terça-feira, 25 de maio de 2010

Um longo, longo post...

Existem três formas de se fazer as coisas.
O jeito certo, o jeito errado e o meu jeito*

Este será um longo, longo post. Muitos não gostam. No tempo do tempo corrido e do desgaste da reflexão, muitas palavras assim encadeadas sem nem ilustrações nem diálogos (como diria minha querida Alice sobre o livro de sua irmã) tendem a ficar sozinhas. Ainda assim, será um post longo. E, pior, desconexo. Mas necessário.

Inicio recordando aos que não sabem que eu tenho sorte. Muita sorte. Quer uma prova? Eu não ser tão bonita como Narciso. Ou ter mais senso de humor que ele. Ou os deuses estarem muito ocupados no Olimpo pra cuidar de picuinhas como as minhas. Não fossem estes intervenientes e eu já era uma flor em alguma beira d'água. Afinal, convenhamos, este blog nada mais é do que um confesso e confuso disse-me-disse de narcísicas colocações. São as MINHAS opiniões, predileções, intenções. MEUS filmes, livros, amigos, amores. Meus, eu, eu, eu. Mas o que piora tudo é que, post sim, post não, lá vem o bom e velho tema: o que eu acho de mim. Ou uma de suas variantes. Sei bem demais que eu podia tentar legitimar todas essas palavras sob a desculpa de que, por eu sempre mudar, não ser possível ter uma versão definitiva de mim. Mas nem vou pelejar nisso. Tenho muito a dizer sobre mim porque tenho muito a dizer sobre tudo mesmo. Então, eu tenho sorte e você, que lê, nem tanta. Porque no dia da feijoada aí de baixo quem cantava era Bethania e, ai de mim, ela cantou Nos Combates desta Vida. E aí eu soube. Era eu. Mais uma versão de mim vem aí. Não é que eu goste da música (gosto). Não é que a voz da Bethania me arrebate (arrebata). É que é assim que eu sou. Ou gostaria de ser e me vejo sendo. Sei lutar, dançar e cantar de brincadeira, ser fiel e companheira, ser faceira...e acredito, ah, como acredito, que quem sabe amar traz a luz, o sonho e a fantasia.

Faceira. Adoro esta palavras e adoro me sentir assim: faceira. É algo moleque, sexy e alegre, tudo ao mesmo tempo, meio indefinível. Ser faceira é ser mulher de um jeito - admito - não muito feminista. É deixar que me abram a porta do carro, façam-me favores e cuidem de mim. Se eu poderia abrir minha própria porta? tenho quase certeza que sim...mas gosto de ser mimada. É assim, não é muito bonito, eu avisei. Não sou politicamente correta. Tenho arestas onde deveriam ser curvas e curvas onde deveriam ser arestas. Claro, ainda tenho curvas onde deveriam estar exatamente isso: curvas. Não é difícil ser eu, hoje. Sou bastante contente. Mas foi um pouco difícil chegar aqui. Não cheguei sem marcas. Mas gosto delas, então fica tudo certo.

Mas, às vezes, pra ser mulher, uma certa infra-estrutura é necessária. Semana passada meu pneu furou. Hoje, de novo. Na primeira vez o resgate veio via cunhado. Na segunda estrupiei o resto do pneu arrastando o carro até o borracheiro. Resultado: vou comprar dois pneus novos. Então, reparem: eu não troco pneus. Não mesmo. Não tenho força, jeito, vontade, nem histórico. Daí a necessidade de infra-estrutura. Se minha cidade nova fosse como a velha, não teria problemas. Eu tinha todos os telefones: borracheiro 24hs, encanador 24hs, eletricista 24hs...e por aí vai. Ser essa mulher que eu sou não quer dizer dependente, mas é preciso um certo suporte. A mulher que eu sou entra sozinha no bar, senta, pede a cerveja e se serve sem pudores. Mas se tiver um homem na mesa - mesmo que não seja o meu - ora mais, ele que peça. Não sou coerente. Não sinto e não vivo de forma coerente. Vivo de forma feliz. O pacote está pesado? Ora, o homem carrega. A conta chegou? Me dá que eu pago. Não me considero feminista, nem machista, nem nenhum outro ista que eu me recorde agora no que se refere a relacionamento amoroso. Não acho que homens e mulheres são iguais. Aliás, dois excelentes livros (claro que os considero excelentes porque concordam comigo, eu já avisei....) sobre esse assunto: O Erotismo(Alberoni) e Porque as mulheres escrevem mais cartas do que enviam? (Darian Leader).

