sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Proibido Para Menores III ou Um Plano Perfeito

Há perigo quando escrevo de madrugada. Dá-me vontade de confissões. Por exemplo: eu gosto do Roberto Carlos. Pois é, intelectuais e artistas sérios, podem fechar os olhos horrorizados e balançar a cabeça sussurrando: é, ela nunca me enganou! Ok, sempre houve coisas aterrorizantes como a tal Mulher Pequena, a música do caminhoneiro e coisas assim. E a produção pós-Maria Rita é assustadora. Mas, confesso: eu gosto do Roberto Carlos. Gosto da simplicidade terna de frases como: pois sem você meu mundo é diferente, minha alegria é triste. Gosto da narrativa triste de Maria, Carnaval e Cinzas: Morreu Maria quando a folia, na quarta feira também morria e foi de cinzas seu enxoval. Gosto dos grandes amores, dos desesperos sentidos, das grandes mágoas e das pequenas alegrias: de repente ser livre até me assusta, me encontrar sem você certas vezes me custa...

Então, bem podia ser assim: pra começar, o começo, claro.
Te dar meu corpo
Depois do amor
O meu conforto

Depois, noite adentro, quem sabe?
Por uma estrada colorida
Usar meus beijos como açoite
E a minha mão mais atrevida
Vou me agarrar aos seus cabelos

E, com sorte e um tantinho de talento e jeito, pode até ser...

Depois do amor, o descanso
E essa paz infinita
No seu corpo, minhas mãos
Se deslizam e se firmam
Numa curva mais bonita
No seu corpo o meu momento
É mais perfeito
E eu sinto no seu peito
O meu coração bater
E no meio desse abraço
É que eu me amasso
E me entrego pra você
E continua a viagem
No meio dessa paisagem
Onde tudo me fascina
E me deixo ser levado
Por um caminho encantado
Que a natureza me ensina
E embora eu já conheça bem
Os seus caminhos
Me envolvo e sou tragado
Pelos seus carinhos
E só me encontro se me perco
No seu corpo

Madrugada finda, já se sabe:

Te fazer um carinho e depois
Te envolver em meus braços

E em meus abraços
Na desordem do quarto esperar
Lentamente você despertar
E te amar na manhã

Um planejamento ímpar, creio.
Esperemos reações.



quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Lua em Escorpião

Mulher de Peixe...peixe é
Em águas paradas não dá pé
Porque desliza como a enguia
Sempre que entra numa fria.
Na superfície é sinhazinha
E festiva como a sardinha
Mas quando fisga um namorado
Ele está frito, escabechado.
É uma mulher tão envolvente
Que na questão do Paraíso
Há quem suspeite seriamente
Que ela era a mulher e a serpente.
Seu Id: aparentar juízo
Seu ego: a omissão, o orgulho
Sua pedra astral: a ametista
Seu bem: nunca ser bagulho
Sua cor: o amarelo brilhante
Seu fim: dar sempre na vista.

Nada de horóscopo pra mim. Antes, claro.
Até, veja só, o Vinícius.
Agora acredito em astros, luas e destinos.
Acredito em poesia?


Eu te planejo. Eu me preparo. Me desenfeito, quero ser nua. Vestida de mim mesma ou de travessos peixinhos. Ritualizo o trivial, mãos escorrendo óleo, pele bebendo amanhãs. Tiro, peça após. Já sabe, sem ver. Duas gotas de perfume. Fome? Sim, tudo pede. Mas é também o que não sei que faz o coração bater, uma vez sim, uma vez não. Descompasso. Eu pergunto? Quando. Eu respondo em braile, prometo. Há lua. Não a vejo onde está, só sei no reflexo que o mar devora. Hora de chegar. Me encontra. Me conta, devagar, de trás pra frente até a hora que dissemos adeus. Ou olá.

E a Lua em Escorpião?
Sei lá, na hora pareceu uma boa idéia.




quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Duas Coisas Que Detesto e Uma Que Amo

Tem duas coisas que detesto. Muito. Mesmo. Tanto. Ai, ai ai. Pois é. Duas coisas: quando alguém diz que estou acima do meu peso e quando alguém me diz que pareço ser mais nova, ter menos idade do que realmente tenho.

