terça-feira, 15 de junho de 2010

Viver em Vermelho

Ando sangrando mar. A espera, eu venho descobrindo, é azul. Mas o desejo é vermelho. Escrevi, hoje, para alguém que admiro e gosto, que vivo em vermelho. Senti falta de ter isto aqui, onde as hemorragias se fazem letras. Um pouco de cor, um pouco de ânsia. Os dias não são feitos só de espera.
Demoro um pouco a gostar da nova cara do blog. É como se eu estivesse um tantinho mais nua. Ainda não é um meu vermelho: não é sangue nem é vinho. Mas arde. Como o sal do mar que ando chorando.

As Cores do Amor

O amor, pra mim, é vermelho. Sanguíneo. Desde pequena eu antevia o rubro. Sentia o amor como quem sente a vermelha batucada e não se sabe ao certo onde: no pulso? na garganta? Ah, nos ouvidos. Quando amo, escuto em vermelho.
Mas hoje, não. Hoje, enquanto não é, a não ser em vislumbres, o amor é azul. Como aqui:


E hoje eu cantaria como já foi cantado: eu quero a sorte de um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida... Com um cheiro de mar, sussurrando possibilidades, antevendo mistérios, o amor é azul. O amor é azul como azuis são palavras prometidas, sugeridas, cristalinas em seus segredos. O amor é azul como a seda do vestido da moça em sua primeira festa. E como o cotidiano do jeans. Safira na palma da mão, esse azul amor tem um quê de frio e duro, como se evitasse uma lágrima qualquer. Meu amor azul é amor de amanhã feito vontade hoje.


Pintura em óleo de Manuela Pinheiro.
Encontrei aqui.

Como um espelho do meu sentir, escrevi meu momento perfeito.

sábado, 12 de junho de 2010

A Borboleta e uma Metáfora no Dia dos Namorados

Verás que um filho teu não foge à luta é um dos versos que mais gosto no nosso hino nacional. Assim, não vou me esquivar de falar do Dia dos Namorados. Mas vou fazer do meu jeito, colocando mais uma letra onde eu quiser. Por exemplo, dia dos enamorados. Bem melhor, pelo menos pra mim.

For me, the cinema is not a slice of life, but a piece of cake.
(Alfred Hitchcock)

