quarta-feira, 30 de junho de 2010

Sem Jogo do Contente

Sim, eu li Pollyanna. Sim, eu gostei. Eu não sabia, então, que devia ser triste e ter olheiras e beber e fumar e lamentar coisas como angústia, oh, angústia. Eu nada sabia a não ser que me dava um gosto bom na boca apertar o sumo da manga até escorrer entre os dedos. Eu só sabia que aquecia o corpo rodopiar no mesmo lugar de olhos fechados. E se fosse a dois, braços bem esticados, tronco inclinado pra trás, melhor. Eu não sabia das dores do mundo, só de ralar o joelho ou mastigar o cano da unha. E sabia da alegria, enorme, quase dolorosa, de acordar e sentir tudo ali, em mim. Abençoada miopia que, por tanto tempo, dirimiu o êxtase de tanto ver o mundo. Já bastava sentir a pele se sabendo a cada dia.

Sim, eu li Pollyanaa. E lá descobri o nome do que era em mim: o jogo do contente. Não aprendi a jogar com ela, eu só não sabia o nome do que era minha vida. Depois, fui aprendendo que não, claro que não, adultos não jogam isso, que bobagem, vida é difícil e há sofrimento demais e não é nada simples como dizer: é um quarto tão pequeno, mas tem a vista tão linda. Mas não há muito jeito, a contenteza insiste em ser contente em mim e continua achando a vista linda, mesmo. Alguns reclamam do sempre sorriso. E eu tento evitar e crio dramas para poder estar no meio de todo o povo, temendo, por vezes, que descubram e apontem: olhe, lá vai uma feliz.

Mas quando não é estória inventada, é dor que dói no peito feito uma pergunta, sou pega de surpresa. Porque não aprendi a sofrer. Não sei deixar a dor vir se instalando, escolhendo canto, hora e jeito. Não, eu abro porta de supetão, afasto móveis, convido e abanco. Mas as dores de uma Pollyanna não merecem reflexão. São bobas, desacostumadas que são de serem dores de verdade. São dores de se fazer piada e o sangue que se verte parece Quick ou molho de tomate.

Hoje acordei míope. Porque, descobri, ainda tenho 18 anos e toda a velhice que havia e mim já não é mais e eu sinto tanta falta de ser velha. Eu quero meus anos todos e quero mais, por favor, senhor relógio, dá-me logo o conforto de ficar de mãos dadas na varanda sem perguntas a não ser se é hora de passar o café.

Sim, eu li Pollyanna, mas hoje não me serve. Sugestões?


***************

O problema é esse:
Eu quero a sina de um artista de cinema, eu quero a cena onde eu possa brilhar, um brilho intenso, um desejo, eu quero um beijo, um beijo imenso, onde eu possa me afogar...
Eu quero a sorte de um chofer de caminhão, pra me danar por essa estrada, mundo afora, ir embora, sem sair do meu lugar
Eu quero um beijo de cinema americano, fechar os olhos fugir do perigo(...) eu quero amor, eu quero amar, eu quero o mar e o sertão...

domingo, 27 de junho de 2010

Lista de homens que gostaria que fossem meus irmãos e das mulheres que Deus nunca permita tal coisa - assim mesmo

Brincando com a idéia que Manuel apresentou aqui, com a qual já me diverti e que Joana e S. tão bem desenvolveram, veio-me esta outra lista. Mais curta, por certo isso diz alguma coisa de mim.

Pensei em começar dizendo que queria ter o Antônio por irmão. Não o Benedito, como já esclareci aqui. E não me faltariam razões para querer tê-lo fraternalmente perto. Começando com umas tais garrafas de vinho. Tantas e tão pessoais razões mas, por princípio e em um princípio possível, eu diria que é porque um irmão deve saber. O que? De tudo, eu digo. Um irmão deve ter histórias pra contar e contá-las, de tal forma, que não nos dê vontade de sair de perto, de olhos e ouvidos arregalados, mas também nos incite a querer vivê-las, todas, de fato e logo. Um irmão deve incomodar, aperrear, implicar com a gente. E deve nos dar aquela sensação de que estamos bem e protegidas. Um irmão deve desbravar caminhos e, ao mesmo tempo, vir na retaguarda. Assim, bem dito seria se eu tivesse dito o que ia dizer. Mas não precisei. Eu tenho o irmão que eu quero ter e que, não tenho nenhuma dúvida, muitas diriam deusnãopermita. Porque ele é lindo. Muito lindo. Meu irmão me faz rir. Ele cuida de mim, sem parecer que. E é tão bom abraçá-lo, parece que estou chegando em casa, sempre. Não uma casa qualquer mas aquela pela qual percorremos a estrada de tijolos dourados e batemos os sapatinhos vermelhos. Meu irmão sabe calar, quando preciso. E ele lembra de tudo, sempre. Meu irmão não estava antes e, quando chegou, fez tudo que devia fazer: me enterneceu, irritou, animou, comoveu, chateou, conversou, amou. Ele sabe contar as histórias. Ele incomoda. Ele me protege. E me acompanha nos caminhos. Um irmão que me ama, quem mais eu podia querer?

