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quarta-feira, 9 de maio de 2018

Férias


A cura para qualquer coisa é água salgada:
o suor, as lágrimas ou o mar





Hoje meu ano começou. 

Dizem que o mar cura tudo (sei lá quem disse, provavelmente eu mesma). Arde. Limpa. Cicatriza.

E é lua minguante. Fui procurar o horário que surge e desaparece e fiquei sabendo que é um bom momento para passar a régua e fechar a conta. Let it go. Ficar à deriva primeiro, depois deixar a lua balsâmica fazer seu trabalho. Tempo de descanso. Li tudo isso e achei graça da sabedoria que nem sabia que tinha. 

Uma daquelas coisas aleatórias que passam a parecer coincidência e ganham sentido a posteriori: tô “descascando”, trocando de pele, né. 

Status: convalescente.

Uma coisa que eu faço quando estou de férias é não trabalhar. Olha, recomendo. 

Vantagem do cabelo curto é que é rapidinho lavar o cabelo depois do banho de mar, nem dá preguiça. 

Dizem que o mar cura tudo. 
Dizem que os cães vêem coisas. 
Dizem que os significantes deslizam. 
Parece que é tudo verdade (não toda, porque dizê-la toda, etc) 

Eu geralmente sou bem condescendente com romances policiais e afins, mas esse Álibi da Sandra Brown bate recordes de chatice, ruminação inútil e ineficiência em relação a manter o suspense e desenvolver trama e personagens. 

Enquanto handmaid’s tale vai praquela coluna “obrigação e curiosidade”, westworld continua me enredando mesmo apresentando uma dezena de personagens novos por episódio. E fica aquela esperança do Anthony aparecer numa palhinha, né.

Por aqui: águas profundas.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Magoar


Tem esta parte na gente (a gente sou sempre eu) que está constantemente dolorida. Como se a alma tivesse esbarrado em algo contundente e se a gente não mexe, quase não incomoda, mas se algo encosta mesmo sem querer, a respiração falha com a intensidade da dor.

Acho bonitinho como a gente dizia, na infância: magoar a ferida.

Daí a Juliana mencionou um livro da Tana French e eu mergulhei nele. Um daqueles policiais que o crime é um bom mote pra gente pensar sobre ser gente. No caso, adolescentes, amizades e amadurecimento. Acho que nessa época a alma leva umas pancadas que ficam sensíveis, naquele modelo acima, pro resto da vida.

Na minha caixinha acontecem coisas estranhas. E lindas. Como uma oferta de mar, amor, rede e cumplicidade. Estou contando os dias? Estou contando os dias.

Tem aquela parte no livro, que o moço fala que a amizade “congela” a gente. E aquela outra de todas as vidas potentes na fotografia, a que foi e todas que a mulher não viveu, mas poderia. E aquela cacetada que é redescobrir que o eterno é, justamente, porque já não existe. Só assim, nunca mais deixará de ser o que foi.

Senhor, dai-me dinheiro porque discernimento eu já abri mão.

Eu não gostava de tumblrs. Sei lá se já gosto. Mas gosto do meu. Um tanto pela série Ofélias. Como era mesmo... a beleza é o véu que encobre o horror da falta. E vício e verso. Ou algo parecido. 


"As pessoas possuem cicatrizes. Em todos os tipos de lugares inesperados. Como mapas secretos de suas historias pessoais. Diagramas de suas velhas feridas. A maioria de nossas feridas podem sarar, deixando nada além de uma cicatriz. Mas algumas não curam. Algumas feridas podemos carregar conosco a todos os lugares, e embora o corte já não esteja mais presente há muito, a dor ainda permanece...(...) Talvez velhas feridas nos ensinem algo. Elas nos lembram onde estivemos e o que superamos. Nos ensinam lições sobre o que evitar no futuro. É como gostamos de pensar. Mas não é o que acontece, é? Algumas coisas nós apenas temos que aprender de novo, e de novo, e de novo..."

Eu já disse por aqui... entre a ferida e a cicatriz, a pele fininha. E os cuidados que devemos ter. Reconhecer a fragilidade. E apreciar o desenho que a vida vivida imprime no outro e na gente. Eu já escrevi lá pelo biscate: se a ferida estiver demorando a fechar, inchada, com vermelhidão a muito tempo, dolorida ao toque, ou ainda se você estiver com dificuldade de deixar a casquinha fazer o trabalho dela, ficar cutucando, etc, procure um médico. Ou uma canção.

