terça-feira, 31 de agosto de 2010

Proibido Para Menores

Crianças, não leiam. Não vejam. Não ouçam. Ainda.

Foi um safanão. Na alma. Como estava aí e eu nem sabia? O animal que ronda rugiu no ventre. É isso, eu soube. Letra por letra. Cada arranjo. Cada história. Desejo. Necessidade. Vontade. Beleza. Certeza. Deleite. Surpresa. O que quer uma mulher?


Aí ao lado, ocupando a Rádio Bethania, mais um pouquinho disso que me provoca. 3 na massa. Eu escuto. Eu gosto. Eu anseio. Muito mais, aqui: http://www.myspace.com/3namassa



segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Dias Assombrados

São dias assombrados esses. Dias em que homens estão presos em uma mina. E eu com eles. Sobre isso eu não tenho palavras. Não sei quem as possa ter. Mais cem dias. Sem nada, a não ser a espera. E eu sigo, todos seguem. Como, durmo, abraço, desejo, escrevo. Como é possível continuar vivendo quando trinta e três homens estão presos na mina? Como não fazê-lo?

O egoísmo. O essencial egoísmo de eu estar viva. São dias assombrados. Dias de espera. Que alguma coisa aconteça. Que uma sonda me liberte da mina em que insisto."A identidade fatal do apaixonado nada mais é do que: eu sou aquele que espera" (Barthes). E eu sei da impossibilidade. Sei do impossível e da angústia da falta. Mas espero.

E o que me resta, se não resta nada? Resta a vontade de. De que você seja real. Carne, sangue e desejo. Que tenha pressa. Porque o mundo está acabando. Qual mundo? O meu. Esse mundo meu que te convida. Que te planeja. Tenho data de validade. Não sei qual. Cem dias, talvez.


Outro Assombro:
Campanha incentiva violência contra a Candidata Dilma. Isso passou do limite. É uma indecência. Uma violência contra todas as mulheres. Não, contra todas as pessoas. Veja aqui. E aqui. E na Lola.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Band-Aids da Alma: Sexo, Mar, Livros

Quando você está triste assim, quando se sabe estrangeira e só, quando se sente em falta, oco no dentro do dentro, o que faz? Eu, se posso, faço sexo. Melhor não há. O sexo é a completa ruptura com a idéia de completude, é o corpo se esquecendo da letra, é a gente se esquecendo de ser. Não há tempo pra pensar nem saber. Quando estou assim, machucada de sentir, o sentir em excessos que o sexo proporciona me alivia e arrebata. Mas só dá pra fazer sexo se der, né? E não é o caso.

Opções? Mar. Praia, mais exatamente. O gosto de sal. O vento lambendo a pele. O ir e vir lá e em mim. Tudo no mar me diz e me permite. Um azul que é como se fosse vermelho de tanto que me arde. Mas não há praia aqui, ao alcance da dor. Então?

Fiz a única coisa possível: compras. O bom seria imergir em um sebo, deixar a poeira preencher os meus vazios e as letras ocuparem o corpo. Bom seria livros de tempo outros convidando pra um rodopio. Mas eu não tinha dinheiro e já era quase noite. O único sebo que conheço aqui fecha às 18hs e só aceita pagamento em cash. Meti-me na Siciliano, claro. E sacolas e dívidas me acompanharam quando saí do labirinto. Perdi-me nos meus desejos. Cheiro de livro novo embriaga como cachaça, perco a noção do tempo, do peso, do meu salário. Tudo em cinco sem juros. A lista:

- O Último Olimpiano. Série mediana, mas com um mérito indiscutível: meu filho encantou-se por mitologia grega. E, da mitologia à filosofia é um passo. Próxima leitura dele: O Mundo de Sofia. Pareceu-me um bom caminho.

- A Arte da Ficção, David Lodge. Este foi por causa dos nomes dos capítulos. Confesso, sou esquisita na compra de livros. Sou atraída pelos motivos mais bizarros. Uma ilustração, o número de páginas, um título inquietante...e, hoje, pelos tais capítulos: o começo, o autor intrometido, estranhamento, manipulação temporal, mostrar e dizer, polifonia...O autor vai exemplificando e comentando aspectos da arte da ficção. Não me perguntem se me interessei mais pelos comentários ou pelos trechos de Austen, Paul Auster, Melville, Calvino, etc.

- Antologia Poética de Anna Akhmátova. Quem é ela? Eu não sabia. Não sei. Mas na capa há uma foto de perfil que não seria nunca um espelho e, ao folhear, li:
"assim, estrangeira ao céu e à terra
eu vivo e já não canto mais.
É como se afastasses minha alma peregrina
tanto do inferno como do céu."

- Meus Contos Preferidos (Antologia Poética de Lygia Fagundes Telles): uma seleção feita pela própria autora. Não resisti. Tem: Que se chama solidão. Eu bem sei o quanto me faz pergunta alguns textos da Lygia. E gosto.

