segunda-feira, 31 de maio de 2010

Aniversariando...

Eu gosto do Clint Eastwood porque
ele tem somente duas expressões faciais.
Uma com o chapéu e outra sem ele. (Sérgio Leone)


Hoje é aniversário do Clint. Íntima, né? Mas como não ser se ele foi um dos que construíram as várias versões do homem que aprendi a desejar? E mais, como chamá-lo pelo nome todo se me acostumei a pensar nele sem nome nenhum? 80 anos e uma carreira que nem sempre me cativou. Mais do que talento - que ele tem - o que Clint tem é carisma. Conservador, trabalhador, perseverante, é bem um filho da depressão americana. Mas é mais e além na delicadeza repentina e surpreendente com que trata os personagens dos filmes que dirige. Não faço hoje o obituário que farei. Digo apenas que sou feliz de viver em um mundo em que existe o cinema. E a memória.

domingo, 30 de maio de 2010

Era um vez, no meu coração, o Oeste, o Velho Oeste...

É um post longo, esse. E apaixonado. E muito, muito verdadeiro.
Sempre gosto de escrever sobre filmes, já que gosto tanto deles.
Sempre gosto de escrever sobre homens, já que gosto tanto deles.
Assim, é sobre homens e sobre filmes.
E sobre mim, que gosto de gostar deles.


Eu adoro cinema. Meu coração quase rompe em cálida ternura quando penso simplesmente assim: cinema. E, de todos os gêneros, arriscando-me ao arrependimento logo depois de escrito, eu prefiro os faroestes. Não há uma explicação simples pra isso, é certo. Há Wayne, há meu pai, há a sessão coruja nas madrugadas de sábado. Talvez seja o fato de que o faroeste é cinematográfico por essência, vocação e história (do drama à comédia, passando pela ficção científica e pelos épicos, os demais gêneros têm nobres antecedentes no teatro e na literatura, mas o faroeste, fora tênues subprodutos, é vocacionado para as telas, talvez porque o cenário seja tão relevante para o gênero, só aquelas imagens daquele tempo e lugar poderiam suportar as dimensões dos faroestes). Tem os duelos que sempre fazem meu coração bater num ritmo diferente e, sim, eu imitava os pistoleiros e adorava fingir que bebia uísque ou sabia jogar pôquer. E as trilhas sonoras, viciantes. Há o inconteste fato de que sou mulher e me atrai o mundo masculino. Fico quieta a inquirir a honra, a amizade, o cavalheirismo, a rude bondade. Procurando descobrir o fio de Ariadne que me leve sem maiores ferimentos aos braços do Minotauro. O faroeste tem heróis. Mas heróis que não voam, não têm superpoderes, não são invulneráveis e, a bem da verdade, só se envolvem nestas coisas de bem comum por um incidente qualquer. São solitários os homens do Oeste. E me dói e me comove que assim o sejam. Correndo o risco de soar tão machista como me sinto eu diria que os homens-heróis do faroeste são os homens que iconoclasticamente desejo.

Tenho um imaginário sobre os faroestes, claro. E, ainda de forma mais evidente, não deve ser muito diferente dos imaginários dos fãs ou mesmo de apreciadores ocasionais. Os faroestes têm estereótipos que eu prefiro chamar de legendas: os vastos espaços que demandam valentes; os saloons barulhentos; revólveres; ruas únicas varridas pelo vento; duelos. Sempre me encantou a certeza inabalável de que nunca, nunca, nunca, o herói não seria honrado na disputa com as armas. O herói não é necessariamente digno, decente ou escrupuloso mas, tenha certeza, ele não atira pelas costas. Eu vi e gostei de muitos filmes de que pouco recordo a não ser que eram faroestes e os tiroteiros se sobrepunham. Mas há filmes que por várias circunstâncias foram sendo revistos e se tornando os mais amados. Não os coloco em ordem de preferência, como escolher um único Wayne? O melhor Sergio Leone? O mais emblemático pistoleiro? Mas começo com um dos menos badalados mas que sempre me mobiliza: Big Jack. Repleto de ação, tem humor e tiroteiros hipnóticos, faz contraponto entre a pífia atuação oficial em frágeis automóveis dos agentes da lei e a arrogante e máscula campanha do herói que a 18 anos não via sua mulher, é um filme que me diverte e empolga sempre, e o que mais se pode querer do cinema?

Sete Homens e um destino: eu chorei. E ri. E chorei de novo. E me zanguei. E, um tantinho, me apaixonei pelo careca. Sabe, sempre me doía pensar que aqueles sete magníficos eram mais baratos do que comprar armas. Há cenas maravilhosas e diálogos impecáveis (os faroestes sempre têm poucas falas, mas os bons faroestes fazem disso um trunfo colocando sempre frases lendárias entre uma bala e outra). Tem uma trilha sonora envolvente. Há a preparação para a perda e a certeza da cruel continuidade da vida. Há uma pergunta que sempre se coloca como impossível pra mim: mais vale o que fica ou o que segue?