E tem as irmãs que nem de jeito nenhum, deus me proteja. Nada de dormir e acordar, partilhando roupas e chocolates com Anastasia e Drizzella. Eu até gosto do borralho, nada contra, mas o mau humor me enerva. Dava-lhes com o sapato de cristal na testa qualquer dia. Também de outra estirpe é a Lúcia, com seu véu, sua amargura e assassinatos frios. Não que eu desgoste de sangue e da vingança, mas é preciso uma certa literatura pra tanto. Nada de fraternos sentimentos com Lúcia, Nelson Rodrigues não me venha com gracinhas e invenções. Com ela não se pode trocar aquelas doces confidências de ah, hoje ele pegou na minha mão, tão queridas reminiscências. Assim, irmã não é, não pode ser.

Também não queria Helena por irmã. E gêmea? No chance. Como emprestar roupa, trocar acessórios e comparar imperfeições ante o espelho? Não me importo com os homens que lhe cabem (sempre preferiria Agamenon e Heitor a Menelau e Páris), mas me irrita que todo o mérito que lhe caiba seja um rosto.

Rostos que são apenas isso causam um mal que antecipo em Baby Jane, essa minha não-irmã entre todas as não-irmãs, versão psicótica, exagerada, mimada e feminina de Peter Pan. A comida pode ser uma oferenda fraterna ou uma agressão. Afasta-me, senhor, de Baby Jane. Não gostaria de ter irmandade, também, com Christine e Léa Papin e sua mudez vazia e mortal. Nem com Rosaura, com sua inabilidade pra cozinha, sua gula, seus gases, sua malévola e quase triste impossibilidade de lidar com a felicidade. Ela nuca, nunca faria um bom brigadeiro pra comermos juntas brincando de ver filmes antigos na tv. Ela não sabe o valor do chocolate.

Mas de todas as não irmãs, de todas as que não quero, porfavormeudeus, livrai-me de Martine (Les Soeurs Fâchées) e sua amargura, infelicidade, inveja e mesquinhez. Seu enfado interminável, sua arrogância, nada me parece mais distante daquela cumplicidade que sempre relaciono às irmãs que tenho e às que escolhi.

Não é uma lista fechada e tenho a impressão de que ainda voltarei a ela, depois de pesquisa e reflexões. Estas são as não-irmãs que a memória me ofereceu. Devem ser as que temo ser.

Ofício*

Escrever é uma morte. Em dado instante sou eu plena de palavras, frases, estórias que latejam, que passeiam, que balançam na ponta da língua, num emergir de infinitas possibilidades. Eu sou tudo que poderia pensar, tudo que poderia dizer, tudo que poderia escrever. Todas as estórias não contadas que me habitam me fazem viva. Escrever é uma imposição. Recuso e reluto até que as frases se reúnem num esforço assassino. Uma estória escrita sou eu morta. A primeira palavra registrada em papel e eu me quedo na renúncia de todas as outras que poderiam ter sido. A língua é um calvário. A estória se constrói na exata medida em que esvai vida do meu corpo. Um texto é a negação de toda a obra que não será porque o texto é. Um texto é a negação da vida. Da minha vida. A palavra escrita tem origem desconhecida, cristaliza a idéia que, falada, eu altero, dimensiono, aperfeiçôo. O escrito é irreversível. O que escrevo não sou eu, ou ainda, não sou eu que escrevo, é a escrita que se faz em mim. As palavras se exigem, organizam-se e, por fim, meu fim poderia dizer, o texto está pronto. Ele pronto me fita, num desafio que me emudece. Só ele diz. Diz tudo e não me restam outras palavras. Por um momento nada me resta. O que escrevo é um punhal, belo e perigoso mesmo em mãos inocentes. O que escrevo é um abismo. Eu o fito e a vertigem de mim se apodera. Um novo texto, suicídio.