Se alguém diz algo assim: "ah, mas eu pensei que você tinha X anos" (que é qualquer idade menos do que meus 35), como se fosse um elogio... Não quero, não gosto e acho um desrespeito. Como assim? Ser mais nova é melhor? Em quê? Por quê? Porque se diz isso como se fosse um elogio? Poxa, foram bons anos, todos os 35 (ou pelo menos os que lembro, que tem uma época aí de fraldas e sono e leite e cocô a toda hora que sei não...). Eu gosto de cada idade que tive e tenho a impressão que gosto mais a cada ano. Viver é uma delícia, porque ter as recordações e marcas disso também não pode ser? Tenho o corpo da vida que levo. Tenho o rosto da vida que levo. E tudo isso é bom e não preciso me sentir mais nova pra me sentir bem. E o que é parecer ter 25 ou 35 ou 45 ou sei lá quantos anos? Qual é o padrão de comparação? É a atriz da Globo de 25 anos, malhada e produzida? É a sertaneja de 25 anos de face curtida do sol? É a sofrida presidiária de 25 anos, pele macilenta e olhos tristes? É a minha vizinha, 25 anos de boa saúde, bem alimentada, pele amorenada e olhos sorridentes cheios de ruguinhas ao redor? Quem parece ter 25 anos pra eu me parecer com ela? Fico doidinha com isso. Não é pessoal, ok, amigas? Só fico ouriçada com o assunto. É tipo uma bandeira.

Outra coisa: eu estou acima do meu peso. Como assim? Eu nunca entendi a lógica dessa frase. Como eu posso ter um peso acima do que ele é de verdade? Meu peso é esse (não escrevo porque não sei, faz anos que não me peso, mas é mais de 70 folgado). Não pode ser acima do que ele é. Entende o problema? Meu peso pode estar acima de um peso suposto ideal para alguém com algumas características minhas. Mas não pode, na realidade, estar acima dele mesmo. Ele é o que é o que é o que é. E, de novo, entram em cena os padrões definidos longe e fora de mim. Como assim meu peso ideal? Ideal pra quem? Alguém perguntou minha opinião? Ideal pra eu não morrer de alguma doença supostamente ligada à minha forma? (Quero dizer que não me pesei, mas faz seis meses que fiz váaarios exames e o meu colesterol, por exemplo, está em um nível ótimo). Então o peso é ideal para alguém parecido comigo mas que não sou eu. Alguém que não curte comer panelada de manhã no mercado, que não fica horas vendo o mar e tomando cerveja, alguém que não paga um mico por um prato de torresmo, uma pessoa que não sou eu. Outra. Meu peso pode estar acima do peso dela, desta pessoa aí que não quero ser, porque fora uma teimosia e outra, um dengo e outro, um esturro e outro, até que gosto bem muito de ser eu. Assim, desse jeitinho cheio de dentes que sou.

Mas pra cortar os resmungos, uma coisa que adoro. Gentileza. Poxa, gente, tem coisa mais linda que delicadeza, finesse, bom gosto, gentileza? Não sei se me faço clara, óbvia e evidente como queria. Quando digo gentileza digo aquele gesto de extrema consideração, aquela palavra corretamente colocada, aquela ação cortês. Acho que é isso: cortesia. Sim, um tantinho formal, mas não é isso, é ser espontaneamente polido, fino, meigo. Ai, quanto mais esclareço mais confuso fica. Eu não sei dizer como é. Só sei sentir. Principalmente sentir falta disso, na época de esbarrões sem o pedido de desculpas, de furar filas, de estacionar em fila dupla, de de de. Eu sempre digo que a vida me trata muito bem. Mas isso não é a verdade exata. As pessoas é que me tratam muito bem. Menos as que não tratam, mas porque vou pensar nisso? Gosto de lembrar os pequenos sorrisos, os obrigadas, os pois não, os por favor. Gostava (como diz um amigo português perfeitamente gentil e cortês que usa o pretérito imperfeito onde eu usaria o futuro de pretérito), gostava de viver num mundo de pequenas gentilezas. Faço o que posso (e as que posso) pra isso. Acho bom fazer o que quero ver. Quantas pessoas podem dizer o mesmo de seus sonhos de mundo melhor?

