sábado, 10 de julho de 2010

Sim, Maria Gadu...

Ouvindo:

Sei lá, a tua ausência me causou o caos
No breu de hoje eu sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal

E então, tu tome tento com meu coração
Não deixe ele vir na solidão
Encabulado por voltar a sós

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Quem conta um conto...

como dizia Caetano: você precisa saber de mim,

para que tomar o caminho mais fácil,
quando os arredores são tão interessantes?

Sabe o que gosto? De história dentro de outra história. Resolvi escrever uma história sobre uma mulher. Porque? Porque hoje amanheci pensando nela. Nessa mulher. Então, era uma vez. Era uma vez uma mulher. Uma mulher comum. Uma mulher alegre. Uma mulher de filmes, panelas, amigos. Ela escrevia um blog. Resolveu escrever, certa madrugada, um post sobre uma mulher. Escreveu assim: era uma vez uma mulher comum, uma mulher alegre, uma mulher de livros, panelas e amigos. Que escrevia blogs. Que lia blogs. E que, de repente, deu pra esperar. Essa mulher nada sabia do inquietar-se à janela. Nada sabia do espreitar palavras como se anseia por um olhar. Não sabia que se podia ficar esperando sem saber o quê. Era uma desavisada a moça dos blogs. Aí, um dia. Uma pequena janela de dizeres. Uma frase no meio de outras frases. Uma palavra no meio de outras palavras. Desassossego. Pronto. Ponto. E ela soube. Soube das janelas, das esperas, das palavras que tiram o sono. E, de tanta ansiedade e de tanto saber, fez a única coisa que podia: escreveu. Disse coisas como: quero tergiversar. Ou, talvez, disse: eu espero. A mulher que escreve sobre a mulher que escreve, pára. Essa mulher pensa: que enxerida! E se constrange de sua personagem ser assim tão atirada. Mas logo a perdoa: ela também é uma louca. Porque escrever assim é um desnudamento da alma e desnudar-se não é seguro. Mas o abismo atrai as três: a mulher que espera e escreve blogs, a mulher que escreve a mulher que espera e escreve blogs e eu, que tanta ternura tenho e acordei pensando nelas. A mulher que escreve continua: a mulher que espera se angustia: eu disse algo errado? entendi algo errado? e de tanto saber passa a desconhecer-se. E dói. E ela, a mulher que escreve, já não sabe escrever outra coisa. Ela se repete. A mulher que escreve o post sobre a mulher que espera e escreve, pára, outra vez. Ela também se repete, ela sabe. Revira os olhos, ela é assim, tem manias, pequenas e amáveis manias de mulher gentil. E fica pensando nas dúvidas que ela mesmo criou para a mulher que espera: terá ela se enganado? quando ele disse o que disse era uma jocosa brincadeira que ela, ávida, tomou por verdade? o dvd prometido é um gentil gesto de amigo ou uma pergunta de outra ordem? Perguntas que nenhuma das duas pode responder. A mulher que espera porque só poderá saber o que a mulher que escreve lhe permitir. A mulher que escreve, porque não tem certezas, só interrogações. Ela quase esquece a outra mulher, a mulher que ela escreve e se lembra do Homem e se pergunta: deverei enviar uma poesia? serei entendida? Ela já sabe que palavras escolheria para os olhos dele. Ela diria como Adélia. Isso mesmo, seu pensamento em um susto volta pra mulher que espera, espera até a escrita da mulher que escreve. A mulher que escreve, escreve assim: a mulher que espera levanta-se, escolhe um livro, é Adélia, e escolhendo palavras, já não espera e volta a não saber, ela quer apenas e seu querer é um grito. Ela grita assim:

"Começou dizendo: ' o amor'
Mas não pôde concluir
Pois alguém lhe chamava.
'O amor...' como se me tocasse
falava só para mim,
ainda que outras pessoas estivessem à mesa.
'O amor...' e arrastou sua cadeira
Pra mais perto
Não levantava os olhos, temerosa
Da explicitude do meu coração.
A sala aquecia-se
Do meu respirar de crepitação e luzes
'O amor...'
Ficou só essa palavra do inconcluído discurso,
Alimento da fome que desejo perpétua
Jonathan é minha comida"



Um Aviso

Um aviso: eu exagero. Mas não mordo. A não ser que peçam, claro.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Madrugada

Não se pode esperar muito deste post. É tarde. Estou cansada. Quero escrever bobagens, não dizer coisa com coisa, tergiversar. Quero escrever poesia alheia: poderia escrever os versos mais tristes esta noite*. Quero fazer confissões, dizer: estou ouvindo Dolores Duran cantar A Noite do Meu Bem e a seguir Bethania cantará Cavalgada e eu ficarei corada. Quero me proteger das coisas que escreveria se não escrevesse este post. Eu quero escrever em negativas: não quero, não espero, não posso. Quero escrever a lápis, a ferro e fogo. Quero dizer: o Cazuza morreu**, faz tempo, mas ainda faz falta. Drummond, eu ainda confundo falta e ausência***. Ainda tenho vontade de perguntar: porque você não veio, mesmo sabendo que a resposta não me dará o que eu queria: a arte do encontro****. Quero recitar de trás pra frente. Quero me saber em você. Nos seus olhos. Quero que o tempo seja esse. E quero receber o que vais mandar.

*Pablo Neruda

**07 de julho de 1990

***Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

****Vinícius de Moraes

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Âmbar

O amor não deixa sobreviventes..
(NR).

Penso que cada um escreve o que pode, como pode. O estilo é senhor do escritor. Eu sou assim. Quando queima a alma não há jeito de sair diferente: sou labaredas de inquietação. Quando eu era menina, escrevi que o que o humano tem de mais belo é a capacidade de ser tanto. Tanto, em quantidade e diversidade. O homem, categoria abstrata, só é quando é cada um de nós, material, real, vivo. Ser humano é difícil. É sofrido. É processo. Mas é lindo. Tão lindo que às vezes dá vontade de chorar e eu me surpreendo chamando felicidade. Ser humana tem sido assim para mim: uma festa onde às vezes falta vinho, falta convidado, falta música, falta o chão. Quando isso acontece se fica tão leve...mas, lembrando Kundera,a leveza é insuportável quando duradoura. Eu quero o chão, o peso da vida, o peso de alguém que me pressione contra a terra e me tire o fôlego. Eu já era histérica como bem se vê.

A histérica arde. E pergunta. E duvida. Shakspeare bem as sabia: “ai! Que de dia o corpo e de noite a alma, por tua e minha culpa, não tem calma”. Eu achava que. Pensava. Supunha. Queria, até. Confusa? Sim, estou. Já não entendo e queria só voltar pra antes do tempo da inquietação. Queria não vigiar janelas. Queria não ter que perguntar. Nem pra mim. Queria abolir o ponto de interrogação. Porque eu não esperava e agora espero. E me repito, porque escrevi isso ontem ou antes de ontem, eu que estou descobrindo como se conta as horas. Eu achei que, pensei, supus, quis. A incompletude. O desejo. Mas acontece que eu posso estar errada. Isso é estranho, não saber. Já não sei onde colocar mãos, pés, palavras. Sou demais ou desapareço? O certo é que esta noite escutarei apenas e muitas vezes a inquietude feito voz...

Tá tudo aceso,
Tá tudo assim tão claro,
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
Como se eu fosse um morro iluminado
Um âmbar elétrico (...)
Tudo plugado
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim, eu vim
Morar nos seus olhos...



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