- Educating Caroline (Patrícia Cabot, que vem a ser a tal Meg Cabot): pois é, fiz isso. Comprei. É como se fosse um grande, imenso, enorme livro Sabrina (Júlia, Bianca, Bárbara Cartland). Sei que é ler e esquecer. Mas se for ler e me esquecer, só um pouquinho? Vale a aposta. Sem falar que estou sensível, como eu disse, tive minha cota de personagem de Bianca no fim de semana em Canoa. Rita, se ler isso, perdoe-me. Não consegui terminar A Sombra do Vento, mas me deixo levar por uma Cabot, vergonha, ah, vergonha...

- Time dos Sonhos: paixão, poesia e futebol (L.F.Veríssimo): esse não é meu. É do Manuel. Nossos times não são os mesmos. Mas, suspeito, a alegria, a paixão e o arrebatamento que sentimos são irmãos. Uma dúvida não tenho, Manuel escreve como eu queria. Queria escrever, ser ou viver. O livro é dele, é um presente, e segunda-feira segue pra seu distante Portugal. Mas, admito, lerei hoje a noite. Só pra garantir.

- Comprei três destes. São finos. Fazem-me rir e pensar. Ficam naquelas araras a lado do caixa. São tentadores. Mais baratos. Estes tem figuras. Desenhos, pra ser mais precisa. Tirinhas. São meus. Ou não. Talvez se façam presente. Há muita coisa que não sei.

Quando já ia pagar, sei lá o que me deu e olhei aquela prateleira. Deve ser porque ele é enorme. O livro. 690 páginas. Uma vez eu determinei, numa brincadeira muito, muito séria, que não poderia apaixonar-me por quem não sabe quem é Tennessee Williams. E ele estava ali (o livro, não o Tenesse nem mesmo um candidato à paixão) me convidando a levá-lo. 49 contos de Tennesse Williams e agora eles são todinhos meus e farão companhia ao tal bonde chamado desejo. Foi a compra que mais me deixou feliz e ficará pro fim destas confusas leituras.

Será uma noite feliz, mesmo que eu não esteja. Monteiro Lobato disse: Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Estou esperando, Lobato, estou esperando...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Sangrando

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, já cantou meu querido Chico. Tem. Hoje. Sabe quando você passa o dia inteiro com a garganta arranhando, olhos queimando, um choro prontinho sem razão e sem porquê? Sabe aquela angústia de querer, querer, querer sem ter um nome pra isso que se quer tanto? Sabe aquele nada no peito onde o coração devia estar batendo o nome dos sonhos e esperanças? E não importam os alegres cotidianos, não importa o carinho recebido, não importa o prazer de um trabalho bem feito, não importa, não importa. É só doer.

Eu estranho. Me estranho. Porque sou da turma do sorriso largo e do abraço estreito. Quando foi a última vez que me senti assim, sem chão, sem rumo, sem nada por dentro senão a vontade de não ser? Maio. Nem lembro mais porquê. Talvez, como hoje, seja apenas a ansiedade de viver.

Ou mais. Eu sempre digo que amiga minha não tem defeito. Desculpa aê, é que eu escolho bem pra caramba. Mas amiga minha tem sofreres. Perdas. Cortes. E eu não sei lidar com isso. Explico: eu sei lidar assim, dar colo, querer bem, dizer venha morar comigo e comer miojo, sei estar perto sem perguntar, sei respostas tantas, sei segurar a mão ou me embriagar junto. Sei ligar na hora errada e ser a certa. Sei tomar café só pra estar perto. Sei adivinhar ou não ver. Sei ser porto ou estrada. Isso eu sei. Sei lidar com o sofrimento do outro no outro, ajudar a esmaecer a lembrança ou facilitar o gozo da dor. O que tiver de ser. Mas eu não sei lidar com o sofrimento do outro em mim. Porque? Eu me pergunto. Porque não faz assim, assado e cozido? O que quero dizer e não sei mas continuo e permaneço é que quando uma amiga sofre me dói de uma dor que é quase mais minha do que as minhas mesmo. Porque as minhas mesmo eu tenho que responder. E, certa ou errada, a resposta vem, rápida. E eu sigo com o que for. Mas a dor alheia não me permite ação. Fica aqui, latejando.

Estava conversando sobre Canoa e venda de pulseirinhas e aí ele disse: sabia que é a terceira idéia de fuga só este mês. Eu neguei. E outra vez. E racionalizei. E romanceei. E admito: é isso aí. Cordilheiras, casamento arranjado no Rio, Canoa. Fuga pra dentro de mim. Tenho um tantinho de medo de quem me lê assim. Quem lê com todos os olhos, com mãos e com manha. Porque chega muito rápido. Invade. Ocupa. Me ganha.

E entre a urgência de lidar a) com este exército que invadiu o meu país, b) com as dores e amores que não são meus e c) com este nada que obseda e machuca - só me restou admitir: sinto falta dos Trapalhões.



