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quarta-feira, 24 de abril de 2019

Lembra?


Eu leio todo, todo dia. Entretanto faz um tempão que li algum livro novo.

Às vezes tenho a sensação de que não sou capaz de aprender.

Mas ainda me anima ensinar. Ou mais exatamente: estar em sala de aula e facilitar uns percursos.

Status: empurrando com a barriga.

Um sono que não se acaba nunca (ou quase nunca, basta colocar o pé na estrada).

Sinto muita falta do tempo em que o Biscate era (quase) possível.

A solidão é fera, a solidão devora e não cozinha pra você.

Daí você liga a tv aleatoriamente e encontra John Wayne e Dean Martin e quase esquece de doer.

Não sei bem se o que você me oferece é memória ou promessa.

Já faz um bocado de tempo e já acordei ao lado de tanta gente mas ainda lembro do morno do teu peito feito travesseiro (e isso nem é pequeno já que eu não lembro de tanta coisa).

Aliás, há pouca coisa tão solitária como a paisagem da memória. Vastos espaços que percorremos sozinhos. Mesmo que a paisagem seja a mesma não há dois que a possam revisitar da mesma forma, ao mesmo tempo. Quanto tentamos compartilhar alguma lembrança sempre soa como aquele momento desconfortável em que alguém apresenta slides de fotos de viagem a uma platéia absorta no seu próprio e diverso sentir.

"Você lembra, lembra, naquele tempo eu tinha estrelas nos olhos, um jeito de herói...". Desculpa, do que você está falando mesmo? Não lembro não.

Sem me dar conta, perdi a conta dos dias que espero por dias melhores.






terça-feira, 23 de abril de 2019

Manda Nudes



Porque a verdade é que se a pessoa não se interessar/apaixonar/envolver por mim pelada, vestida é que ela não vai mesmo.

Eu conheço uma pessoa que tem uma amiga cuja irmã pagou uma viagem pra uma parente querida e foi tão maravilhosa que ainda não consegui escrever um post descrevendo.

Spoiler: eu mergulhei num vulcão.

O bom de ler a Fal é que parece que diminui o aperto no peito e eu consigo respirar sem ter que escrever já que a vida não tá deixando mesmo.

Por “a vida” entenda-se um tipo de trabalho que não sei e não gosto (não gosto porque não sei? Não sei porque não gosto?), pouco dinheiro (a viagem foi glamorosa mas o dia a dia, não) e um tanto de obrigações disfarçadas entre um monte de episódios bobos de séries mais bobas ainda.

Eu tenho essa tristeza de ter vivido os anos 90 (que nem foram esta garapa toda) e ver o moralismo vicejando hoje: ain, mas a Arya tão novinha pegar o moço sem nenhum sentimento, a cena foi seca, isso e aquilo, sei que lá.

Uma coisa que eu acho incompatível com a dignidade humana: bater ponto.

Se eu tivesse dinheiro viveria em nenhum lugar, seria turista na terra. A coisa mais tosca a meu respeito é que chamo de casa qualquer quarto de hotel.

Tá difícil ser eu sem reclamar de tudo - e eu nem tenho a voz da Gal pra dizer isso de um jeito encantador.

Sim, voltar das férias não é moleza, ainda mais quando o olho de um furacão que você não sabe lidar lhe espera, voraz.

Estou querendo trocar de casa, queria um visual novo pro blog, mas tenho medo de sair e as duas pessoas que me lêem não irem comigo. Por mais que eu escreva porque não consigo evitar, saber que alguém lê de vez em quando dá um morninho na alma.

A vida que nós teríamos tido.

Eu pensei que ao ir envelhecendo ia querer cada vez mais o que já tive, mas não tem sido assim, tenho desejado, cada vez mais, coisas que não só nunca tive, mas que não sei se tive ou não, coisas que não sei o que seriam... pode parecer poético ou mesmo trágico, mas é apenas uma forma muito difícil de decidir o que vai ser o jantar.

sábado, 23 de março de 2019

Só Dói Quando Eu Respiro


Não sou editável.

Vixe, uma viagem.

Pergunta, pô, que eu respondo.

Se é pra doer, saudade.

O corpo mandando mensagens e você desabilitando a notificação pra fazer de conta que não tá informada.

A gente pode ter LER só num dedo? (tentando digitar mais com o dedo do cotoco pra poder amenizar a carga do fura-bolo)

Seria bom se fosse tudo miudeza assim.

Tenho demandas modestas sobre este lance de morrer. E viver. Só queria que não doesse muito, que não demorasse demais mas também não fosse ligeiro a ponto de perder abraços.

