, de estacionar em fila dupla, de de de. Eu sempre digo que a vida me trata muito bem. Mas isso não é a verdade exata. As pessoas é que me tratam muito bem. Menos as que não tratam, mas porque vou pensar nisso? Gosto de lembrar os pequenos sorrisos, os obrigadas, os pois não, os por favor. Gostava (como diz um amigo português perfeitamente gentil e cortês que usa o pretérito imperfeito onde eu usaria o futuro de pretérito), gostava de viver num mundo de pequenas gentilezas. Faço o que posso (e as que posso) pra isso. Acho bom fazer o que quero ver. Quantas pessoas podem dizer o mesmo de seus sonhos de mundo melhor?
Este blog, aliás a blogsfera, tem me apresentado tantos e tão corteses. Como a Dona Mila. Ai, que blog alegre e meio desbocado com uma dona tão, tão gentil. Pois ela me fez um mimo de passar um meme: 5 coisas sobre mim. Lista, oba. Sobre mim, mais oba ainda. Pelo que entendi tenho que citar 5 características, quase rótulos, meus. Cinco coisas que me definem. Moleza? São sóooo cinco. Poxa. Começando:
1. Eu rio. Não, não como as outras pessoas, por motivos socialmente compartilhados como engraçados. Eu não, de repente eu lembro um trecho de uma crônica do Verissimo e desando a rir e repetir, por exemplo: ninguém sai, ninguém sai. Ou: olha pra frente, Alencar. Ou: ataquei meu rock suave. Enfim, vocês entenderam. E emendo gargalhadas uma nas outras. Por qualquer coisa já estou rolando no chão, batendo na mesa, virando copos, ficando sem ar e com dores no diafragma.
2. Flamenguista. Aliás, uma coisa que se desdobra em duas. Primeiro: gosto e entendo de futebol. Mesmo e muito. Assisto jogos, não saio de casa no domingo a tarde se puder evitar e detesto dar aulas quarta à noite porque eu perco o comecinho do jogo das 21:45hs. Sinto saudade do Silvio Luiz e seu jargões. Assisto mesas-redondas sobre jogos da série B. Uma seguida da outra. Mas isso não é o principal. O importante é que sou Flamengo. Eu não torço pelo Flamengo. Eu o sou e ele me é. Sinto um amor que não tem palavras. Sou capaz (e fiz) de me endividar e correr pra passar dois dias no Rio e ver um jogo do Mengo no Maracanã. Porque não há jeito de não senti-lo em meu coração, corpo e sonhos.
3. Eu leio. Gosto de ler. Exceto manuais, como bem lembrou minha irmã ontem mesmo, tudo o mais entra na mira. De lista telefônica a romances russos (que têm em comum o número de personagens...não é uma piada minha, claro, pesquei-a do Verissimo). De Clarice a Biancas. De Alencar a Machado. Não passa nada. Ando com livros dentro do carro porque quando paro nos sinais eu aproveito e leio alguma palavrinha. Levo livros pro cinema. Pra praia. Pra filas de banco. Pra todo lado. Mesmo.
4. Sou desajeitada. Ou tenho uma referência espacial bem diferente da média. As coisas voam das minhas mãos. Eu ando esbarrando. E me ver dançando é uma experiência inesquecível (tenho vários depoimentos pra provar isso).
5. Sou doidinha pelo Chico Buarque. E pelo Vinícius de Moraes. E pelo Cartola. E pelo Pixinginha. E pelo Tom Jobim. E pelo João Bosco. E pelo Luiz Gonzaga. E pelo Ismael Silva. E pelo Dick Farney. E pelo, pelo e pelo. Sei não, mas acho a música brasileira o must. Sério, seríssimo, meu caso.
Por fim, só pra dizer que te espero ainda. Você já vem? Já vem em mãos e olhos e anseios? Já me traz sonhos e saliva? Já está chegando com dores, cantigas e desejo? Já está vindo sem saber que impulso tem, ele dela ignorado e ela pra ele ninguém? Já sabe que uma rosa poderia não se chamar rosa e teria o mesmo perfume mas talvez não o mesmo charme? Ou já me espera, rosa na mão, pergunta na frente, prazer a seguir? Já me recebe em mares e sol e abraço? Já me planeja em peitos e lábios e frases? Já?
Aos Leitores
Está no ar a segunda fase do 4o Concurso de Blogueiras do Blog da Lola. Vale a pena conferir os textos, tão verdadeiros e de alma tão desnuda. E, claro, estou em campanha. Votem, votem, votem. Em qual? Ora, Menina pode sim.