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

De Amizades, Carpideiras e Veredas...

Por causa de Orcama, que não me sabe aqui.
Por causa do Zé, que se engraça de um sertão que ainda nem viu.
Por causa do novo amigo novo e dos sonhos feitos de poesia.

"Eu quase que nada não sei.
Mas desconfio de muita coisa."

Eu tenho um amigo novo. Ele é tão, tão discreto, que talvez até se ressinta de eu escrever assim desavergonhadamente: tenho um novo amigo. É um amigo de poucas palavras, mas todas muito, muito, pesadas, pensadas, trabalhadas. Ele é tão reticente que nossa amizade é uma plantinha miúda, ainda frágil, tímida de existir. Não é aquela amizade que chega arrebentando cadeados e derrubando muros, exigindo amor absoluto e imediato (não é, Rafa? S.? Paulo?). Não, é bem querer quietinho, de quem faz doce de leite em banho maria e oferece pirulitos em lugar de abraços. Mas arborista que sou, já detectei: esta arvorezinha é um pé de baobá. Da minha parte, gosto de escrever-lhe meus emails extensos e sem pé nem cabeça. Vou desfiando a vida sem cronologia nem pauta, pelo que passa no pensar na hora exata em que os dedos encontram o teclado. Gosto ainda mais, de receber as palavras meias querendo se fazer inteiras, o discreto afeto. De assim em assim, declaro: amigo.

Mas, se é de recato a amizade que tecemos, porque trazê-lo aqui? Porque é culpa dele que sonhei e amanheci pensando nas carpideiras. Como um mosaico, presentes: morte e vida severina, aí a redinha carregando o morto, aí a dor e choro, daí a carpideira, da carpideira de rosto molhado pra terra ressequida, dela pra a idéia sertão e então grande sertão: veredas e, num salto, das veredas do sertão praquelas que ora trilho e, tudo misturado, meus próprios caminhos e o sertão e as mortes, lembro logo do cemitério amigo...estão acompanhando a viagem?

Sertão é isto: o senhor empurra para trás,
mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados.
Sertão é quando menos se espera.

O certo é que morte e vida severina me impressionou desde sempre, não só pela história doída que trata e traz, mas pela forma precisa como as palavras se colocam. Não há nada a mais, não há um sentido a menos, há o que é: a narrativa de desassossego diante do pouco da vida.

Mas, eu contava, sonhei com as carpideiras. Ou ainda, sonhei foi com o conversê do Severino com a carpideira, onde ela o interroga sobre seu trabalho e lhe diz que, ali onde ela está, os serviços que rendem bem são apenas os ligados à morte e não os que se esforçam em promover viver. É claro, claríssimo, que não sonhei com a poesia tal qual ela existe, mas com minha memória dela. E acordei inquieta com meu sertão me fazendo falta. Amar o sertão é saber da promessa de beleza onde ela ainda não está. Os vastos espaços, meus e de minha terra, esverdejam só de adivinharem água. Precipitação? É, mas de pouco em pouco nos fazemos antes de ser e isso é uma coragem.

O sertão é disputa e penúria e sofrer e solidão e vinganças. Mas o sertão é lua alta e sentir e querer bem e esperança e confiança e aceitação e som. Meu sertão é de ruídos: o alvoroço das galinhas no terreiro, os sinos no pescoço do gado, as conversas animadas ao pé do fogão à lenha, o som dos dados na varanda, o aboio distante, o roçar da colher no prato de alumínio, a gaitada infantil sem pejo de ser miúdo, as novenas, o "ô de casa", as estórias de assombração.

Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei.
Um grande Sertão.
Não sei. Ninguém ainda não sabe.
Só umas raríssimas pessoas -
e só essas poucas veredas, veredazinhas.

E o sertão é, pra mim, palavra. Palavra de Guimarães, palavra de João, palavra de Louro (que não é conhecido de vocês mas é tio avô mais arteiro, inventivo e tinhoso que alguém pode ter). O sertão pra mim é livro na cabeceira de minha cama e histórias reinventadas noite adentro no sonhar com mortos. Sertão é saudade. De lá. De mim. Do que não sou. Da lua cheia e branca. E da certeza do tempo. No sertão não se teme o tempo, nem se teme a vida, porque não se teme a morte. E se sabe de saudade, assim:


O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade?
Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração...
(...) Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.

E é assim que sinto: velha sertaneja; poucos dentes, muito riso; muita morte, pouco siso. E, se desse post, ao ler, algo não se entende, não carece de preocupação, nas veredas do sertão se sabe:

A gente só sabe bem aquilo que não entende.


UP, UP, HURRA

Primeiro: vale apena ler este texto da Rita. Eu li e repeti aqui e aqui.

Segundo: aniversário do Sean Connery. Gosto demais. Charme, charme, charme. Esse homem é um vinho?




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