Duelo ao Sol – bom, tem o Gregory Peck. E é meio sexy, né? E, mais além, é trágico, com aquela beleza que só o impossível consegue emprestar a tudo o mais. É, pra mim, um filme sobre escolhas. E com tão ricas cores e possibilidades que sempre que o revejo me espanta que se fizesse filmes assim e que não se faça mais.

Três homens em conflito, mas eu prefiro: O Bom, O Mau e o Feio. Só esse título já vale pra entrar na minha lista de favoritos. Mas o filme tem mais, muito mais que isso. Tem seqüência de abertura em que se apresenta, com requinte, cada um dos protagonistas (ou antagonistas, pra ser mais precisa). Nesse filme só falta diligências. E, claro, o Wayne. Mas tem tiroteio, pistoleiro, prostituta, cinismo, mocinhos barbados, cavalos, paisagens áridas...e uma história maravilhosa, rica, convincente, densa. Há longas sequências sem cortes que criam clima e aumentam a tensão até quase me fazer gritar. Há o contraste brilhante entre tomadas panorâmicas e closes de rostos fortes, duros, sujos, cínicos, impressionantes. O filme tem personagens, personagens complexos e muito bem interpretados. Gosto quase igualmente do resto da trilogia (por um punhado de dólares e por uns dólares a mais).

No Tempo das Diligências/ Rio Vermelho – ambos têm o John Wayne. E lançam as bases dos arquétipos que amo: o homem livre, forte, que deve impor-se pela força ao ambiente, seja natural ou social. As ambientações são impressionantes e o que o herói deve fazer se coloca inexorável. Rio Vermelho ganha por uma cabeça: a do Montgomery Clift.

Onde começa o inferno/Matar ou Morrer – o homem é um só. A solidão das decisões. A covardia. A coragem. A escolha. Wayne. Gary Cooper. No Matar ou Morrer temos um protagonista a mais: o tempo, onipresente nos relógios que se sucedem nas cenas hipnóticas. Onde começa o inferno é uma pergunta feito imagem sobre honra, ética e apatia. Um e outro confrontam-me comigo mesma. Gosto do silêncio constante no Matar ou Morrer e que acirram o abandono a que é sujeito Cooper. Gosto do tom redentor que acompanha Wayne e dos diálogos inteligentes com a direção precisa e minimalista de Hawks.

Há ainda a violência dolorida e explícita (embora hoje quase terna ante o que andam fazendo por aí) de Meu ódio será sua herança; o irrevogável de O Último pôr-do-sol; o esquemático mas arrebatador Shane (que quase hereticamente insisto em chamar de o brutos também amam menos porque me parece verdade e mais pelo tanto que eu gostaria que fosse); o amoroso, reverente e ainda assim crítico Era uma vez no Oeste (e que mulher, meu deus, foi Cláudia Cardinale!); o humor desesperado e a terna nostalgia de Butch Cassidy e Sundance Kid; o Wyatt Earp de Fonda/Ford em Paixão dos Fortes; a amargura e a complexidade de Jogos & Trapaças - Quando os Homens são Homens; a maior parte dos Djangos especialmente aquele – acho que é o bastardo – em que ele diz algo como – tenho a frase anotada na agenda, que brega mas tão útil! – vou fazer você morrer mil mortes; o épico de Da terra nascem os homens – e, outra vez, a sedução madura de Gregory Peck; a batalha de OK Corral em Sem lei e sem alma; o embate entre Fonda e Wayne em Sangue de Heróis; as intensas mulheres de Johny Guitar e O Diabo feito mulher; o talento de James Stewart em O Preço de um Homem; o desconforto e agilidade do Ringo (não me acusem de dar preferência ao Peck é que ele ganhava ótimos papéis) de O Matador; Wayne, pra mim impressionante e arrebatador, em: O Ùltimo Pistoleiro, Bravura Indômita, El Dorado, Caminhos Ásperos, O céu mandou alguém, Os cowboys...uma lista quase infindável porque basta vê-lo em cena pra tudo mais no filme ficar menor que sua presença.

Eu sei, eu sei, não estão aqui Rastros de Ódio nem O Homem que matou o Facínora ou O Tesouro de Sierra Madre . São tão grandes. Tão plenos. Tão belos. Obras-primas. Tão meus filmes que demandam, exigem um post só pra eles. Que virá.

O que eu gosto em um homem - Parte 1

Um tantinho por causa do Navarro,
outro tanto por causa da Nanica


É uma série. Serão sete partes e bem podia estar lá no Pintando o Sete, mas como ainda estão faltando posts sobre Adélia Prado, Marguerite Duras, Clarice Lipector, e Simone de Beuvoir ...

