terça-feira, 27 de abril de 2010

Borboleta Tecnológica ou Como eu uso o Google Reader

Pra qualquer pessoa que me conheça minimamente deve soar muito estranho juntar, na mesma frase, meu nome e tecnologia. Não que eu seja contra a tecnologia, benzadeus, claro que não. Sou fã de pen drive, transmissão de tv via satélite, coisas misteriosas como telefone e leite condensado. E energia elétrica, então?
Mas que eu e a tecnologia não tínhamos hábitos parecidos nem chance de convivência pacífica, isso eu sempre tomei como certo. Afinal, como eu e ela podíamos ficar íntimas se eu sempre gostei de cadeira na calçada, dedilhado de violão e risadeira frouxa? Já a pobre tecnologia dificilmente se expunha no meio da rua, talvez com medo de pegar uma friagem, não sei, mas que ela gostava de cantinhos fechados e de um tete-a-tete lá isso ela gostava. Seguíamos assim, vidas paralelas e em razoável armistício. Eu era arisca e, mesmo, fã daquele dito/poesia do show Rosa dos Ventos da Bethania:
Dizem que há mundos lá fora
Que nem nos sonhos eu vi
Mas que importa todo mundo
Se o mundo todo é aqui.

Mas mudei eu, mudou ela, mudamos todos, quem sabe? O certo é que eu agora fico mais, ela sai mais e vamos nos paquerando, ou a bem da verdade, vou paquerando por ela. Meu jeito estabanado já não a ofende tanto e a reclusão que ela impunha e que eu não tolerava se diluiu em encontros virtuais com amigas e amigos tão queridos que zelam pelo meu juízo. Assim, assim, minha irmã/marida foi me iniciado em alguns mistérios órficos e eu fui me deixando seduzir. Além disso tarifas mais baratas sempre ajudam, né? Sem contar a torradeira elétrica, cafeteira, máquina fotográfica digital...De qualquer forma e de muitas formas, fomos acertando os ponteiros, eu e a Tec (posso chamar você assim, querida? não, ainda não? ok, kátia).
Mas eu devo confessar que a uso do meu jeito e não do jeito dela. O Google Reader, por exemplo. Eu sei, eu sei, a gente assina aquilo tudo que nos interessa pra não perder um tempo precioso indo de bar em bar, digo, de blog em blog, atrás do que se gosta. Pois bem, eu sei, mas não adianta não. Meu google reader fica ali, ali, entre moleque de recados e um dedo-duro meio Sindicato dos Ladrões. Eu vou lá, naquela página lindinha e organizadinha só pra vadiar de um em um nos meus blogs de estimação. É isso aí mesmo: vejo no reader que tem novidade e toda saltitante, ao invés de ler lá, quietinha e disciplinada, vou pra página original, com todas as suas cores, fontes, comentários e outros atrasos de vida totalmente deliciosos.
E assim segue a borboleta entre avanços tecnológicos e nostálgicas saudades do que nem conheceu. E com cadeiras na calçada e um café coado no pano, por gentileza.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Que passem os hunos ou Meus ódios de estimação

Lá, naquele cemitério que não me canso de frequentar, ódios bem pensantes a provocar os meus. Fiquei a matutar e matutar a dificuldade de fazer uma lista dessas. Não que eu não tenha os meus ódios de estimação. Tenho-os até em quantidade ímpar. É que eles não são tão bem ponderados assim. Quando chegam, hunos, é que os descubro. E logo os esqueço, ficando nem o amargo. Mas hoje é sexta-feira de saudade, vazia de aulas, a cerveja só será liberada às 18hs, há tempo para as birras. Ódio então a...

1. que me venham com relativizações. Não e não e não. Pronto. Não há comparação entre o piano jazzístico de Dick Farney e as pretensões musicais dos pagodeiros vigentes. Não há possibilidade de troca entre o devaneio estético de Kurosawa e os rompantes de James Cameron. Entre as incandescentes palavras de Cartola e as indecentes pretensões da Pitty. Não há paridade possível entre a liberdade de expressão e a prática da mutilação dos órgãos genitais femininos. Não há.

2. a generosa auto-complacência de quem se orgulha e até se gaba de comportamentos carentes de civilidade e honestidade intelectual. Ódio de quem para em fila dupla, pirateia filmes, dá um jeitinho, de quem - em pleno Brasil - se orgulha de desconhecer Lúcio Alves, Johny Alf, Eliseth Cardoso. Ódio inominável e avassalador de quem diz: não gosto de ler, como se aí houvesse uma indescritível virtude e não a ululante pobreza d'alma.

3. ao atraso. Não espero. Pronto. A não ser em romântico devaneio ou filho pródigo. A ausência de respeito ao outro de quem marca um casamento às 20:30hs e divulga 20hs no convite é caso a se pensar sobre pra onde caminha nossa moral. A desimportância que se dá ao Outro como sujeito ao submetê-lo a um atraso significativo não foi devidamente estudado na contemporaneidade. Detesto.

