sábado, 17 de abril de 2010

E por falar em saudade...

Esse quadro se chama Saudade, foi pintado por José Ferraz de Almeida Júnior e está na Pinacoteca de São Paulo. A foto, claro que não é minha, vejam como está bem enquadrada e tudo mais, é do meu dr. querido. O que mais gostei? Da lágrima que quase não se vê. Da luz. Da dor. E do brinco parece que vai sair do quadro. Juro.
E a propósito de quê estamos aqui, eu e a foto? É que, apesar do tempo delicioso, sentir falta parece que se tornou hábito. Então, só pra terminar de compor, um pouco de Clarice:

"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos."

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sorte na vida

Já disse e disse e disse que tenho vocação pra felicidade. É verdade. Além disso, tenho uma sorte surpreendente. A vida, as pessoas, meus homens, todos têm me tratado muito bem, com uma ou outra exceção pra fazer valer a regra. Vamos ver: trabalho. Sempre fiz o que gostei e se às vezes estive na pindaíba, outras vezes me pagavam bem paca pra coisas que eu provavelmente faria de graça, por exemplo, viajar meu Ceará todo, com amigos, fazendo reuniões com artistas. Sério, não estou inventando. E, hoje, faço o que gosto, onde gosto, com quem gosto. Bom demais. Ah, família, então: sou louca por eles, eles cuidam de mim, têm paciência com minha leseira crônica e até os agregados - cunhadinha! - vão mantendo o bom humor e o chamego. Ok, ainda não acreditam, pois vamos às amizades: quem tem um Paulo precisa do quê mais? Talvez de outro Paulo que surgiu assim, de repente, e já foi se alojando e, daqui uns dias, pelo andar da carruagem, será amigo de infância. E não estou nem mencionado os outros estrangeiros, as gurias da minha nova terra, as que vertem água e generosidade, as amigas do tempo do colégio que ainda me frequentam, as da faculdade que amo com loucura, os amigos de dançar e os de conversar, os amigos, os amigos, os amigos...Ah, borboleta, mas e os homens? Os famosos cafas, os canalhas, os sem jeito, os sempre malháveis homens? Então, sempre fui feliz. Desde o primeiro que sonhava ser caminhoneiro e me levar pelo Brasil adentro na boléia até os que recorrentemente decidiam que queriam se ajeitar e ser feliz pra sempre quando o que eu pretendia mesmo era ser um pouco usada, todos, todos, todos, até o que foi exceção pra confirmar a regra, me agradaram (eu sei, devia ser uma ênclise, mas assim fica melhor), me mimaram (idem). Sabe a música Teresinha? Pois quase sempre eles chegam mesmo do florista. E eu gosto assim.
Mas eu não estou escrevendo isso tudo só pra me gabar (embora faça parte do plano maior). Escrevo porque, apesar de toda a felicidade, de toda a sorte, às vezes se acorda de lundu, não é? Uma insatisfação que palavra nenhuma pode dar jeito, uma tristeza de se chorar sangue, um mau gosto em todas as alegrias, uma fome, uma ânsia, uma vontade...E, ademais, ainda tem o sofrimento do outro que a gente sente como nosso, aquele que a gente cala duplamente, aquele que nos amarra as mãos e amordaça os sonhos e como lateja a vontade de ir lá e tudo resolver. Sofro assim hoje, na vontade de ser a outra só pra ela não sofrer tanto assim, com vontade de ser colo, lenço, travesseiro, prato de canja, qualquer coisa que esquente e acalante. Sofro assim hoje, mas realmente tenho sorte, pois tenho aqui pra dizer e posso dizer e, mais importante, sei dizer: dói. E você me lê e amortece a dor na palavra que seu olho leva de mim.

sábado, 10 de abril de 2010

O Encosto Amália

Devido aos sucessos de filmes, novelas globais, papos de butequim e demais variações, devo confessar - sem pretender ofensas a ninguèm - que vez por outra me aparece o encosto da Amália Rodrigues. Só pode ser isso (esse diagnóstico fizemos eu e Aninha, então deve ser verdadeiro). Fenômeno interessantíssimo, quando comentava em terras virtuais lusitanas, já iam me surgindo inúmeros esses que se acentuavam se porventura era uma mensagem que eu escrevia. E haja tus e estás a pensar...Depois de detectado, claro que houve reação em massa dos meus neurônios e o mais autêntico cearensês retornou em expressões dignas de nota como paba e arrochado. Sem falar que escuto sem parar Elba Ramalho convocando que alguém a pegue pra chamegar (aliás projeto meu, desde já combinado, pra data 01 de maio). Eu já suspeitava que tinha um leve parentesco com a moça volátil da piada (quem não conhecer a piada, por favor, solicite explicação, é ótima). Realmente gosto de agradar, de estar próxima, de procurar a mais ajusta adequação, tudo métrica e rima e nunca dor e acabo extrapolando. Os que vêem de fora, amigos recentes, até se preocupam, oh, oh, será que ela se anula? Mas é preocupação escusada, o que é meu o gato não lambe.
Quando conheço alguém, vou fazendo meus mimetismos de amor. Sim, como a menina de Vinícius, até pergunto a cor da roupa para vestir-me igual. Esse amor pode ser aquele do nosso príncipe da vez, como pode ser um novo amigo ou, ainda, um texto, uma palavra, uma voz, um lugar. Não sei, só sei que adoro me descobrir em outros cantos distantes de mim e, me descobrindo lá, transfiro-me com CEP e tudo, depois é que vou voltando e me trazendo junto. Nessa fôrma e, principalmente, dessa forma, vamos torcer pra Amália já estar sossegada no seu canto e que eu tenha voltado, inteira e melhor, das terras lusitanas, embora ainda as frequente com carinho.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Una Giornata Particolare ou O Rio de Janeiro continua lindo...