Ah, também não me considero feminina. Feminina pra mim é uma mulher de salto alto, meia finíssima, saia justa com fenda lateral, coque sério, sem nada no rosto fora um discreto brilho labial em uma sala de tribunal esbravejando contra, sei lá, o governo americano. Ou dançando no meio de uma roda de ciganos, saia rodada, cabelos soltos, unhas curtas, pernas fortes. Feminina pra mim é sempre jeitosa. Não sou jeitosa. Sou toda desengonçada. Vou prum lado e, quando vejo, meu corpo chegou pelo outro. Mas vou levando. Porque gosto tanto de mim! Como foi isso? Foi assim: meu pai. Ora ele chamava princesa. Ora chamava bacurinha (pra quem não sabe bacurim é porco, quando pequeno ainda). É assim a liberdade. É assim que me vejo: bacurinha, princesa. Chafurdo na lama sem perder a majestade. Algo assim.

Além disso, não sou discreta, nem paciente, virtudes que sempre relaciono com as mais femininas das femininas. Eu rio alto. Rio até ficar sem ar. Posso garantir que isso não é nada sexy. E eu não espero nada. Chego logo dizendo: gosto de você, você quer gostar de mim? Ou algo do gênero. Os mais heróicos ficam. Nem todos sabem lidar com risadas e falas diretas. E aí, piora: eu ruborizo. Poxa, como uma pessoa que dá gaitadas e entra com os dois pés no peito pode ficar vermelhinha que nem tomate com qualquer insinuação de intimidade, com qualquer palavrão em piada, com qualquer qualquer? Não explico. Não explico porque não sei mesmo. Como diria Chicó: só sei que é assim.

Continuando essa hidra (aquele bicho horroroso da mitologia grega que tinha um monte de cabeça e que não adiantava cortar uma que aparecia pelo menos mais uma no lugar...pois é e ainda tinha um bafo horrível) outra coisa que sei: a pergunta de freud continua válida e continua me estruturando. O que quer uma mulher? Assim é que interrogo as mulheres que amo, que admiro, com quem convivo...o que, meu deus, eu devia estar querendo sendo uma mulher? Eu sei, eu já estudei, já li até o Serge Andre, eu sei que - sendo mulher - o que eu quero é o impossível, porque não tem nome. Nenhuma mulher se sente suficientemente amada. Isto explica mas não ajuda, concorda?

É por isso, então, que escrevo. Pra ver se. Pra ver se encontro. Pra ver se te encontro. Pra ver se me encontro.




* Eu sei que ele é uma metáfora equivocada e preconceituosa da época da Guerra Fria, mas fazer o quê? Gosto do James Bond. Gosto principalmente quando ele está vestido de Sean Connery.





quinta-feira, 20 de maio de 2010

Feijoada Completa*

Dizem que o amor é a linguagem universal e eu sempre fico encafifada com isso porque, como eu já disse por aqui, acho que a gente aprende a amar e aprende cada um de uma forma em uma época e um lugar com situações e pessoas distintas e por aí vai...Então, sempre me pareceu que o amor é, como todas as demais linguagens, uma tentativa vã de dizer algo que não é possível de ser enunciado. Com Clarice: "o que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa". Claro que continuo tentando e recomendo a todos, poucas coisas são tão divertidas. Mas, na verdade, espero ser aceita e não compreendida. Daí o charme da amizade. Os meus amigos não se preocupam se estão me entendendo ou não, é mais como:"li seu blog, angústia, correntes, você está bem?". Simples. Direto. "Sim, estou bem, é que eu estava assistindo Sete homens e um destino e me deu uma dor do imponderável...". E aí, sem nunca ter visto Sete...e nem se perguntar: como assim dor do imponderável? vem a pronta resposta: "mas tu sabe que eu te amo né?". Sei. Sei, sim. "Não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo entendimento" (de novo Clarice). Vivemos, eu e meus amigos. Vivemos humores. Saboreamos. Sofremos. Gozamos. Morremos um dia de cada vez. Nossos olhos brilham de haver vestido azul com laços...

A menina que durante o dia desejou um vestido
está dormindo esquecida e isto é triste demais
porque ela falou comigo: "Acho que fica melhor com babado"
e riu meio sorriso, embaraçada por tamanha alegria.
Como é possível que a nós, mortais, se aumente o brilho nos olhos
porque o vestido é azul e tem um laço?

Um dos meus vestidos azuis com laço é feijoada. Penso logo na música do Chico e isso me lembra o começo do casamento dos meus pais. Era batata, lá vinha meu pai, meio dia, sem aviso nem nada, com um monte de gente convidada pro almoço (e minha mãe, que tinha acabado de chegar da escola, que se virasse, mas o melhor é que ela gostava, reclamava - e reclama - mas gostava). Depois, água na boca. Lembrança de cheiros, sabores, risos, conversa alta, cerveja gelada. Lembrança de farofa rica, tira-gosto, caldinho. Parece com casa da mãe. Parece com casa de amiga. Parece com comida feita com amor em distantes itálias. Parece com alegria.

