quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pintando o Sete - Segunda Temporada: Simone de Beauvoir

Simone não é, exatamente, uma mulher que admiro assim como suas companheiras de pincel. Ela está aqui por causa de Cartas a Nelson Algren: Um Amor Transatlântico. Amar é sempre um vôo sobre o oceano em um teco-teco. Romântico, corajoso e muito, muito perigoso. Ela fez tudo: amou e viajou no teco-teco. E escreveu cartas. Ridículas, como deviam ser. Venceu-me. Isso porque não sou feminista. Tão lindo se dizer "sua rã", com a entrega e sinceridade de quem diria "seu grande amor". Gosto das cartas, são tão apaixonadas. E bobas. Há mais afinidades, claro: ela não era nada atlética e deleitava-se em leituras. E os cafés e os vinhos. Gosto também de A Convidada. Não gosto nadica do Segundo Sexo. Gosto de sexo, claro. Mas do que mais gosto é de pensar e amar e a ambos, parece-me, ela se entregou. Importa-me muito pouco que ao amar se deseje cozinhar, lavar e passar - são apenas outros nomes pra dizer: cuidar. Também se quer massagem no pé, café na cama e que ele recorde o nome dos dezessete tios. Nada de mais. Amar é dar o que não se tem. Ela deu. Gabo-lhe a fleuma. Ele não quis o que recebia. Só posso lamentá-lo. Ah, sim, essa aí é ela mesma, Simone de Beauvoir nua. Que delicadeza. Que luz. Mais um tantinho de bem querer lhe voto sempre que assim a vejo. E se não digo mais é porque ela mesma pode dizer:

(17 de maio de 1947)
A bordo de um avião da KLM
Sábado à tarde, Terra Nova

Meu gentil, maravilhoso e bem-amado "jovem nativo" (1), você mais uma vez me fez chorar, mas lágrimas doces, doces como tudo o que vem de você. Eu acabara de me acomodar no avião e abrir seu livro, quando tive vontade de ver a sua caligrafia. Voltei para primeira página lamentando não ter pedido a você que nela escrevesse alguma coisa, e eis que elas estavam ali, suas ternas, atraentes e belas palavras. Apoiei a testa contra a janela e chorei acima do mar azul, mas lágrimas doces, lágrimas de amor, do nosso amor. Eu o amo. Antes, o chofer de táxi me perguntara: "É seu marido?" "Não." "Ah, um amigo?", e acrescentara com uma voz cheia de simpatia: "Como ele parecia triste!" Não pude me impedir de dizer: "Nós estamos muito tristes por nos separar. Paris é muito longe!" (...) Eu estava aturdida, incapaz até de chorar naquele momento. Apenas aturdida. Depois o avião decolou. Gosto de aviões. Quando se vive intensamente uma grande emoção, ele é o único meio de transporte que se adequa ao nosso estado de alma, creio. O avião, o amor, o céu, a tristeza e a esperança constituíam um todo. Eu pensava em você, lembrava-me com cuidado de cada detalhe, lia seu livro, que aliás prefiro ao outro. (...) Onde está você neste exato momento? Talvez em um outro avião. Quando você voltar ao nosso pequeno lar, eu estarei lá, escondida sob a cama e em todos os lugares. Doravante estarei sempre com você, nas tristes ruas de Chicago, sob o metrô de superfície, no quarto solitário. Estarei com você como uma esposa amorosa com seu marido bem-amado. Nós não teremos de despertar porque não é um sonho; é uma história real e maravilhosa que apenas se inicia. Eu o sinto comigo e aonde eu for você irá, não apenas seu olhar, mas você inteiro. Eu o amo, e não há mais nada a acrescentar. Você me toma nos braços, eu me estreito contra você e o beijo como costumava beijá-lo.

Sua Simone.

Deslizando o Significante

Coisas em Vermelho: desejo, vinho, a voz de Callas, raiva, ópera, Clitemnestra, Ferrari, a Itália, andar de pés descalços, Riobaldo e Diadorim, coragem, O Beijo de Rodin, dançar sozinha, cinema italiano, gritar, jazz, Fedra, gargalhar, lençóis de seda, O Repouso do Guerreiro (C. Rochefort), futebol, Caravaggio, andar de mãos dadas, Ne me quitte pas, andar a cavalo, a luva de Gilda, silêncio, prender a respiração em baixo d'água, literatura russa, "Madame Bovary sou eu", conhecer novas gentes, Bambi, Marguerite Gautier, Mia Martini, sentar em amuradas pra ouvir o mar quando ele ruge, acordar no peito do seu alguém, Capitu, Rastros de Ódio, a morte de Macabéa, as palavras de Nelson Rodrigues, desespero, Capitão Acab, poesia erótica, cafuné. Minha vida é em vermelho, acho.