(eu me repito? sim, eu me permito)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Vespeiros

Nem todo homem. Nem todo homem. Nem todo homem. Aliás, nem toda mulher. Nem toda criança, nem todo idoso, nem todo jovem. Para as mudanças estruturais, pesquisas, dados, análises, debates. Para o cotidiano, o particular, o próprio, o que faz único, humanos.

Na queda de braço entre saúde no futuro e prazer agora, prazer agora.

Eu devo ser o cara que vocês pegam na balada pois: autoestima da porra.

Arroz por baixo, feijão por cima. Mas, mais verdadeiramente, feijão por baixo, farinha por cima e depois mistura.

Pode fantasia. Fantasia é justamente não identidade. E conta, de forma inequívoca, o que precisamos saber. Não se muda fantasia por decreto. Nem mesmo as de carnaval.

Eu não estou aqui pra perdoar. Nem pra julgar, aliás.



Escreveu “macho” ou “fêmea” e suas derivações, já sei que não vamos convergir. Não importa o que se argumente antes ou depois, o uso da termo indica uma essencialização da humanidade.

Aliás, sobre saúde, eu tenho birra do debate sobre alimentação saudável porque é pautado pelo público classe média 20-50 anos do sudeste. Só lamento.

Nem toda falta de noção é mansplaining.

As pessoas no twitter se acham mega rebeldes, revolucionárias e ficam debochando do povo do FB. Nada mais trivial que isso.

Minha peleja é pra mais pessoas terem mais acesso a mais direitos e não para que as pessoas que tem acesso a (alguns) direitos os percam porque nem todo mundo tem.

Democracia manca é melhor do que nenhuma democracia.

Sou apegada: ainda considero o pensamento de Freud, Vigotsky, Lacan e dos frankfurtianos de primeira geração, o que há de melhor pra se entender um tantinho as estruturas e dinâmicas das pessoas, grupos, movimentos sociais. 

Tenho preguiça da pessoa que: "ah, não quero chamar atenção, mas" aí faz, pela centésima vez, a mesma coisa que fez antes e chamou atenção. 

Esporte é uma forma de arte. Sim, vou acompanhar as Olimpíadas de Inverno.

*********

Devo confessar que ando apaixonada:



terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Cômodo

 Eu adoro o carnaval dos outros.

Quando foi que eu virei a louca da viagem?

Oxigênio: o ano está na sexta semana e eu já reli 12 livros bobos e 4 das minhas bíblias.

Reclamar é divertido, mas no fundo no fundo eu sou uma boba alegre.

A Ju é a Juliana-Fina-Flor-Que-Não-É-Mais-FF-Mas-Sempre-Será mesmo.


A Iara compartilhou uns posts bem legais sobre decoração e, em um deles, o moço explicava o que cada cômodo da casa representava para as pessoas. Este artigo, especificamente, era interessante, mas tinha um monte de furo na teoria, pra começar só funcionaria se as pessoas morassem sozinhas, começassem a decoração do zero (sem presentes, sem heranças) e tivessem acesso a todo dinheiro e oferta de itens necessárias a seu gosto, mas divago.

Eu ia falar mesmo era da minha casa. Faz muito tempo que não quero que ela seja a minha casa, é grande demais, com escadas demais. Mas fui ficando e, assim, ela foi crescendo em mim. O ambiente com o qual me importei de verdade foi a cozinha e ela me faz feliz (embora eu nunca tenha tido o $$ pra fazer tudo que queria, o que tenho me alegra). Ao fazer a cozinha, me fiz. Hoje eu sou uma pessoa que tem temperinhos, que faz pão, que reduz balsâmico, que arruma a mesa com porcelana e cristal pra comer sozinha. Gosto desta eu.

Agora, tenho vontade de um escritório. De ser a pessoa que se estica na poltrona amarela no fim do dia pra tomar um vinho e ler livro fora do kindle. De ser a pessoa que deixa o notebook no andar de baixo. Que imprime as passagens em casa. Que enche um painel de aço com fotos. Que se cansa de trabalhar e fica brincando de girar na cadeira estilo diretor. Que tem pastas organizadinhas com documentos e um pote bagunçado com papéis coloridos. Que escreve recados. Que tem um pote com grãos de café como odorizador da sala. E canecas na estante. 