Esse não é um tema fácil, afinal eu sou uma inacabada, contraditória e verborrágica, como posso ter a mínima idéia do que gosto em um homem? Geralmente eu gosto dos homens que eu gosto e pronto. Mas estava vendo umas coisas que me deram assim um nó na garganta e eu resolvi escrever. Foi, também, pensando na minha amiga Nanica - que me disse uma das mais belas coisas que alguém já me disse: vendo Casablanca eu te entendo um pouco mais (ok, ok, não foram essas as palavras, mas eu não ando com gravador e o sentido era esse) - que dei cabimento a essa idéia.

Então, lá vou eu.

O que eu gosto em um homem? Que ele seja inesquecível. Que tenha um estilo único. Que esteja sempre lá. Que antecipe meu passo, que me ponha tonta, que segure a minha mão. Um homem elegante, mas com um ar meio vagabundo. Que faça eu me sentir bonita como nunca e me revele uma alegre divorciada. Que sapateie na areia pra me fazer dormir*. Que me convide pra dançar um ritmo louco. Gosto de um homem que, estando ao meu lado, me faça sentir como uma Cinderela em Paris vivendo suas núpcias reais. Gosto de um homem que me dê classe e que me faça graciosa.
Gosto de um homem que seja insubstituível. Outro amor, sim, mas nunca como ele. O que eu mais gosto em um homem é que ele me faça falta. E que eu nos imagine em um rodopiante abraço, leve, terno, sensual.


*Não é nesta cena, mas é neste filme.

** Dá pra acreditar que, em um teste, ele foi avaliado assim: ''Não sabe cantar. Está ficando careca... dança um pouco''

sábado, 29 de maio de 2010

Morreu Dennis Hopper

Morreu Dennis Hopper. Não, não era o meu ator preferido. Na verdade, se eu fizesse uma lista de 10 ou 15 assim, de cabeça e improviso, ele não estaria nela. Mas, puxa, ele fez Sem Destino. E quando digo fez quero dizer atuou, co-roteirizou e dirigiu. Esteve lá em Apocalipse Now. Em Veludo Azul. Em Rebeldes sem Causa. Enfim, dói quando morre gente assim que constrói imaginação. Meu mundo fica mais triste. Fechem-se cortinas, vou lá dentro chorar um pouco.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Palavras para dizer o desejo* ou Um conto inacabado

porque tenho aprendido que há muitas e tantas formas de se dizer...

Já sente a saudade no momento em que desliga o telefone. A voz dele desaparecendo, aprendendo a fazer eco do silêncio. O silêncio que segue à última palavra, ao último riso, ao último beijo, é sempre o mais difícil de atravessar. Já não há mais abismos nela que ele não ocupe. Ao redor dela não há – quase – sinais. Mas dentro, já pressente até o sal dos dias de despedida, embora ele nem tenha chegado ainda. Ela já sente ferver, já sente doer, já sente pulsar. Lembra coisas que nem aconteceram: um beijo, uma dança, uma caminhada à beira-mar, um encontro de cúmplices olhos, as mãos esquecidas no corpo do outro como se sempre tivessem estado lá. E reconhece o que nem conhecia: as infinitas reticências, o espreguiçar, as rápidas e precisas palavras. Sim, as palavras certas, um momento antes do momento certo, com uma certeza a que ela não se acostuma, mas admira. Como se houvesse sentido no viver que não fosse só sentir espanto disto que se está a sentir. Como se fosse possível isso de gostar. Como se tudo fizesse sentido desde antes da primeira palavra ser dita, como se viver fosse um flash back. Ela se ressentia um tanto, pela primeira vez sentia vontades como a de chamar, sem razão, pra dizer que viu o mar, a lua, o tempo, como se não os visse sempre e com alegria. Ou pra nada dizer e nada ouvir a não ser um timbre. As mãos agarram objetos cotidianos que a impedem de voltar ao telefone. Um estranhamento a acompanha, como se fosse o tempo errado, como se houvesse uma outra coisa que ela devia fazer, como se devesse estar em outro lugar. O tempo a ignora, ofendido. Ela, sem paciência pro futuro, ela que devora tudo no já, tem a espera como companheira. Destemida, agora tem medo das perguntas que fazem abismos. Planeja tolices - onde colocar as mãos, como disfarçar o bobo do sorriso - porque não tem coragem de nomear os sonhos. Um mundo imenso, esse; ela pensa e não segue. Ainda não sabe escolher caminhos, essa dona que nunca deixou de andar com o coração.


*Les mots pour le dire (palavras para dizer) é o nome de um filme que assisti em tempos outros, onde ainda existia como universitária de psicologia. Penso que alguém escreveu um artigo sobre ele, mas já não lembro autor nem idéias...mas o título me persegue.

** A imagem veio daqui

*** Quase nunca escrevo estorinhas aqui, podem culpar a aproximação do Dia dos Namorados e toda a conversa sobre santos e namorados lá no meu cemitério de estimação.

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