Onde mais, o vermelho?

terça-feira, 15 de junho de 2010

Viver em Vermelho

Ando sangrando mar. A espera, eu venho descobrindo, é azul. Mas o desejo é vermelho. Escrevi, hoje, para alguém que admiro e gosto, que vivo em vermelho. Senti falta de ter isto aqui, onde as hemorragias se fazem letras. Um pouco de cor, um pouco de ânsia. Os dias não são feitos só de espera.
Demoro um pouco a gostar da nova cara do blog. É como se eu estivesse um tantinho mais nua. Ainda não é um meu vermelho: não é sangue nem é vinho. Mas arde. Como o sal do mar que ando chorando.

As Cores do Amor

O amor, pra mim, é vermelho. Sanguíneo. Desde pequena eu antevia o rubro. Sentia o amor como quem sente a vermelha batucada e não se sabe ao certo onde: no pulso? na garganta? Ah, nos ouvidos. Quando amo, escuto em vermelho.
Mas hoje, não. Hoje, enquanto não é, a não ser em vislumbres, o amor é azul. Como aqui:


E hoje eu cantaria como já foi cantado: eu quero a sorte de um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida... Com um cheiro de mar, sussurrando possibilidades, antevendo mistérios, o amor é azul. O amor é azul como azuis são palavras prometidas, sugeridas, cristalinas em seus segredos. O amor é azul como a seda do vestido da moça em sua primeira festa. E como o cotidiano do jeans. Safira na palma da mão, esse azul amor tem um quê de frio e duro, como se evitasse uma lágrima qualquer. Meu amor azul é amor de amanhã feito vontade hoje.


Pintura em óleo de Manuela Pinheiro.
Encontrei aqui.

Como um espelho do meu sentir, escrevi meu momento perfeito.

sábado, 12 de junho de 2010

A Borboleta e uma Metáfora no Dia dos Namorados

Verás que um filho teu não foge à luta é um dos versos que mais gosto no nosso hino nacional. Assim, não vou me esquivar de falar do Dia dos Namorados. Mas vou fazer do meu jeito, colocando mais uma letra onde eu quiser. Por exemplo, dia dos enamorados. Bem melhor, pelo menos pra mim.

For me, the cinema is not a slice of life, but a piece of cake.
(Alfred Hitchcock)