"você precisa de alguém que te dê segurança, senão você dança". Ouvir verdades do Engenheiros do Hawai, a que ponto cheguei.

Na base: todo amor acaba, todas as pessoas morrem. Final feliz é quando a gente morre antes do amor.

"Todo mundo" fica morto de feliz com uma medalhinha em Olimpíada e desmaiaria de emoção com um Oscar, mas imposto é roubo, todo artista é vagabundo e se que ser atleta tente via meritocracia.

Vacina nos dois braços. Dia seguinte: ai. 







terça-feira, 12 de março de 2019

44, e aí

Amanhã (já, já, na verdade) faço 44 anos me sentindo muito menos eu.

A internet me deu muita lindeza. Me deu gente. Me deu amor. Porque eu gosto de festa, eu chamava para festejarem comigo e vocês vinham. Porque gosto de festa e não tenho vergonha na cara, pedia presentes e eles chegavam em forma de epitáfios, de fotos e de queridos textos. Lembro com carinho do Viver da Rita, o Envelhecer da Lu Guedes, dos Cotidianos do Rafael e da Teresa Font, da Memória da Raquel, da amizade da Joana, do texto surpresa da xará Luci, desta assombrosa finitude fora de época do Zé Navarro e da biscatagem inesperada da Renata Lins. 

Mas é 2019 e eu não consigo cantar a música do Gonzaguinha sem me sentir inquieta.

Quando eu viajo gosto de guardar uma cédula do país que visitei. Sei lá, dá aquela sensação de que vou voltar pra gastar aquele trocado.

44 anos e minha pia está uma bagunça.

Eu plantei uma árvore, eu escrevi um livro, eu tenho um filho. E, entretanto. Pois é, Freud é quem tinha razão.

Talvez eu goste tanto de Grey's porque também tenho narração em off, na vida. E, como o Kronk, improviso vez ou outra minha própria trilha sonora.

Eu ainda amo o mar.

44 anos e fico adiando a ida ao dentista.

Torresmo. Rede. Livro. Ventilador. Corleone. Panelada. Boteco. Cerveja. Cangote. Matera. Manteiga. Avião. Girassóis. Café. Preguiça. Sala de Cinema. Sushi. Flamengo. Mangueira. Nelson Rodrigues. Água.Colher de pau. Bethania. Hotel. Chuva de Bala. Cafuné. Marquesa. Ovo. Sertão. Vadiar. Gelatto. Sotaque italiano. Eletricidade. Dançar. Mercados. Banho de chuva. Mala. Conchinha. Lençol limpo. Frigideira. Blog. Caravaggio. Gaitada.

Mas posso entrar na piscina com as amigas brincando de fazer exercício só pra depois tomar café com bolo.

A verdade é que menos eu, mas ainda tem bastante. 



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Sobre o nome do blog e outras confusões


O mar é minha terra vermelha de Tara.

Chegou o livro/chegaram os livros daFal. É tão encantador que a gente se perde neles. Uma alegria poder dizer a alegria de ler a Fal não só aqui, mas também no prefácio do livro.

Já não tenho paciência pra explicar certas coisas que eu nunca precisei que me explicassem.

Há coisas complicadas de escrever sem um grande preâmbulo, notas de pé de página, esclarecimento de conceitos, etc. Mas vamos só meter os pés no peito: fortalecer a justiça criminal e alimentar o punitivismo vai dar ruim. Sempre.

Não é que eu não frequente o twitter. É que eu não sei papear por lá e papear é das coisas que ainda animam minha existência. No twitter me parece que estamos sempre gritando de uma janela de apartamento pra outra, sem ter certeza que o dito vai valer a pena quando enfim chegar na outra pessoa e entre uma janela e outra, lá embaixo, tem o parquinho zoadento e um monte de vizinho desocupado.

Sobre o nome do blog e outras confusões. Quando eu criei este blog eu não tinha nenhum afeto especial por borboletas. Não é que eu não gostasse delas, mas a despeito do que tanta gente entendeu, este espaço e os textos que aqui insisto em cometer, não eram sobre mudança, metamorfose, transformação ou ser mais bonita um dia (até porque sempre me considerei outra coisa que não bonita, interessante, desejável, whatever, bonita nunca esteve nos planos). O nome do blog é/era sobre incômodo. Asas esvoaçantes dando aquela agonia, bordejando ao redor dos olhos, encostando, roçando, atazanando. É assim que ele se sustenta e me sustenta: tentando dizer o impossível, dar sentido ao real que escapa nas entrelinhas. É assim que ele me sustenta e se mantém, tratando do que arde, das minhas feridas de Quíron, do vazio ao redor do qual a subjetividade se estrutura e se determina. O blog, este blog, é desassossego. Mas daí as pessoas começaram a me chamar de Borbs e como não amar quem tão generosamente se dispõe a gostar de nós?