 Dos mistérios: quando guardarei dinheiro para... 

Colocar os ventiladores de teto nos quartos? 
Arrumar os banheiros: boxes, exaustor, bancadas? 
Consertar o vazamento do vizinho?

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Pizza, tempo e escrita

“Jamais escrevi, acreditando escrever, 
jamais amei, acreditando amar, 
jamais fiz coisa alguma 
que não fosse esperar diante da porta fechada”.

Quando a vida está difícil, uma boa massa, queijo, bacon e vinho. 
Quando não está, também.

Manda carta, bilhete, postal. Manda cartão de natal no meio do ano. Boas festas, quando quer que elas aconteçam. Manda notícia de quem você é, de quem nós fomos, de como nos sabermos ajuda a respirar.

Então tá combinado é quase nada é tudo somente sexo e amizade e a convicção que os russos escrevem os melhores romances.

Você ainda não está com fome, mas já já vai ficar. Tem a preguiça de descongelar alguma coisa. Tem a falta de vontade de comer algo parecido com o almoço. Tem a saudade de ingredientes de outras paragens. O orçamento do mês já no vermelho. Você não quer pedir uma pizza. Você vai acabar pedindo uma pizza.

Não esqueçam de dar uma passadinha na Central do Textão.

Quando você gosta muito da pessoa, mas tem um pouco de preguiça porque ela já leu tudo, fez tudo, pensou tudo.

Eu sinto saudade de quem eu era quando vocês me amavam. E sinto ainda mais saudades de quem vocês eram quando eu os amava.

E eu que achava que entendia o tal “rosto destruído” da Marguerite Duras. Sabia de nada, inocente. Depois desta espinha enorme, magoada, não cicatrizada, um rombo perto do queixo, fora toda a rosácea, aí sim, entendi o rosto destruído. O que pode ser uma excelente notícia, logo, logo vou passar a viver em hotéis e quem sabe alguém me diga: “Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você era bonita quando jovem; venho lhe dizer que, por mim, eu a acho agora ainda mais bonita do que quando jovem; gostava menos do seu rosto de moça do que do rosto que você tem agora, devastado”.

Ler é mesmo oxigênio.

Comprar uma caixa bonita e papeizinhos coloridos e todo dia escrever uma memória gostosa, um encontro legal, um pedaço de livro, qualquer coisa que seja eu. Quando ficar velhinha - se ficar velhinha - e esquecida,  ler e me apaixonar por mim mesma. 

Também vou comprar um baralho de tarô ou uma daquelas caixas de versículos da Bíblia. Se vou viver de histórias, que pelo menos tenha roteiristas consagrados. 

Os livros da MD tem sempre essa capacidade de me fazer lembrar que bons sentimentos são inconvenientes, a esperança é superestimada e quanto mais amamos, mais sozinhos estamos.

Você não pediu a pizza. 



O azul é minha terra vermelha de Tara

Eu estou preparada para a minha morte. Não garanto as demais.

Minha mãe se preocupa que eu passo tempo demais sozinha em casa por isso desisti da tapioca e vou trocar de roupa pra comprar pão.

Eu leio uma série chamada Mortal. É um lance policial, mas passado no “futuro”, com muitos trechos que fariam os autores de “momentos íntimos” corarem. É bem fraquinho, mas eu me apeguei e a Nora Roberts não para de escrever, já vai em mais de 20 títulos.

E quando chega a madrugada, releio Marguerite Duras. Ela e Clarice talvez sejam as escritoras mais “minhas”. Ambas contam muito pouco, a narrativa é interna, o pensar, o sentir, o querer. Talvez seja tática diversionista acreditar em uma “rica vida interior”. Minha mãe se preocupa que passo tempo demais sozinha em casa, já contei?

Eu queria mesmo, mesmo, mudar o layout do blog mas, como tudo o mais que eles fazem pra simplificar na área de tecnologia, o que antes era fácil tornou-se uma tarefa chata, demorada e quase impossível. 

Uma coisa que tenho que aprender a fazer sozinha: ir às praias daqui.


Tem gente que diz que blog diarinho é uma forma de falar sozinha. Sorte minha que eu falo com a Ju.