Este blog, aliás a blogsfera, tem me apresentado tantos e tão corteses. Como a Dona Mila. Ai, que blog alegre e meio desbocado com uma dona tão, tão gentil. Pois ela me fez um mimo de passar um meme: 5 coisas sobre mim. Lista, oba. Sobre mim, mais oba ainda. Pelo que entendi tenho que citar 5 características, quase rótulos, meus. Cinco coisas que me definem. Moleza? São sóooo cinco. Poxa. Começando:

1. Eu rio. Não, não como as outras pessoas, por motivos socialmente compartilhados como engraçados. Eu não, de repente eu lembro um trecho de uma crônica do Verissimo e desando a rir e repetir, por exemplo: ninguém sai, ninguém sai. Ou: olha pra frente, Alencar. Ou: ataquei meu rock suave. Enfim, vocês entenderam. E emendo gargalhadas uma nas outras. Por qualquer coisa já estou rolando no chão, batendo na mesa, virando copos, ficando sem ar e com dores no diafragma.

2. Flamenguista. Aliás, uma coisa que se desdobra em duas. Primeiro: gosto e entendo de futebol. Mesmo e muito. Assisto jogos, não saio de casa no domingo a tarde se puder evitar e detesto dar aulas quarta à noite porque eu perco o comecinho do jogo das 21:45hs. Sinto saudade do Silvio Luiz e seu jargões. Assisto mesas-redondas sobre jogos da série B. Uma seguida da outra. Mas isso não é o principal. O importante é que sou Flamengo. Eu não torço pelo Flamengo. Eu o sou e ele me é. Sinto um amor que não tem palavras. Sou capaz (e fiz) de me endividar e correr pra passar dois dias no Rio e ver um jogo do Mengo no Maracanã. Porque não há jeito de não senti-lo em meu coração, corpo e sonhos.

3. Eu leio. Gosto de ler. Exceto manuais, como bem lembrou minha irmã ontem mesmo, tudo o mais entra na mira. De lista telefônica a romances russos (que têm em comum o número de personagens...não é uma piada minha, claro, pesquei-a do Verissimo). De Clarice a Biancas. De Alencar a Machado. Não passa nada. Ando com livros dentro do carro porque quando paro nos sinais eu aproveito e leio alguma palavrinha. Levo livros pro cinema. Pra praia. Pra filas de banco. Pra todo lado. Mesmo.

4. Sou desajeitada. Ou tenho uma referência espacial bem diferente da média. As coisas voam das minhas mãos. Eu ando esbarrando. E me ver dançando é uma experiência inesquecível (tenho vários depoimentos pra provar isso).

5. Sou doidinha pelo Chico Buarque. E pelo Vinícius de Moraes. E pelo Cartola. E pelo Pixinginha. E pelo Tom Jobim. E pelo João Bosco. E pelo Luiz Gonzaga. E pelo Ismael Silva. E pelo Dick Farney. E pelo, pelo e pelo. Sei não, mas acho a música brasileira o must. Sério, seríssimo, meu caso.

E o bom de meme é passar pra frente. Desta vez, convocadas:Insana do Gritos e Sussurros; Hertenha Glauce, do Travessia; Danielle do Olhos do Coração; Nanica, do Amancebada e Feliz; e S. do Mudando os Sentimentos. Não, não tem selinho, mas é tão divertido!



Por fim, só pra dizer que te espero ainda. Você já vem? Já vem em mãos e olhos e anseios? Já me traz sonhos e saliva? Já está chegando com dores, cantigas e desejo? Já está vindo sem saber que impulso tem, ele dela ignorado e ela pra ele ninguém? Já sabe que uma rosa poderia não se chamar rosa e teria o mesmo perfume mas talvez não o mesmo charme? Ou já me espera, rosa na mão, pergunta na frente, prazer a seguir? Já me recebe em mares e sol e abraço? Já me planeja em peitos e lábios e frases? Já?

Aos Leitores
Está no ar a segunda fase do 4o Concurso de Blogueiras do Blog da Lola. Vale a pena conferir os textos, tão verdadeiros e de alma tão desnuda. E, claro, estou em campanha. Votem, votem, votem. Em qual? Ora, Menina pode sim.

Duas Coisas Que Detesto...