Eu não sei viver sem paixão. Invento e reinvento minhas histórias de tal sorte que, às vezes, perguntam-me se eu não gosto mais da idéia de amar do que dos amados. E eu pergunto de volta: é possível ser de outra forma, se o outro é sempre um Outro para além do que sabemos e desejamos dele?
Já foi dito ou melhor, cantado, que o amor é filme. Eu digo mais: a minha perfeita metáfora pra vida é O Poderoso Chefão e amar não só é filme, mas é um filme especial: Os Intocáveis. Sim, eu já falei sobre isso, mas não diz Freud que tudo é repetição e repetição é gozo? Então.
Em Os intocáveis o que não falta são cenas grandiosas, daquelas inesquecíveis que constam no caderninho de todo cinéfilo: a seqüência do tribunal, a cena da ponte canadense, a dolorosa morte de Malone e a indescritível cena da escadaria que é já uma referência a outra inesquecível sequência de outro filme. No amor também se fazem presentes momentos antológicos e referências a amores antigos (nossos ou da história). O amor e, principalmente, o grande amor da nossa vida é uma seqüência de acasos e situações aos quais logo damos um sentido inesquecível e particular.
Mas esse não é um filme só de momentos grandiosos, há os detalhes, a ambientação, a intimidade da direção com os personagens que vão se mostrando mais a cada cena...como no amor em que tudo já está, desde o primeiro momento, mas é o envolvimento que vai revelando as nuances do que amamos. Os detalhes são reveladores no filme, como são na vida. A referência à São Judas e às causas perdidas, a decoração da casa de Malone, a inocência da família de Ness, a ousadia do personagem de Andy Garcia, todo um pano de fundo que dá consistência e força à narrativa. De novo, repito, como nos relacionamentos, onde o "passa o pão" enriquece e embeleza o sentimento. Uma das coisas que mais me toca é a cena em que Malone e Ness enfim resolvem que sim, vão enfrentar Capone, juntos pro que der e vier. Eles estão em uma igreja, porque um empreendimento destes só na base da fé. Como amar. Só acreditando é que permanece. É preciso coragem pra amar e é preciso fé. Em si mesmo, no outro,no futuro, no próprio amor.
Um outro dado que faz de Os Intocáveis uma perfeita aproximação do amor - pra mim -é a extrema ternura que o filme me provoca. Todos os intocáveis são, contraditoriamente, tão humanos, vulneráveis, "tocáveis". É assim amar. Sentir uma ternura tal que os olhos lacrimejam só de pensar: eu amo. Amar é sentir a vulnerabilidade extrema de sermos incompletos, falíveis, ridículos. Porque é ridículo: um agente federal janota, um contabilista desengonçado, um novato na polícia e um policial de rua quase aposentado se juntarem pra lidar com Al Capone. Não, não com um bandidinho qualquer, que já seria páreo duro, mas com a maior estrutura criminosa da cidade e uma das maiores do país. Viver é assim, ridículo. Mas é o ridículo que permite a grandeza. Ou o riso, claro. Além de tudo e apesar das fragilidades, eles são - esses tocantes intocáveis - incorruptíveis, como deve ser o amor e os amantes. Porque é tão fácil não ser, como era fácil corromper-se naquela Chicago.
Os Intocáveis é um filme pra se ouvir, como amar é descobrir - enfim - porque há a audição, há os silêncios reveladores e cúmplices, há a trilha sonora primorosa e há os diálogos, como no dia a dia do bem querer, onde falar de tudo e nada é tão importante quanto poder nada dizer e, sob a influência do cinema, parece que a cada momento mais emocionante surge uma música de fundo que retrata exatamente o que nenhuma palavra poderia dar conta: surpresa, alegria, desejo, ternura...E a direção e montagem? É, no filme, como deveria ser sempre no amar: perfeita utilização da técnica, estilo e visual marcantes, planos variados, câmera lenta, ritmo.
É um filme sobre perdas. Amar, além de perder-se, também é perder. Há dor. A dor de Ness que tem que alterar sua dinâmica familiar. Amar é saber de mudanças e incômodos. E há morte, a dor de um silêncio onde antes havia alguém. A morte de Malone, com coragem, com angústia, com beleza. Sim, amar é saber da finitude. E há, ainda, uma pergunta: vale a pena? Porque depois de todos os cortes, depois das perdas e mortes, o crime já não é mais crime, acaba-se a Lei Seca. Vale a pena amar mesmo que o amor acabe? Mesmo que não seja um felizes para sempre? Sim, eu digo, eu choro, vale o penar porque antes de tudo há a honra, os princípios, as convicções. O certo nem sempre é fácil, mas é, ainda e sempre, necessário.
Os Intocáveis é um filme sobre vínculos. E sobre a audácia. "Todos sabem onde está a bebida. O problema não é encontrar a bebida, o problema é enfrentar Capone". No amor é assim. Amar é uma ato de coragem, uma decisão de enfrentar o gângster particular que vaticina a infelicidade. Eu amo como Malone, acho. Fico quieta no meu canto, mas se topo a briga, quer dizer o relacionamento, é pra valer. Sangue, bala, intimidação, nada me tira do campo de batalha (que, se for a cama, bem melhor).
Amar me faz ser incoerente. Como Elliot Ness e seus amigos. Eles seguem a Lei, respeitam a Lei, agem em nome Dela mas, para preservá-la, deparam-se com a complexidade de questionar os limites. E eu me desdigo, reinvento, recrio a cada amor e a cada amado. Condenável, muito ocndenável. Mas aí lembro da cena da ponte e do capitão da cavalaria olhando pra Malone e repreendendo Ness: "eu não aprovo seus métodos!" Ele está certo, claro. São métodos horríveis. Mas, como Ness, também eu respondo: "você não é de Chicago!".
E pode subir os créditos ao som de Morricone. Amar é muito perigoso.

PS. Como Ness, ganhei algumas cicatrizes, perdi gente querida, revi valores. Mas hoje, neste dia dos namorados, eu estou feliz, feliz, feliz, podia até dar beijinho de esquimó, mas acho que, outra vez como Ness, vou tomar um drinque.

PS2. Já que falei de amor e filmes, uma lista de grandes amores. São 21 filmes. Por que? Quem sabe, talvez seja o número de anos que passei esse dia com namorados...

1)A Bela e a Fera
2) O Corcunda de Notre Dame
3) Harry e Sally
4) O Filho da Noiva
5) Uma mulher para dois
6) Suplício de uma saudade
7) A Dama e o Vagabundo
8) Tarde demais para esquecer
9) O Véu Pintado
10) Ata-me
11) Como se fosse a primeira vez
12) O Morro dos Ventos Uivantes
13) Orgulho e Preconceito
14) Elsa e Fred
15) Drácula
16) Um dia muito especial
17) Morte em Veneza
18) Amor Bruxo
19) A História de Nós Dois
20) Nosso Amor de Ontem
21) Aconteceu Naquela Noite

PS 3. Não, não coloquei E o vento levou nem Casablanca. Pra quê? Todo mundo sabe o que todo mundo sabe. No mais a lista foi feita num rompante e sem ordem, deve estar faltando um monte de filmes que amo...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Outra vez com os mortos...