* Texto escrito em 2008, ressurgido por esse post aqui do encantador blog Sábados de Caju, uma escolha e indicação de S. (S. de sensível? de sedutora? de simpática? S. de Sim).


sexta-feira, 25 de junho de 2010

Das Tragédias e a Impossibilidade de Dizer

Aqui há um ausente. Um discurso que não está. Quando a dor me assalta assim, eu calo. Não há palavras pra se dizer de perdas tão absolutas. E nem falo das mortes e dos ainda desaparecidos. Falo de perder aquilo que nem sabemos que conta. Todos os registros, todas as materiais lembranças, todas as coisinhas guardadas por tempos e tempos. Eu não sei como eu viveria se perdesse tanto. Perderia um tanto de mim, eu sei. Eu me perco nas imagens da enchente. E nas lágrimas que não podem ser evitadas. Não devem ser evitadas. As minhas também chegam. Águas que apagam uma cidade inteira, como é possível? Onde estava nosso contemporâneo e necessário Noé?
Até essas palavras me saem quase no tranco. Arrancadas. Machucadas. Nas enormes e extremas tragédias, eu vejo o pequeno. O um a um. A solitária coragem. A perda individual. Um gesto. Um olhar. Uma pessoa. Essas, cada uma dessas pessoas, me dói.

Há, claro, o futebol. Que continua. Não foi bom. Mas foi preciso. Há o trabalho. Há amigos e isso nunca deixa de ser acarinhador. Há uma mala a ser feita e lá uma pessoa que já amo como se sempre. Há, melhor e mais consolador, ouvir o que me dão. Lembrar-me de ser. Ser eu. Boca e pescoço.





quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sandra Rosa Madalena ou Borboleta Lado B

Fica melhor ler estalando os dedos
ou com uma castanhola

Sabe aquela pessoa que você não só gosta de ser, mas tem até um certo orgulho? Pois é, gosto da Borboleta que aprecia Woody Allen, que admira os autores russos e os cineastas italianos, que se emociona na Pinacoteca de São Paulo, que ruboriza, que usa palavras como obsedante, parcimônia e digressão rotineiramente, que escuta Cartola, Luis Gonzaga e nunca, nunca esquece a voz suave de Nana Caimmy, que aprecia adequadamente um bom vinho e não só conhece Capitu e Lori como já leu todos os romances do autores que as criaram. Essa é a Borboleta que gostaria que me agrada apresentar pra vocês gostarem.

Mas tem o Lado B. O lado negro da força. Sim, como diria minha amiga Aninha, eu tenho um lado Chacrete. O que não se contenta em sorrir, gargalha. O que aprecia lençóis de algodão egípcio 800 fios, mas prefere os de cetim. O que fala alto, se exalta e gesticula. A Borboleta que gosta - e muito - de salto vermelho e decote. A que anseia ter a coleção de filmes do Almodóvar. A que se emociona quase toda sexta-feira vendo o encerramento do Bom Dia Brasil. A que lê Tess Gerritsen, J.D. Robb e Arthur Hailey - e curte. Que assiste O Diário de Bridget Jones e A Nova Onda do Imperador decorando os diálogos. A Borboleta que bebe cerveja com torresmo de tira-gosto no Mercado. Que segura a costela de porco com a mão e depois lambe a pontinha dos dedos. Que adora andar de ônibus (se não estiver muito lotado, claro). Que anda por novas paragens com olhos deslumbrados e infantis, apontando todas as belezas que encontra - e são muitas. Pois é, tem essa Borboleta aí. Essa que hoje estava dirigindo seu carrinho e cantando a plenos pulmões a melhor canção de amor que alguém poderia cantar pra essa Borboleta-Chacrete:


Quero vê-la sorrir
Quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo dançar sem parar

Ela é bonita seus cabelos muito negros
E o seu corpo faz meu corpo delirar
O seu olhar desperta em mim uma vontade de enlouquecer,
de me perder, de me entregar
Quando ela dança todo mundo se agita
E o povo grita o seu nome sem parar
É a cigana Sandra Rosa Madalena
É a mulher com quem eu vivo a sonhar(...)

Dentro de mim mantenho acesa uma chama
Que se inflama se ela está perto de mim
Queria ser todas as coisas que ela gosta
Queria ser o seu princípio e ser seu fim
Quando ela dança todo mundo se agita
E o povo grita o seu nome sem parar
É a cigana Sandra Rosa Madalena
É a mulher com quem eu vivo a sonhar

Vocês ainda me amam? Grita a Chacrete ensandecida por aprovação
enquanto a Borboleta ruboriza e bate discretas asas...

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