Esse filme, tem duas das maiores interpretações que já vi, Marcello (meu marcelo de sempre, meu e de Anita, vá lá) e Sophia Loren, brilhantes e despojados de seus louros usuais. Sofridos. Impotentes. Trágicos. Suavemente belos. O que mais gosto no filme - e não só eu, zilhões de críticos, cinéfilos, apreciadores, passantes de ocasião, etc. - é a capacidade de individualizar temas e situações ao mesmo tempo em que se apresenta um quadro crítico e profundo da história. História e histórias se entrelaçam. Há um drama humano único e uma História plena e universal e os dois são lados de uma mesma moeda. Pior são o mesmo lado, porque do outro estou eu.
A propósito de quê esta lembrança? As chuvas no Rio de Janeiro que me tiram o sono. Tanto sofrimento, tantas perdas, tantas mortes. São enormes e incompreensíveis estas dores. E tem aquela dorzinha miúda, quase tímida de existir por sua irrelevância, mas ela insiste. A dor de perder as cartas de amor do namorado, a dor de perder a coleção de discos de vinil, a dor de não ter mais aquela cantinho que você passou anos arrumando pra ficar com a sua cara, a dor, a dor, a dor. Eu me comovo e sofro com todas. Com o grande vazio que é perder a esperança, como definiu uma sobrevivente que não encontrava seu filho de seis anos, "é muita terra sobre meu menino". Com a devastação emocional de não ter referências materiais de toda uma vida vivida - fotos, livros, discos, casa, vizinhos. Com as pequenas inconveniências cotidianas que parecem tão enormes para não se sentir o que realmente dói e atormenta. Com as histórias de cada um, eu só penso isso: cada um que ama, sonha, come, dorme, tem ciúme, beija, ri, igualzinho a mim, a cada um deles agora só fica um enorme silêncio de não poder dizer tudo que falta.

PS: Uma sensível, inteligente e muito mais completa abordagem desse filme encontra-se aqui: 50 anos de filmes.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Sobre samambaias e outras formas de querer bem...

"...você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado,
assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você
esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala,
uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira,
é, não estou sendo agressivo não,
esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira,
mas nunca, em nenhum momento, essa coisa enorme
que me obrigou a abrir todas as janelas,
e depois as portas,
e pouco a pouco derrubar todas as paredes
e arrancar o telhado para que você crescesse livremente"

Pois é. Você já sentiu todas as suas idéias, todas as suas certezas, todos os seus hábitos, rotinas, costumes, tudo, tudo, tudo que faz você ser um você ser questionado? Eu não. Tem certas coisas em mim que são minhas, que são eu, que me acompanham e ficam, por vezes sorrateiras, esperando a hora de me afirmar. Mas eu já senti esse lance aí do Caio Fernando Abreu. Sinto. Uma coisa que não era pra ser, assim, tanta coisa, mas acaba sendo? Então. Essa plantinha toma de assalto. Exige luz, água, adubo. Para ser bem sincera, exige não é a palavra certa. Demanda. A gente fica refém da nossa própria vontade. A gente não. Eu. Eu fico presa ao meu próprio querer. Querer mais. Querer bem. Querer tudo de uma vez. A paciência nunca foi meu forte.

Eu tenho tempos de descobrir ou redescobrir um autor, um livro, um filme. Agora, nesse tempo de já, estou vendo o quanto CFA me advinha. Vou lendo e tudo parece que fui eu quem disse. Pior, parece que é o que ainda vou dizer. E, pior ainda, é que vendo as frases, dá logo vontade de criar a situação para dizê-las. Eu sou assim: crio as minhas histórias. Mas quem não cria? Eu, pelo menos, sei. E me deixo levar mesmo assim, porque qual é a graça de viver senão viver? Assim, agora, estou molinha, molinha, parece até que deitei a cabeça num ombro e saí arrastando o corpo ao som de Elba e seu "pegue devagar, me pegue pra chamegar." Aceito o baobá que cresce no meu coração como o Pequeno Príncipe jamais pôde aceitar a sua rosa. Com o reconhecimento claro de que meu coração é campo minado. Terreno alheio. Terra prometida. Não importa a metáfora, com o claro reconhecimento de que abrir janelas, portas, derrubar paredes e arrancar telhados é o que faço de melhor.

Mesmo, mesmo, alguém pode dizer, com certeza, que o Caio Fernando Abreu não escreveu isso pra eu repetir?

Você esta tão longe
que às vezes penso
que nem existo


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