Quando a gente sente saudade, sente saudade até do alho.

Suspeito que o azul é minha terra vermelha de Tara.

Estava vendo Food Network e eles falaram por lá que a tendência culinária de 2018 é comida queimada, gosmenta (viscosa), incendiária. Olha, sempre achei que eu levava jeito pra profeta, quem me conhece faz tempo lembra das minhas tentativas de arroz.

Nada nos protege da nossa capacidade de errar. 




Eu tenho um bocado de outros blogs. De vez em quando penso em desativar, deletar, essas coisas. Mas tenho pena, são nomes tão bonitos: cais de saudades (viagens), em fogo alto (comida), farinha do mesmo saco (pra fazer um blog coletivo), estrangeiros na terra ( foi um blog coletivo), só miolo de pote (idem), crème de la crème (era pra substituir o borboletas, quando eu tava meio cansada daqui), eu sou a graúna, garrafinhas da lu, olhos da borboleta (pra replicar textos, frases, poesias, coisas que não fossem minhas)... isso sem falar os tumblrs: Cheira bem, cheira a Lisboa; não larga da minha mão e o Quase Sempre em P&B. Acho que isso diz muito de mim, só não entendi o quê.

Talvez minha mãe tenha razão e eu passe tempo demais sozinha em casa.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Cresce feito mato

No jardim das vidas não vividas, arrependimento é mato.

Aquela dúvida entre comida gostosa e sujar a cozinha limpinha.

Ontem passou na minha tl uma imagem do filme “As 7 Caras do Dr. Lao”. E eu fiquei pensando no quanto fui sendo despretensiosamente forjada por tantas sessões da tarde e corujões. Tenho absoluta convicção que eu nem seria eu sem ele. Aprendi sobre pessoas enzimas catalisadoras. Sobre desejo. Sobre a mágica das/nas desimportâncias. Aprendi sobre a importância do olhar do Outro, do reconhecimento do Outro pra que nossa própria magia aconteça. E aprendi sobre como encarar a compreensão de um futuro de solidão e esquecimento com, como direi, elegância?

Acho que desaprendi a viver o cotidiano. Apesar disso aquela alegria levinha de encontrar a amiga na porta do shopping.

você lembra, lembra, naquele tempo eu tinha estrelas nos olhos...

Não sou de nostalgias, mas sinto saudades da psicanálise.

Assistindo Trapped e pensando que morar no semiárido nem é de todo mau.



Vira e mexe é preciso recordar:

"Sabe porque, visconde, nunca tornei a me casar? Decerto não foi por falta de encontrar partidos vantajosos; foi simplesmente para que ninguém se desse ao direito de questionar meus atos. Não que eu temesse não poder mais realizar minhas vontades, pois isso eu sempre acabaria por fazer; mas me incomodaria o mero fato de alguém sentir-se no direito de queixar-se; e enfim, porque queria trair apenas por prazer, e não por necessidade"

...e às vezes é muito, muito difícil, sustentar.




quarta-feira, 19 de julho de 2017

Ponto, parágrafo.

A sensação é de sufocamento sempre que tenho que lidar com a burocracia - e não, não acho que burocracia é horrível e precisa ser exterminada, acho que ela tem uns méritos relevantes, mas todas as vezes acabo me sentindo incompetente, meio limitada e um tanto lesada.



Da série despesas inesperadas que deviam ser esperadas: comprando óculos.

A vida seguiu, estes dias: terminei um livro empancado, tenho mantido a pia limpa (melhor dizendo, tenho limpado todas as manhãs), dei aula, fui a reuniões, me entretive no fogão: panquequinha, chapéu de couro, costelinha de porco, tapioca, feijão.

Não sei se futebol é o ópio do povo, mas certamente me mantem quentinha, segura e confortada.

Status: pedro pedreiro.

E quando dói, respiro.

Em outro dia, uma amiga falou dos livros na mesma outra língua: o desconforto de pegar, por engano, um livro traduzido em português de Portugal. E eu fiquei pensando como fui me misturando nas linhas e palavras e letras e sentidos e os autores portugueses, moçambicanos, angolanos, que eu nem suspeitava, se tornaram tão meus como meu Machado. E lembrei daquele que aprendi a amar – e a quem esta palavras por vezes assombra – que já antes me dizia que eram, dele, todos, que não abria mão de nenhum rosa ou Drummond, pois não era de geografias que se tratava.