Então, está por aqui aquela falada angústia. Ainda fecha a garganta e põe sal nos olhos. Decido o lógico, então: ir atrás do vestido azul, claro. Amanhã, será feijoada o almoço. Feita por mim, já começada antes deste post: feijão de molho, costela lavada e cortada, carninha, bacon, rabo, linguiça...tudo a postos. Será feijoada com cerveja gelada na cozinha quente, música alta na sala, pirão de feijão, arroz soltinho. Será feijoada com gosto de colo de mãe, companhia de irmãos, encontro com amigos. Será feijoada com gosto de livro preferido, filme antigo, andar de mãos dadas, soneca às dez da manhã, brisa de praia e lua cheia no sertão. Será feijoada com gosto de laço no vestido azul. Feijoada completa.

*Pra quem gosta de boa música e bom humor, além de belos olhos, aqui é o lugar certo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Uma solidão de não ter palavras...

Nem John Wayne, nem beijo, nem saudade...nada desses iniciados posts. Até podia ser a doença da morte, mas até isso me escapou. Quem freqüenta sabe, sou da turma da alegria. O riso me vem fácil, quase sempre. A não ser. A não ser quando se ausenta. Angústia, chamam essa inoportuna que chega. Gostaria de pensar que ela é visita, hóspede, mas eu sei que não. Sei que habita o sótão, arrasta correntes, recebe bandejas de comida à porta sempre ensombreada e, vez ou outra, quando dá-lhe angústia de ser ela mesma a angústia, desce a escada e põe-se a percorrer a casa. Um escândalo suas vestes de um branco amarelecido de não ver luz. Olhos fundos. Desfruta de poucas companhias, mas aprecia, ainda que vagamente, a saudade, a dor e a nostalgia. Ela se abanca na varanda e fica a espiar, pelos meus olhos, o mundo. Com suas unhas enormes arranha a madeira da cadeira em que lentamente se balança. A angústia ocupa os espaços da casa. Ela empurra tudo pra fora e tudo me arde em lágrimas. Não é dona da casa, mas age como se fosse. É de uma força que rouba a minha. Ela cresce em espasmos do que eu não posso. A garganta fecha em desejos de nada dizer. Pensar em coisas boas, pensar em coisas alegres grita uma noviça rebelde ao longe e eu tento: bigodes de gatos, neve...mas eu não conheço a neve, zomba a angústia, e a noviça torna-se névoa. A vista embaça e o amargo trava o sabor de viver. Logo mais ela se recolhe, eu sei, eu espero, eu quero. Não há motivos para preocupação, insisto. Mas dói. Dói de não chorar, de não ter, de não poder, de sequer saber o que se deveria ter, poder e querer. Ou de saber, mas não poder nomear, não poder desejar. Espero que ela torne ao sótão repleto de impossibilidades empilhadas, objetos perdidos, demências e ferocidades. Que ela se tranque em três voltas de chave. A angústia aprisiona numa solidão de não ter palavras.

domingo, 16 de maio de 2010

Cores da Borboleta

Das perguntas sem resposta como o que é o amor? existe vida após a morte? qual o sentido de tudo isso? quem inventou o sabão em pó? a que mais gosto é quem sou eu? Mesmo sabendo que é impossível, eu tento e tento dizer de mim. Borboleta, muito prazer. Tenho uma série de considerações sérias e outras irreverentes sobre esse tema, mas não trarei nenhuma delas aqui hoje. Tem aquelas outras respostas sofisticamente desenvolvidas: sou o que como e como o que sou (pode-se substituir comer por ler, ouvir, assistir, etc.), mas também não é disso que vou tratar.
Eu hoje comecei dez posts diferentes pra esse blog. Sim, dez, nesta ordem: a) sedução; b) saudade, c) beijo; d) chupando drops de anis: meus westerns preferidos; e) um livro pra se ler quando se ama: a doença do amor; f) a seleção do Dunga X o futebol brasileiro; g) porque adoro ser nordestina; h) um dia de domingo; i) as grandes invenções humanas: arquitetura clássica, telefone, leite condensado, música dor de cotovelo, j) Minnelli e o belo cinema...Aí eu comecei a olhar pra todos estes posts inacabados e me pus a pensar: além de pouco persistente, o que mais isso tudo diz de mim?
Eu já sei que sou quase monotemática e de forma recorrente volto aos meus pontos de estofo: cinema, sentimentos, história, livros. E gente. Gosto de gente. Se eu fosse um mosaico, o que se veria lá? Comecei uma desarmônica lista que não queria nunca se acabar, mas dei-lhe a medida de 25 itens.