Deu tilt aqui, não entendi porquê. Aí refiz tudo bem aqui.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Promessa é Dívida

Minha querida Joana escreveu um lindo post intitulado Em Tempo de Regresso às Aulas. E, vejam só, havia uma formosa lista com os 5 Melhores e os 5 Piores livros lidos na escola. Com minha boca enorme, apta à investigação da Chapeuzinho Vermelho (pra que essa boca tão grande? é pra espalhar comentários em blogs amigos e se enrolar toda), já fui tratando de comentar apreciativamente o post e dava o trabalho por findo. Quem dera. Joana já chamou-me à ordem. E, meus caros, amigos meus não pedem nem solicitam, ordenam.

Assim, fiquei aqui embananada com a solicitação. Logo eu, que adoro listas conforme citado aqui, aqui, aqui, aqui , aqui e em tantos outros lugares (e olhe que ainda tem os ódios de estimação e as cores da borboleta).

Mas nunca me faltou coragem e mergulhei nas reminiscências. Eu sempre gostei de ler. Ou, desde que me lembro de mim, eu sempre gostei de ler. Leio porque é divertido. Recordo, com doce saudade, as aulas de Literatura. Não sei se algo aprendi, mas sempre foi um prazer falar ou ouvir falar de livros. Gostava (e gosto) de passear a palma da mão nas páginas, sentir sua textura era (é) outra forma de tê-los em mim. Gosto do cheiro dos livros e, não raro, eu durmia (durmo) com eles. Gostava de me perder na biblioteca me descobrindo no que ainda não havia lido. Não me lembro de analisar livros, embora o fizéssemos. Lembro de desfrutá-los. E saber as escolas, período histórico e cacoetes de cada um, nada mais era do que uma intimidade a mais. Bem menina, foi O Burrinho Que Queria Ser Gente, Reinações de Narizinho e O Homem Que Calculava. Lembro que não gostei de ler Triste Fim de Policarpo Quaresma. Lembro que senti isso lendo letra por letra, sem perder nenhuma. Não gostei tanto de O Guarani, mas amei Senhora, Diva, Lucíola e todas as outras mulheres de José de Alencar, incluindo a rápida Iracema e seus invejáveis lábios. Lembro do meu deslumbramento ao descobrir Machado de Assis. Era uma fome. Voracidade é a única palavra que justifica as visitas diárias à biblioteca. Eu queria tudo e logo e foi assim pelo tanto de tempo de descobrir, após os romances, as poesias, as crônicas e críticas. Capitu é a personagem das personagens, mas Memórias Póstumas de Brás Cubas é o livro entre os livros. A estrutura, a ironia, os personagens, as reflexões. O que mais? Um livrinho chamado Para Gostar de Ler. Vários volumes. Foi lá que encontrei o fantástico no Teleco, o coelhinho e o dolorido em Nós, o pistoleiro, não devíamos ter piedade. O mundo rápido das crônicas. O mundo denso dos contos. Na mesma época: Setecontos, Setencantos. Foi aqui que eu esbarrei na Harriet do Caio Fernando Abreu e meus sonhos nunca mais puderam ser brancos. Uma porção de poesia, também, invadia olhos e sentir: Drummond e seu preciso cotidiano, Vinícius e a minha sensualidade premente, Manuel Bandeira. Ah, a alegria de ter em mãos aquela coletânea: Estrela da Vida Inteira. Eu quase nem lia só no prazer de tê-la. Era uma mulher com seu amante como diz Clarice. As Meninas e Ciranda de Pedra, da Lygia Fagundes Telles. Sim e Antes do Baile Verde. Oh, romance e conto, tantas veredas. E houve Clarice, claro. Primeiro A Legião Estrangeira e eu me soube. Depois, mais rápida que os professores: Água Viva, Perto do Coração Selvagem, Uma Aprendizagem, Laços de Família, A Bela e a Fera, A Via Crucis do Corpo. Oh, Felicidade Clandestina. Recordo o temor e a reverência com que li A Paixão Segundo G.H. Eu tinha muito medo de não gostar. Mas gostei. Tanto. Na escola, ainda, Adélia, Nélida e Cecília. Na escola, ainda, o suspeito Nelson e seu Vestido de Noiva.

É assim, bem assim, que lembro dos livros que tive que ler na escola. Como se eu os tivesse escolhido ou, mais ainda, como se eles me tivessem escolhido. Obrigada, Joana. Só não pude cumprir o desafio, mas o desafio me atravessou em letras.
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