Eu não sei viver sem paixão. Invento e reinvento minhas histórias de tal sorte que, às vezes, perguntam-me se eu não gosto mais da idéia de amar do que dos amados. E eu pergunto de volta: é possível ser de outra forma, se o outro é sempre um Outro para além do que sabemos e desejamos dele?
Já foi dito ou melhor, cantado, que o amor é filme. Eu digo mais: a minha perfeita metáfora pra vida é O Poderoso Chefão e amar não só é filme, mas é um filme especial: Os Intocáveis. Sim, eu já falei sobre isso, mas não diz Freud que tudo é repetição e repetição é gozo? Então.
Em Os intocáveis o que não falta são cenas grandiosas, daquelas inesquecíveis que constam no caderninho de todo cinéfilo: a seqüência do tribunal, a cena da ponte canadense, a dolorosa morte de Malone e a indescritível cena da escadaria que é já uma referência a outra inesquecível sequência de outro filme. No amor também se fazem presentes momentos antológicos e referências a amores antigos (nossos ou da história). O amor e, principalmente, o grande amor da nossa vida é uma seqüência de acasos e situações aos quais logo damos um sentido inesquecível e particular.
Mas esse não é um filme só de momentos grandiosos, há os detalhes, a ambientação, a intimidade da direção com os personagens que vão se mostrando mais a cada cena...como no amor em que tudo já está, desde o primeiro momento, mas é o envolvimento que vai revelando as nuances do que amamos. Os detalhes são reveladores no filme, como são na vida. A referência à São Judas e às causas perdidas, a decoração da casa de Malone, a inocência da família de Ness, a ousadia do personagem de Andy Garcia, todo um pano de fundo que dá consistência e força à narrativa. De novo, repito, como nos relacionamentos, onde o "passa o pão" enriquece e embeleza o sentimento. Uma das coisas que mais me toca é a cena em que Malone e Ness enfim resolvem que sim, vão enfrentar Capone, juntos pro que der e vier. Eles estão em uma igreja, porque um empreendimento destes só na base da fé. Como amar. Só acreditando é que permanece. É preciso coragem pra amar e é preciso fé. Em si mesmo, no outro,no futuro, no próprio amor.
Um outro dado que faz de Os Intocáveis uma perfeita aproximação do amor - pra mim -é a extrema ternura que o filme me provoca. Todos os intocáveis são, contraditoriamente, tão humanos, vulneráveis, "tocáveis". É assim amar. Sentir uma ternura tal que os olhos lacrimejam só de pensar: eu amo. Amar é sentir a vulnerabilidade extrema de sermos incompletos, falíveis, ridículos. Porque é ridículo: um agente federal janota, um contabilista desengonçado, um novato na polícia e um policial de rua quase aposentado se juntarem pra lidar com Al Capone. Não, não com um bandidinho qualquer, que já seria páreo duro, mas com a maior estrutura criminosa da cidade e uma das maiores do país. Viver é assim, ridículo. Mas é o ridículo que permite a grandeza. Ou o riso, claro. Além de tudo e apesar das fragilidades, eles são - esses tocantes intocáveis - incorruptíveis, como deve ser o amor e os amantes. Porque é tão fácil não ser, como era fácil corromper-se naquela Chicago.
Os Intocáveis é um filme pra se ouvir, como amar é descobrir - enfim - porque há a audição, há os silêncios reveladores e cúmplices, há a trilha sonora primorosa e há os diálogos, como no dia a dia do bem querer, onde falar de tudo e nada é tão importante quanto poder nada dizer e, sob a influência do cinema, parece que a cada momento mais emocionante surge uma música de fundo que retrata exatamente o que nenhuma palavra poderia dar conta: surpresa, alegria, desejo, ternura...E a direção e montagem? É, no filme, como deveria ser sempre no amar: perfeita utilização da técnica, estilo e visual marcantes, planos variados, câmera lenta, ritmo.
É um filme sobre perdas. Amar, além de perder-se, também é perder. Há dor. A dor de Ness que tem que alterar sua dinâmica familiar. Amar é saber de mudanças e incômodos. E há morte, a dor de um silêncio onde antes havia alguém. A morte de Malone, com coragem, com angústia, com beleza. Sim, amar é saber da finitude. E há, ainda, uma pergunta: vale a pena? Porque depois de todos os cortes, depois das perdas e mortes, o crime já não é mais crime, acaba-se a Lei Seca. Vale a pena amar mesmo que o amor acabe? Mesmo que não seja um felizes para sempre? Sim, eu digo, eu choro, vale o penar porque antes de tudo há a honra, os princípios, as convicções. O certo nem sempre é fácil, mas é, ainda e sempre, necessário.
Os Intocáveis é um filme sobre vínculos. E sobre a audácia. "Todos sabem onde está a bebida. O problema não é encontrar a bebida, o problema é enfrentar Capone". No amor é assim. Amar é uma ato de coragem, uma decisão de enfrentar o gângster particular que vaticina a infelicidade. Eu amo como Malone, acho. Fico quieta no meu canto, mas se topo a briga, quer dizer o relacionamento, é pra valer. Sangue, bala, intimidação, nada me tira do campo de batalha (que, se for a cama, bem melhor).
Amar me faz ser incoerente. Como Elliot Ness e seus amigos. Eles seguem a Lei, respeitam a Lei, agem em nome Dela mas, para preservá-la, deparam-se com a complexidade de questionar os limites. E eu me desdigo, reinvento, recrio a cada amor e a cada amado. Condenável, muito ocndenável. Mas aí lembro da cena da ponte e do capitão da cavalaria olhando pra Malone e repreendendo Ness: "eu não aprovo seus métodos!" Ele está certo, claro. São métodos horríveis. Mas, como Ness, também eu respondo: "você não é de Chicago!".
E pode subir os créditos ao som de Morricone. Amar é muito perigoso.

PS. Como Ness, ganhei algumas cicatrizes, perdi gente querida, revi valores. Mas hoje, neste dia dos namorados, eu estou feliz, feliz, feliz, podia até dar beijinho de esquimó, mas acho que, outra vez como Ness, vou tomar um drinque.

PS2. Já que falei de amor e filmes, uma lista de grandes amores. São 21 filmes. Por que? Quem sabe, talvez seja o número de anos que passei esse dia com namorados...

1)A Bela e a Fera
2) O Corcunda de Notre Dame
3) Harry e Sally
4) O Filho da Noiva
5) Uma mulher para dois
6) Suplício de uma saudade
7) A Dama e o Vagabundo
8) Tarde demais para esquecer
9) O Véu Pintado
10) Ata-me
11) Como se fosse a primeira vez
12) O Morro dos Ventos Uivantes
13) Orgulho e Preconceito
14) Elsa e Fred
15) Drácula
16) Um dia muito especial
17) Morte em Veneza
18) Amor Bruxo
19) A História de Nós Dois
20) Nosso Amor de Ontem
21) Aconteceu Naquela Noite

PS 3. Não, não coloquei E o vento levou nem Casablanca. Pra quê? Todo mundo sabe o que todo mundo sabe. No mais a lista foi feita num rompante e sem ordem, deve estar faltando um monte de filmes que amo...
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