100 dias sem ela. 

Ninguém perguntou, ninguém quer saber, mas eu conto mesmo assim: sou melhor professora do que sei menos.

Sobre a não sei qual temporada de GoT que estreou esta semana: eu gosto de Sansa desde a primeira temporada e Daeneryzzzz me dá sono desde a primeira cena (antes, pelo menos, eu me animava que quando ela aparecia aumentava a chance de ver o Jorah, agora nem isso). 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Inóspito

A verdade é que é um mundo inóspito.

E essa sanha punitivista me assusta, sempre.

Tenho enrolado bastante nesse negócio de colocar ponto final. Não tenho certeza se tenho medo de lidar com o que vem ou temo abandonar o bom que já se foi. A verdade é que eu devia estar no divã.

Queria muito que o calendário voltasse ao normal. É muito chato começar o semestre já meio cansada.

Quanto mais o Gil envelhece, mais se torna (dos) meu(s).

Eu nem ligo pra roupa, mas queria muito, muito, o guarda-roupa da Edith. Sim, tenho revisto Downton Abbey. Sim, significa.

Três livros em três dias. Futebol. Pizza com amigos. Documentário da Gal. Pão. 

Do que mais gosto é do que não serve pra nada. A gente diz, com riso no olho: “não vale uma cibalena vencida”. Gosto do que existe sem propósito. Ou ainda, do que vivemos sem propósito além do próprio desfrute do que é. Não é para. Para emagrecer, para aprender, para ficar saudável, para empoderar, para seduzir, para ficar em forma, para conquistar, para manter, para acabar. Vive-se e é. Ou está.

Mas você quer que tudo caia no seu colo? Sim.

Luciana, você quer voltar? eu quero é ir. 

Se ela tivesse a coragem. Mas não tenho, Vinícius.



segunda-feira, 29 de maio de 2017

Molotov, com gelo

Recomeça a semana, redobro a atenção: vamos ficar de olho nas reformas, gente.

Andaram me cobrando uma postura mais clara, incisiva, militante, etc. Olha, eu achava que era óbvio, mas se não é, esclareço: eu sou miúda. Não sei do movimento das grandes placas tectônicas. Não sei os nomes, as ligas, os rumos, as possibilidades, os detalhes escabrosos, a variedade de análises, as informações imprescindíveis. Eu só tenho aquela bússola no peito (e é bom porque aí ocupa o lugar que o ausente coração deixa vago). Ela serve pra mim. E só pra mim. Muitas vezes nem sei explicar direito porquê, apenas sei pra onde ir (o que, claro, muitas vezes me faz parecer sabida, a galera chega depois das reflexões e eu já estou lá. Mas não, eu não pensei mais rápido. Eu apenas não pensei).

Ou seja: eu tô por fora mesmo.



Como a gente sabe pra quando solicitar as férias se não tem nem idéia do calendário letivo?

Acho que o que dá a exata dimensão das minhas limitações é: eu não faço massa em casa.

Eu sinto falta de sentir sua falta.

A verdade é que eu tenho muita preguiça. Inclusive de sofrer. 

Eu fico meio perplexa com as pessoas que querem utopias sem lidar com os dados da realidade. 

Eu tenho uma certa inveja de quem só percebe no depois. Tenho a impressão que fica um resto por usufruir. Eu era feliz e sabia. 

domingo, 21 de maio de 2017

Milhões



Não com muita frequência, mas um número razoável de vezes, eu já pensei: e se eu ganhasse na mega-sena/euromilhões? Era o caminho único, achava eu, para ter uma quantidade absurda de dinheiro. Hoje eu já sei que, em algum lugar, pode ter uma conta com 150 milhões (de reais? de dólares?) no nome de outra pessoa, mas destinado a mim.

Caso exista, favor passar a senha.

