quarta-feira, 31 de março de 2010

Com voz cansada, mas coração célere...

O meu juízo tornou-se vitrola e escuto, sem cessar e na voz de Bethania, de repente fico rindo à toa sem saber porquê... E talvez saiba: viver é muito perigoso. Mas encantador.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Ao meu leitor prometido...

"Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros.
Há no ser humano, e ainda nos melhores,
uma série de ferocidades adormecidas.
O importante é não acordá-las.”

Nelson Rodrigues


Nunca fui boa em seguir conselhos, mesmo que venham do querido Nelson. E, apesar de ser fã de Capra, não sou muito otimista. Nem gosto muito deles. Gosto dos cínicos, dos breves, dos amargos. Gosto de Bogart, Wayne e Gable. Gosto do inesperado de generosidade, coragem, renúncia que acomete os desiludidos e egoístas. Quem deixa Ingrid Bergman ir embora com outro homem, peloamordedeus? Quem mata o facínora e permite que outro leve a fama, porque isso é o certo a fazer? Quem vai lutar uma guerra perdida, depois de perdida, sabendo que está perdida, porque não poderia amar mulher nenhuma se não amasse muito mais a honra? Quem faz istos (no plural mesmo)? Quem? Eles. Os cínicos. Os canalhas. Os párias. A eles o meu mais terno amor. Eu gosto das fragilidades humanas. Gosto do ciúme, do ridículo, das fúrias e das lágrimas. Aprecio os erros. Parece-me que são as incompreensões, as impossibilidades, os defeitos que tornam ser humano tão divertido e interessante.

E a propósito de quê isso tudo? É que tenho um novo leitor. Não sou eu que digo, é ele mesmo, em gentil mensagem em que desculpa suavemente meus arroubos indiscretos. Se eu fosse uma pessoa boa, isso pararia lá mesmo. Mas eu sou fã da Mae West (quando eu sou boa...quando eu sou má...vocês conhecem o resto), então ao invés de simplesmente agradecer a delicadeza, um post. Pois se já ruborizei, cumpre agora fazer por merecer o sangue nas faces. Conheci (por assim dizer) o senhor PN em um acaso, atraída pela palavra Doniphon. E fiquei presa. Presa à potente promessa subentendida de que mais belezas de estilo e verve se colocariam. E se colocaram. Nestes tempos de internet (meu deslumbrado tempo, que a outros já passou, outros não chegaram e há quem simplesmente deixe passar) ainda me parece insólito apreciar palavras e – já que já foi confesso – rosto, de quem sequer me foi apresentado. Sim, como em Orgulho e Preconceito há alguma coisa latente na desinibida Borboleta que fica a esperar ser apresentada antes de colocar o nome do maroto em sua caderneta de danças. Mas este tempo, eu dizia, de não-fronteiras cria falsas(?) ilusões de proximidade e, de tempos em tempos, vejo-me a troçar e a chamar de amigos os desconhecidos de além-mar.

E é assim que este post se transforma em pergunta, meu caro novo leitor, devo voltar à minha pálida e silenciosa audiência em seu cemitério ou já passamos a um ponto outro onde o termo amigo, tão despreocupadamente usado nos facebooks e orkuts, passa a ter um significado de sim, vamos nos falar, conhecer, apreciar?

Morreu

Muito triste. Eu fico assim quando morre este povo que eu conheço e não me conhecem. Porque nunca falamos, nunca discutimos, nunca nada. Eu nunca perguntei assim, na bucha, qual a melhor seleção de todos os tempos. E se ele não ficava muito desolado de sermos uns poucos que ainda desejávamos com ardor a arte no futebol. Ele morreu. Agora a pouco, ele morreu. Leva com ele todas as frases sagazes e análises poéticas que ainda não tinha feito sobre tudo que ainda não aconteceu.
Torcedor do Botafogo, explica-se porque era um devotado. Filho de cearenses, talvez (eu disse talvez) por isso o surpreendente humor que às vezes assomava em sua fala. Cobriu todas as Copas do Mundo desde 1954 (sabe-se lá o que é isso de acompanhar de Nilton Santos e Didi até Ronaldo e Ronaldinho - tendo, claro que aturar Dungas e Mauros Silvas, mas isso acontece). Ético e digno (quem não conhece a história de sua saída da Rede Globo?). Como eu não vou querer bem a um que diz: Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio ou Se Pelé não tivesse nascido homem teria nascido bola?
Pois morreu, assim, hoje, como se morre em quase todo mundo: num de repente. De repente até as quatro linhas ficaram mais tristes e enviesadas. De repente uma voz a menos, uma vez a menos. Uma verve a menos. O mundo eu não sei, mas que eu vou ficando mais triste, lá isso vou.

domingo, 28 de março de 2010

Sobre vícios, mortos e blogs...

Meu vício é você, meu dadinho, meu jogo de cartas marcadas...
(na voz rouca de Alcione, please)

Ví-cio. sm (lat vitiu) 1 Defeito físico ou moral; deformidade, imperfeição. 2 Defeito que torna uma coisa ou um ato impróprios, inoperantes ou inaptos para o fim a que se destinam, ou para o efeito que devem produzir. 3 Falta, defeito, erro, imperfeição grave, viciação, viciamento. 4Disposição ou tendência habitual para o mal. 5 Hábito de proceder mal; ação indecorosa que se pratica por hábito. 6 Costumeira. 7 Costume condenável ou censurável. 8 Degenerescência moral ou psíquica do indivíduo que, habitualmente, procede contra os bons costumes, tornando-se elemento pernicioso ao meio social, ou com este incompatível.9 Desmoralização, libertinagem.