Eu escrevo pra ser lida. Gosto de ser lida. É bom. Ser elogiada, então, é uma delícia. Textos que vêm assim são bons e fáceis. Quem me dera escrever só por isso. Mas há outras escritas. Há aqueles textos que se sabem na minha cabeça até virar letra. Minhas palavras são sempre tentativas. De dizer. De me dizer. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa (1). São pontes, minhas palavras, mas as pontes só apontam o abismo. Estes textos têm gozo: dor e prazer. Sangram estas palavras. São estertores de mim.

Mas, às vezes, não. Nem mel nem cabaça, mas de um jeito bom. Algumas vezes a escrita é o que ela é. Apenas e sem dor. Nem procurada nem autoimposta. Nem lâmina nem seda. Outra. Como as shorts que escrevo (escrevi) no cemitério tão querido. Então, este mês foi assim: uma imagem que eu logo pensei - Laura (2). Não sei bem, havia algo de insinuado, dissimulado. Havia o possível. Tão bom, o possível. Ele me atrai tanto. O possível tem tudo, até pensamentos que não vão ser nunca. E foi assim que nasceu Na trilha de Raskin, lindamente rebatizada (ou assassinada, melhor dizendo, para ficar entre os mortos) de O negro céu de Lucy. Por causa desse quadro (3):


(1) Clarice Lispector
(2) Filme de 1944, dirigido por Otto Preminger, com música de David Raskin. Eu ouço. Você devia ouvir também.
(3) Office at Night, 1940 - E. Hopper


Olhos de Ressaca

Machado de Assis está morto. Como ele mesmo disse, podemos elogiá-lo à vontade. Mas estará? Em mim, não. O maior escritor brasileiro, um dos dois maiores da língua portuguesa, destacado na Literatura Mundial. Isso nada me importa. Eu disso tudo desconhecia quando Iaiá Garcia me chegou. Chegou em cheiro de poeira, livro encantoado, esquecido na prateleira. Iaiá ainda não é personagem realista, mas já não é mais heroína romântica. É uma corajosa amante. Um texto convencional, argumentam alguns. Convencional, rio-me eu. Quando amar pode ser trivial? O amor só segue sua própria convenção interna e o mais repetitivo dos enlaces ainda é único na sua letra. É um romance sobre a dor moral, uma reflexão sobre o que é permitido. Fiquei perdida de amores por Machado. Do que mais gosto? Da refinada ironia. Um olhar que tudo percebe num doce cinismo que a quase tudo perdoa. Fui de Marcela a Helena, Lívia a Guiomar, de Virgília a Sofia, de Fidélia à ambígua Conceição. Mulheres a serem conhecidas, inquiridas, desejadas, respeitadas, amadas. Perdoadas. Como diria Vinícius: "e no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende piedade das mulheres!" Há, claro, maldade, sofrimento, pessimismo, mas o que é isso senão mais e mais da vida? E, claro, há Capitu.
Capitu é o impossível de dizer. Que me importa se traiu, não traiu, quis trair e não traiu, não quis e sim, sim, sim...nada disso vale o que eu sei: ela foi amada. O que mais sei: dos seus olhos. Capitu é mulher. Nada mais era preciso dizer em sua apresentação. Capitu é um enigma, seria outra forma de dizê-la. De dizer-me. De dizer, apenas. Os olhos de ressaca são esses que aprisionam. Que arrebatam. Uma vez disseram-me isso: tens os olhos como os de Capitu. E eu sou como Machado: "Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e até ao corpo. As melhores digestões da minha vida são as dos jantares em que sou brindado". Ter os olhos como os de Capitu é tanto ver. É trazer em si as rebentações, as calmarias, as tempestades. Um olhar que prescinde do tempo e tem a duração das felicidades e dos suplícios. Machado fez de Capitu uma morada para as perguntas. Os livros de Machado de Assis não são para ser lidos. São para ser relidos. Tantas vezes encontrados os personagens e situações, todas elas de novo o prazer. Prazer de uma frase tão bem escrita que, de nenhuma outra forma, poderia ser dita. O belo está em tudo que é dito, mas principalmente no que é mal dito, nem insinuado nem negado, o equívoco não da palavras mas da linguagem. Machado é tão, tão reverente que se dá ao deboche. É lindo isso de rir-se. Há jeito mais bonito de dizer o gostar? "Capitu sorriu abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma, provavelmente porque não gostei tanto das outras. As pessoas valem o que vale a afeição da gente, e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece”.
Machado de Assis me deu belezas. Está morto, mas como seu Brás Cubas, ele começa do fim.



Como uma encantada, leio e releio esse texto de Fernanda Montengro. Eu, se fosse você, lia também.
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