Enfim, eu fazia planos, quando pensava nos milhões. Muita gente já os ouviu em viradas de noite com cerveja e conversa fiada. Mas enquanto a senha não chega, vou jogar conversa fora aqui também. Eu largaria o emprego pelo tempo que durasse o dinheiro. Tem gente que fala que ainda trabalharia, mesmo rica e tal. Eu, não. Por mais que goste do que eu faço, gosto mais de não fazer nada ou fazer só o que quero, quando quero e tal. Então, nada de trabalho pra mim. Em uma certa época, pensei em uma fundação, ong, qualquer coisa do gênero. Mas eu seria figura decorativa, pessoas engajadas e competentes tocariam o barco. Eu tiraria uma parte da grana pra viver um tempo como na Babylon do Zeca Baleiro e o resto seria pra mudar o mundo.

Depois, menos altruísta, pensei em divulgar pros amigos: vamos gastar até acabar? Viajar com petit comite – ou nem tão petit assim, dependendo de quantos amigos topassem a aventura. Ir pra todo lado, um avião só pra gente, comida farta, risada solta e logo tanto ficaria nada e voltaríamos todos, meio bêbados do encanto, duvidando da realidade do vivido, para o banal, com suspiros enigmáticos de quando em vez.

Sou de criatividade limitada: comida, bebida, passagens, entretenimento. Duas malas de mão: um com roupas miúdas, outras com roupas grossas.

Eu não compraria coisas. Digo, bens permanentes*. Eu gosto da volatilidade. Uma pessoa de âncoras, não de raízes, como escrevi um dia. Quartos de hotéis. Uma villa alugada no interior da Itália. Um apartamento apertadinho no Quartier Latin. Uma casa antiga e espaçosa em Montevidéu. Uma cabana no Vietnã. Um apartamento moderno em Sidney. Uma ilha no Caribe. Um sei lá o quê em Tokyo.

Compraria também um monte de canecas e ímãs de geladeira. Por favor, não perguntem pra colocar onde

Beberia sangrias. Espumantes indecentes. Vinhos, cervejas e drinks de nomes exóticos e sabores esquisitos. Comeria no restaurante do italiano do parmesão e no Bitoque, minha cozinha preferida em Lisboa. Queijos, queijos, queijos. Até uma lasquinha daquele de leite de burra. Visitaria museus com guias preparados e exclusivos. Veria filmes, filmes e filmes, abriria cinemas em sessões especiais pra rever tudo do John Wayne. Sentaria em cafés esquecida do tempo. Acompanharia uma turnê da Bethania. Compraria temporadas em teatros, a temporada de ópera, os concertos, o balé. Montaria um evento literário só pra chamar Verissimo e Chico Buarque e ter uma mesa redonda mais parecida com uma mesa de bar, papo solto, talvez fizesse mesmo o evento em um barOPS. 

Ok, talvez comprasse livros. Mas nem precisaria ser primeiras edições de capa dura e com dedicatórias escritas a punho pelos autores para seus amantes ou rivais preferidos. Pode ser edição de bolso vendida em aeroporto mesmo. 

Eu cozinharia. Iria até onde o ingrediente está. E cozinharia. Em fogões modernos, em fogão a lenha, em cozinhas frescas com ilhas gigantes e coifas, em cozinhas espaçosas com cheiro de alho e cebola, panelas de barro, mesas de madeira. Visitaria amigos. Voltaria a lugares. Aquela barraca querida em Canoa, aquele Cristo esquisito perto de Taranto, os smurfs na estátua dos burgueses, o Pedro jogador em Pedra Branca.

Compararia azuis. Dos céus. Do mar. Viajaria a favor do sol, procurando os dias longos. E, depois, ao contrário, até uma noite encontrar a outra.


*Ok, talvez decidisse comprar uma casinha - numa cidade média, com transporte público eficiente, feiras na esquina, teatro e calçadas baixas - para quando chegar a velhice, se nela eu chegar.

** eu sei lá se eu faria isso mesmo, talvez desse tudo pro sindicato dos trabalhadores rurais de Ipaporanga. Mas é divertido pensar bobice, né.

*** e mecenas? sempre achei legal. quem sabe uma mecenas modernosa, apoiando equipes olímpicas e escritores talentosos.

**** mas a verdade é que ninguém vai abrir uma conta milionária pra mim e eu nem jogo na megasena. O que tenho, no momento, é um óculos defasado, uma pálpebra inflamada e a carência do plano de saúde que ainda não me permite "ver" um oftamologista.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Nem ter razão, nem ser feliz

A gente vai aprendendo a morrer. A gente, como você, sou eu, sempre. Onde diz sempre, quero dizer, quando for aqui. Confuso, não é? Ando me sentindo assim. Você também? (neste caso, excepcionalmente, você não sou eu, tese do Nerso da Capitinga). Mas, dizia eu, aprendendo a morrer que é uma outra forma de dizer seguir em frente. Ou apenas seguir, sem muito senso de direção.