No dicionário o vício não tem a menor chance, comportamento a ser execrado, abandonado, esquecido. Costume condenável, não há perdão para ele. Fora do dicionário, o vício foi trilhando caminhos limítrofes e sendo redimido por algumas frases - senão verdadeiras - pelo menos inspiradas e/ou inspiradoras:

Os homens são melhor governados por seus vícios que por suas virtudes (Bonaparte).
Pessoas sem vícios têm poucas virtudes (Lincoln)

Na rua, nas bocas comuns como a minha, vício torna-se aquilo sem o qual não podemos viver, sejam comportamentos ditos nocivos como fumar, hábitos como assistir determinada série de tv ou ainda preferências subjetivamente determinadas como um vício não registrado no CID- 10 de assistir vezes sem fim os filmes do John Wayne, whatever...

Nunca tive vícios, a não ser a alegria (e, claro, uma tendência a desenvolver dependência por filmes western que não pôde se desenvolver adequadamente dado o abandono quase total a que expuseram o gênero) . Mas, agora, sem pesar, devo reconhecer que esta situação mudou. Estou, é fato, verdade, real, viciada em um blog. Que não é meu (rsrs)! Já acordo a pensar: será, será, será que há novidades e, mais esperançosa ainda, será que as palavras são do Sr. Manuel? Cheguei despretensiosamente a este cemitério, atraída por um post supostamente inocente de um outro autor do blog (Pedro Norton) que é reconhecidamente culpado de escrever tão encantadoramente e de ter com as palavras uma intimidade de fazer ciúme a qualquer aspirante a poesia. Mas enfim, agora não saio ou chego perto de um computador sem dar uma passadinha lá. E porquê? alguém viciado em indagações pode dizer. Porque sim, eu poderia responder, mas não, abrindo mão do meu ciúme (não pode haver outra explicação para o link do étudogentemorta não estar entre os meus favoritos) tentarei dizer o que me prende e é simples: o tratamento dado à palavra. O incrível respeito que se tem, lá, com a construção das frases, a sonoridade, a integridade da língua. Como é belo acompanhar raciocínios lógicos e, ao mesmo tempo, festivamente irônicos ou bem humorados ou criativos...Há, ainda, a extrema gentileza do sr. Manuel de sempre responder - e melhor, espirituosamente - a todos os comentários. E há textos sobre livros, sobre filmes, sobre gente morta (claro), sobre nada - que são, talvez os melhores...

A propósito de quê - aquele mesmo viciado em perguntas dirá - este assunto surgiu aqui entre borboletas? Rousseau diz: sou escravo pelos meus vícios e livre pelos meus remorsos. É culpa. Uma imensa culpa, vermelha culpa, esmagadora culpa. Já a tempos frequento o étudogentemorta e gozo da serena continuidade da beleza e do estilo. Partilhar que é bom, nada. De repente, numa manifestação de delicadeza, eis o meu próprio nome/blog em um post lá, de onde vem a beleza. Então, corro aqui, escorraçada pelos meus remorsos, a digitar de forma rápida e sem estilo o arremedo do texto que já deveria existir a tempos sobre os mortos e as palavras vivas a seu respeito. Os amigos, espero, perdoarão a avareza que determinou a demora na partilha. E, se forem suficientemente viciados na indagação sobre o vício dos outros, irão lá e, se tiverem sorte, não sairão vivos.

terça-feira, 23 de março de 2010

Disque M para Matar...

Eu estou vestida com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham pés, não me alcancem
Para que meus inimigos tenham mãos, não me peguem, não me toquem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo um pensamento eles possam ter
para me fazer mal

É isso aí. Hoje estou pra briga. Não, não estou de mau humor, estou fazendo como a Marquesa, paramentando-me para o combate. Eu sempre considerei a preparação essencial para uma boa batalha. A ruminação dos maus sentimentos nos reveste com fúria implacável e uma certa dose de crueldade. Eu não gosto muito de confusão - embora tenha um fraco por filmes/livros de guerra e seus estrategistas. Sou da paz, do amor, do riso frouxo, do vamos pedir mais uma rodada...Mas tem coisas que não dá mesmo pra aturar. O pouco uso da inteligência que deus nos dá, por exemplo, é uma coisa que me irrita sobremaneira. A outra é alguém me chamar de burra, se não for assim, diretamente, olho no olho. Porque quando é olho no olho, vá lá, a gente respeita pelo menos a coragem. Então, hoje, não faço nada, não escrevo e não leio,não estudo, não danço, apenas preparo a pintura de guerra, afio a espada, confiro os revólveres e a cartucheira, e me ponho, vestida para matar, a esperar a hora do embate. E, mais tarde, a celebrar ou a chorar os mortos, quem sabe volte a ser mulher da palavra. Por agora, fico com uma só frase, novamente Merteuil: pois bem, guerra!

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