4. a glamourização da adolescência/juventude. Deve ser um defeito meu, sei lá, mas eu envelheço. Detesto a injunção seja jovem sempre e pra sempre. Eu gosto dos meus achaques de velhinha de 35 anos. Gosto da expressão do meu rosto hoje. Do brilho dos meus olhos. Gosto da lei da gravidade que deixa meu corpo mais macio. Tenho ódio das regras: tudo em cima. 55kgs. Botox. Rock e só. Academia de Ginástica no lugar da Academia de Letras. Não tenho nada contra hábitos saudáveis de alimentação e práticas esportivas (para os outros). Mas a homogeneização dos valores congelados na irritante adolescência me dá engulhos. Não nego a atratividade do frescor mas a limitação a ele me faz pensar o que seria, por exemplo, do cinema, se não houvesse uma madura Sophia Loren e sua giornata particolare. Ah, já sei, seria isso que é de avatares e cia ltda.

5. a naturalização da vida social. Não, eu não sou uma árvore. Nem um pato (embora, cantando, lembre um). As empresas não nascem nem morrem. Os vínculos sociais não brotam. Não suporto a idéia que vaga, prevalente, propagando uma lógica interna e própria de uma sociedade onde naturalmente eu sou privada de conhecer anfiteatros, óperas e livros como um natural exílio dada à geografia do meu nascimento. Ódio dos que arrastam a bandeira das diferenças culturais como lamacentas justificativas para a diferença de classes, gostos estéticos e inclinações afetivas e não, pelo menos, o contrário.

Ai, que delícia, despejar assim, de forma ávida e ácida, os ódios acalentados. Recomendo e agradeço a inspiração. Ah, pra terminar, devo confessar que tenho rompantes de desagrado quando me deparo com livros que queria eu ter escrito (A doença da morte), filmes que queria ter dirigido (Rebecca), frases que queria ter cunhado (quando sou boa...) e, principalmente, ódios que queria ter listado e que só me resta subscrever.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ela só quer...

Segundo a Nanica, tem gente por aí meio esprangida, querendo namorar. Como eu tinha muito o que fazer, deixei tudo de lado e saí catando beijo...

Agora, estão aqui a me inspirar a fazer menos coisas ainda...

Só pra deixar claro: eu que fiz. Menos dar os beijos. E registrá-los. E compor a música. E cantar. E todas as outras coisas artísticas. Mas juntei tudo. Deve valer de alguma coisa.





De qualquer forma, eis a inspirada e - como não dizer - inspiradora letra de A Tua Boca - Zeca Baleiro:

Não é veneno a tua boca
Quando chama a luz do dia
Quando diz que a chama é pouca
Quando ama tão vadia
Se reclama ser tão pouca
A outra boca que esvazia
Quando beija ou abandona
Quando clama entre as chamas
Quando chia...

Quando pia entre as ramas
Quando adoça é como ardia
Não é veneno quando mata
Quando salva e quando adia
Quando louca
Não é veneno a tua boca
Quando é coisa de magia...

Quando cobra que se enrosca
Quando água que se afoga
Quando forca que alivia...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Eu estou gostando de alguém...

Eu sou do tempo que a gente confessava assim: estou gostando de alguém. Pois é: eu estou. Na verdade, quem me conhece sabe que é paixão antiga.
Não tenho muita certeza do que me atrai: pode ser aquela timidez que dá vontade de ir lá e desvendar tudo, tudinho. Pode ser aquele peito que nunca enfrenta o mar mas tem toda cara de ter abraço estreito. Pode ser aquela boca quase em formato de coração ou fruta, sei não, só sei que é tentadora. Pode ser o jeito de ter sempre a coisa certa pra dizer. Podem ser as companhias que ele sempre as teve boas (sou meio esnobe, admito). Pode ser porque ele entende tão bem as mulheres e como quase sempre eu sou uma...Pode ser, pode ser, pode ser.
O certo é que eu gosto dele. Muito. As pernas tremem e as lágrimas muitas vezes comparecem. Gosto do que vejo sempre e gosto do que me surpreende. Gosto do que vejo sempre e às vezes me surpreende. Mas gosto ainda mais do que vejo sempre e é sempre tão confortavelmente o mesmo. Meu gostar é assim. Explicitamente reservado. Ou controladamente louco, depende do ponto de vista. Lembro sempre da bethania dizendo com uma voz tão direta que chega a ser sensual: Eu simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter, com outros eu simpatizo pela falta dessas mesmas qualidades e com outros, ainda, eu simpatizo por simpatizar com eles. Como eu sou rei absoluto na minha simpatia basta que ela exista para que tenha razão de ser...
Voltando ao meu bem amado. Eu não sei direito quando comecei a gostar dele. Foi meio sem querer e simplesmente assustador. Porque, claro, ele é de longe. Geograficamente também. Mas, principalmente, culturalmente. Eu sou meio...não, pra ser sincera, eu sou totalmente estabanada. E ele é fino, ah, isso ele é, por mais que se incline pro contrário. Mas como não ser fino vindo de onde ele vem? Difícil, né? Meu bem amado me faz mais eu: mais menina, mais ingênua, mais mulher da vida, de toda patente, mas suburbana, mais atriz, mais parada pregada na pedra do porto, mais gata, mais mulher, mais sirena, mais morena com olhos d'água, mais mais mais.
Gosto dos homens que me fazem sentir mais. Uma das coisas que gosto, gosto muito, é que ele me faz recordar coisas que eu não vivi mas é como se. Como se houvesse jaqueira, cheiro de jasmim nas almas e como se algum dia eu tivesse sido criança.
Fico a escutar vezes sem fim a suavidade que não é minha. Eu, se fosse você, escutava também.
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