A gente teima em sobreviver. E ainda sorri. A gente, já se sabe, sou eu. E ela. 



Estou na segunda temporada de Billion. Não estou gostando tanto quanto da primeira, provavelmente porque tenho gostado de menos personagens. Taylor. O braço direito maluco do ruivo. E, claro, meu barbudo. Dele tenho gostado cada vez mais. Quando ele vendeu os livros, sofri junto. Já o ruivo, que mesquinho. Vai ter que ter muita reviravolta pra mudar o panorama do meu afeto.

É bem assustador ter bem pouco medo do que se deveria temer acintosamente.

Tem essas pessoas queridas. Essa pessoa querida. Com quem eu não falo sempre. Com quem não preciso falar sempre pra saber que posso falar sempre que precisar. Essa pessoa querida com quem posso ficar calada. Ou sussurrar o indizível. 

Nem ter razão, nem ser feliz: passagem de avião.

E claro, as estantes. Os livros. Aquelas temporadas que ficaram no caminho. Agatha em nova edição. Uma nova Tess Gerritsen pra chamar de minha. O mar. O mar. O mar. Feijãozinho com torresmo, mesmo sem os braços. Beber, deitar, dormir, talvez morrer

Por outro lado, papoca tudo. Espinha, rosácea, aquela bomba que a Meredith segurou na palma da mão.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Vísceras

Na calçada do pequeno café fico espiando os que passam. Sei da artificialidade do momento, apesar de sempre ter feito isso: olhado as pessoas. No Circular que pegava sem necessidade, subindo e descendo na mesma parada, o mesmo roteiro ignorando janelas, vendo as pessoas entrarem e saírem do ônibus nos variados bairros da cidade. Ou as horas passadas nos bancos das praças, especialmente a do Ferreira, o olho cumprido se esticando sobre as gentes andantes. Mas aqui, a mesinha de ferro instável, a xícara miúda e o cigarro que seguro errado e chupo no lugar de tragar, tudo isso me faz lembrar um mau personagem de filme de baixo orçamento. Paciência, não saberia mesmo viver sem roteiro. Vejo a brasa se aquietando na ponta do cigarro, chupo, ávida, e uma parte significativa dele desparece. Não sei aproveitar o fumo, é a imagem o que me interessa, acendo um no rescaldo do outro, como se a chama fosse a garantia de me manter em cena. Então, estico a coluna, aceno pedindo outro café e olho, olho, olho. A curiosidade, eu li, afasta e distancia, colocando o observador a parte do que observa. Not me. Quanto mais vejo gente, mais perto, mais dentro, mais sinto os passos deles todos, leves, arrastados, tensos, animados, atrasados, doloridos, ecoando no meu peito. Ser gente é um aprendizado. Que me inquieta. É saudade o que eu sinto ou um arremedo improvisado sobre a compreensão do que se deve sentir em ausências? Não sei mesmo beber essas poções minúsculas de café. Engulo em um trago único, o quente justificando o lacrimejar. As pessoas, borradas, fazem ainda mais sentido. Viver é esse desfile de vidas que não sabemos toda, os transeuntes apenas surgem e desaparecem mais rápido, mas a lógica é a mesma. Alguns já estavam quando chegamos, o tanto que não vivemos com eles. Outros se vão antes de nós, o tanto que nos obrigamos a viver essas solidões. Lembro o que esqueci: o salto alto. A sapatilha vermelha não faz o barulho adequando quando movimento, impaciente, o pé de encontro à calçada. Como eu disse, baixo orçamento. O cigarro esquecido, se apagou. Peço a conta, café, café café, nem conto quantos. Deixo o dinheiro displicentemente sobre a mesa. Uma ensaiada displicência. Respiro e lembro de soltar o corpo. Faz de conta que. E dobro a esquina, ainda buscando, ainda espreitando, olhando. Ao longe, vejo uma mulher de ar atarantado, sorriso largo e tristes olhos escuros. Meu rosto na vitrine. Vísceras.



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