Quando você está triste assim, quando se sabe estrangeira e só, quando se sente em falta, oco no dentro do dentro, o que faz? Eu, se posso, faço sexo. Melhor não há. O sexo é a completa ruptura com a idéia de completude, é o corpo se esquecendo da letra, é a gente se esquecendo de ser. Não há tempo pra pensar nem saber. Quando estou assim, machucada de sentir, o sentir em excessos que o sexo proporciona me alivia e arrebata. Mas só dá pra fazer sexo se der, né? E não é o caso.
Opções? Mar. Praia, mais exatamente. O gosto de sal. O vento lambendo a pele. O ir e vir lá e em mim. Tudo no mar me diz e me permite. Um azul que é como se fosse vermelho de tanto que me arde. Mas não há praia aqui, ao alcance da dor. Então?
Fiz a única coisa possível: compras. O bom seria imergir em um sebo, deixar a poeira preencher os meus vazios e as letras ocuparem o corpo. Bom seria livros de tempo outros convidando pra um rodopio. Mas eu não tinha dinheiro e já era quase noite. O único sebo que conheço aqui fecha às 18hs e só aceita pagamento em cash. Meti-me na Siciliano, claro. E sacolas e dívidas me acompanharam quando saí do labirinto. Perdi-me nos meus desejos. Cheiro de livro novo embriaga como cachaça, perco a noção do tempo, do peso, do meu salário. Tudo em cinco sem juros. A lista:
- O Último Olimpiano. Série mediana, mas com um mérito indiscutível: meu filho encantou-se por mitologia grega. E, da mitologia à filosofia é um passo. Próxima leitura dele: O Mundo de Sofia. Pareceu-me um bom caminho.
- A Arte da Ficção, David Lodge. Este foi por causa dos nomes dos capítulos. Confesso, sou esquisita na compra de livros. Sou atraída pelos motivos mais bizarros. Uma ilustração, o número de páginas, um título inquietante...e, hoje, pelos tais capítulos: o começo, o autor intrometido, estranhamento, manipulação temporal, mostrar e dizer, polifonia...O autor vai exemplificando e comentando aspectos da arte da ficção. Não me perguntem se me interessei mais pelos comentários ou pelos trechos de Austen, Paul Auster, Melville, Calvino, etc.
- Antologia Poética de Anna Akhmátova. Quem é ela? Eu não sabia. Não sei. Mas na capa há uma foto de perfil que não seria nunca um espelho e, ao folhear, li:
"assim, estrangeira ao céu e à terra
eu vivo e já não canto mais.
É como se afastasses minha alma peregrina
tanto do inferno como do céu."
- Meus Contos Preferidos (Antologia Poética de Lygia Fagundes Telles): uma seleção feita pela própria autora. Não resisti. Tem: Que se chama solidão. Eu bem sei o quanto me faz pergunta alguns textos da Lygia. E gosto.
- Educating Caroline (Patrícia Cabot, que vem a ser a tal Meg Cabot): pois é, fiz isso. Comprei. É como se fosse um grande, imenso, enorme livro Sabrina (Júlia, Bianca, Bárbara Cartland). Sei que é ler e esquecer. Mas se for ler e me esquecer, só um pouquinho? Vale a aposta. Sem falar que estou sensível, como eu disse, tive minha cota de personagem de Bianca no fim de semana em Canoa. Rita, se ler isso, perdoe-me. Não consegui terminar A Sombra do Vento, mas me deixo levar por uma Cabot, vergonha, ah, vergonha...
- Time dos Sonhos: paixão, poesia e futebol (L.F.Veríssimo): esse não é meu. É do Manuel. Nossos times não são os mesmos. Mas, suspeito, a alegria, a paixão e o arrebatamento que sentimos são irmãos. Uma dúvida não tenho, Manuel escreve como eu queria. Queria escrever, ser ou viver. O livro é dele, é um presente, e segunda-feira segue pra seu distante Portugal. Mas, admito, lerei hoje a noite. Só pra garantir.
- Comprei três destes. São finos. Fazem-me rir e pensar. Ficam naquelas araras a lado do caixa. São tentadores. Mais baratos. Estes tem figuras. Desenhos, pra ser mais precisa. Tirinhas. São meus. Ou não. Talvez se façam presente. Há muita coisa que não sei.
Quando já ia pagar, sei lá o que me deu e olhei aquela prateleira. Deve ser porque ele é enorme. O livro. 690 páginas. Uma vez eu determinei, numa brincadeira muito, muito séria, que não poderia apaixonar-me por quem não sabe quem é Tennessee Williams. E ele estava ali (o livro, não o Tenesse nem mesmo um candidato à paixão) me convidando a levá-lo. 49 contos de Tennesse Williams e agora eles são todinhos meus e farão companhia ao tal bonde chamado desejo. Foi a compra que mais me deixou feliz e ficará pro fim destas confusas leituras.
Será uma noite feliz, mesmo que eu não esteja. Monteiro Lobato disse: Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Estou esperando, Lobato, estou esperando...