1) Scarlet O"Hara;
2) Bolsa enorme, aberta e cheia de itens insólitos;
3) Um pôr-do-sol no Velho Oeste com uma homem solitário cavalgando ao longe;
4) "Madame Bovary sou eu";
5) Uma ária de Tosca;
6) A voz de Nara Leão cantando João e Maria X a voz de Bethania cantando Carcará;
7) Uma sala de reboco;
8) estória de trancoso;
9) Uma sala grande com uma enorme mesa de jantar;
10) uma rede na varanda
11) um quintal com cheiro de churrasco e som de risadas
12) vermelho e preto por todos os lados
13) Uma pintura de Caravaggio
14) a voz do Marlon Brando
15) uma estrada e um meio de transporte qualquer
16) um cantinho, um violão
17) tábua de queijo, taça de vinho
18) dançar forró
19) cinemão estilo Minnelli, cinema de autor como os italianos, cinema-diversão como musicais, cinema P&B
20) mesa de bar
21) as letras perfeitas de chico, vinícius, joão bosco e outras mpbzices
22) cartas e colagens
23) I can't get no satisfaction e um ou outro Pink Floyd
24) sapato alto
25) livros cheirando a poeira, livros com cheiro de novos, livros fininhos, pesados, bobos ou densos, livros, livros e livros.

Pois é, assim sou eu - acho. O que você acha? O que poderia estar nesta lista/mosaico? O que você me vê quando me vê? E, finalmente, dos posts inacabados qual você quer ver por aqui?

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Tempo, tempo, tempo...

Eu já disse em algum lugar por aqui que gosto da rotina. Não sei se fui exata. Eu gosto mesmo é do tempo. Gosto da versatilidade dele. Algumas vezes ele para, quando você se depara com uma pessoa especial que aprisiona seu olhar. Pronto. Nada se mexe, nada se bole, não há relógio, ponteiro, futuro. Tem só aquele instante em que tudo tem sentido e que muito é sentido. Tem vezes que o tempo corre. Rápido a sumir de vista, quando se nota já se perdeu a hora, o bonde, o rumo.
Mas o tempo que mais gosto mesmo é este tempo do dia a dia a dia a dia. O tempo da rotina. O tempo do mesmo. De amar as mesmas pessoas. De falar as mesmas coisas e ser sempre tão divertido. De lembrar as mesmas memórias. Tempo de ser a gente. Tempo de eu ser eu. Gosto deste tempo que passa sem ser notado. O tempo que bota rugas do lado dos olhos e riscos ao redor da boca.
Eu sempre digo que não tenho medo de envelhecer. E tenho uma hipótese: é que, na verdade, já sou antiga em espírito e estou mesmo só esperando o corpo alcançar o resto que já chegou lá. Sinto-me como aquelas velhinhas simpáticas e agradáveis, mas um pouco condescendentes com tudo que tem menos de 30 anos e que, não tão lá no fundo, acolhem o que é modernoso mas acham, nostalgicamente, que o que é bom dura pouco e já passou. Às vezes sinto um pouco de culpa em relação a isso, fico pensando que devia ser mais aberta com o que surge de novidade...mas é que acho tão lindo filme p&b! Gosto tanto da voz da Maria Callas! Acho tão bonita aquelas lamparinas do velho mundo e as ruas estreitas e sinuosas! Acho tão fino dizer bom dia, por favor e com licença! Ou seja, sou velhinha mesmo.
Gosto de coisas que estão fora de moda e que falam de um mundo adulto. Não me sinto confortável neste mundo em que o tempo não passa nunca, em que todos ficam eternamente jovens e a linguagem universal é o adolescentês. Não fico bem em um mundo em que não há muito respeito pelo saber, não há muito interesse no passado, na História, na linguagem. Não me sinto a vontade em um desfile de rostos e corpos cada vez mais iguais e entediantemente perfeitos. Gosto do tempo. Do Tempo que faz a História. Do meu tempo que faz minha história. Gosto de ter sido criança. Gosto de ter sido adolescente. Gosto de ter sido jovem. E gosto muito que tudo isso tenha passado e que hoje eu tente ser adulta. Gosto de ter tido meu primeiro amor, minha primeira espinha, minha primeira aventura, minha primeira preocupação. Mas quero ter outras experiências. Quero ter mais, sentir a vida passando.
Porque isso, borboleta? Porque você está tão resmungona? Não sei ao certo. Talvez seja Alice - que nem vi ainda mas tanta badalação não me deixa tirar o Chapeleiro Maluco da cabeça. Talvez seja rebordosa dos embates em que ando usando as roupas e as armas de Jorge. Talvez seja porque mesmo as mais simpáticas velhinhas são algo ranzinzas. O certo é que amo cada vez mais essa tirinha do Garfield:

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