Eu penso em mim como fumante. Uma pena eu não conseguir fazer jus a esta auto-imagem. 

Parar e descansar bem de bouas e desligada de tudo é uma arte que eu dominava.

É entrar no mar e reencontrar o equilíbrio do corpo. Não é seguir com as ondas, não é ficar rígida, é se deixar mover, sentir que dentro e fora é apenas um jeito de organizar o espaço, antes e depois é somente a forma de nomear o tempo. É ver o mar, sentir seu cheiro e entender o que é necessário entender, esquecer o que é necessário esquecer, acolher o que é necessário acolher, deixar ir o que já não deve ficar. O mar é o único lar que faz sentido pra mim. Ou seu abraço.

Horizonte: licença-capacitação.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Luz, Câmera, Emoção


Chega a época das premiações, aquele momentinho pré-Oscar e as redes sociais se enchem de comentários sobre os filmes (inclusive meus) que vão de elogios empolgados até a execração de uma produção (tipo eu falando de Vice). Tem ainda quem comenta dizendo (espero que eu não) “não sei como alguém pôde gostar disso!” (Murphy: quase sempre esbarro em comentários assim sobre algum filme que eu amei muito). Antes eu lia algo assim e ia lá argumentar porque eu tinha gostado ou não. Depois, fui parando. Hoje escrevo na minha TL, no meu blog e eventualmente se for solicitada minha opinião, no status de algum amigo.

Pra mim ficou meio tosco defender algum gosto meu. Porque é isso que é: gosto e meu. Passo melhor o tempo ouvindo a Salmaso buarquear. Ou vendo faroeste no Telecine Cult – sim, eu amo John Wayne, eis o tipo de pessoa que eu sou.

E é isso. A gente nunca vê os mesmos filmes. Porque o filme que vemos, vemos com nossa história, nossos prazeres e desprazeres anteriores, com nossas convicções sobre cinema, vemos com nossas preferências, receios, amores, expectativas. Os filmes que mais gosto são os que ecoam em mim depois que acabam. Fazem eco com amores passados, fazem escavações para vivências futuras. Luz, disse Fellini. Horizonte, disse Ford. E boas palavras, espero eu.

Eu gosto de filmes que se demoram, como aquele instante interminável entre o momento que lábios deixam nosso pescoço e voltam a ele.

Uma coisa que realmente mexe comigo é aquele respirar pesado juntinho ao meu cangote.

Em 1995 o cinema fez 100 anos e eu, 20. Eu ainda lembro de ficar acordada até tarde pra ver os programas da Globo, Fátima Bernardes e Renato Machado bem bregas de roupa de festa, em pé, apresentando episódios que foram de Fantasia a Musicais passando pelo erotismo, riso e aventura. Cem anos luz, era o nome. O cinema me emociona. Você também.

É complicado: quando você não está, corredores vazios no peito, ar encanado, um oco que lateja; quando está há lotação, fica tudo apertado, hora do rush no coração.

A verdade é que a disputa entre os filmes concorrentes ao Oscar (dos que vi até agora) não incendiou meu coração. Ano passado me arrebatou, eu chorava e xingava na frente da tv (Me chame pelo seu nome, Dunkirk, The Post, Trama Fantasma, Projeto Flórida, Eu, Tonya) 2017 não fez feio com La la land, Moonlight, A Chegada e Um Limite entre Nós e mesmo 2016 teve meu querido Brooklin, teve O Quarto de Jack, Ponte dos Espiões, Spotlight e Trumbo. Este ano traz alguns pontos altos como as interpretações em A Favorita, a imensa Glen Close na Esposa, o interessante Infiltrados na Klan, o tocante e inesquecível e primoroso Roma, a boa química entre Viggo Mortensen e Mahershala Ali, mas nada que se compara à paixão que me mobilizou nos anos anteriores.

Sim, eu gostaria de viver em West Wing. Na verdade eu gostaria de viver em Grey's, mas sabendo que em algum lugar, na impossibilidade de ser sustentada por um Doniphon, a equipe do Bartlet tá segurando as pontas.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Moinho






Eu não sou muito boa nesse negócio de lidar com seres vivos.
 
Um dos cactos deu até uma florzinha, mas todo dia olho pras plantas meio ansiosa meio surpresa de ainda estarem resistindo.
 
Brinks, ainda adoro a cozinha.

Eu gosto das coisas que são bonitas para mim. E da coleção do Freud.

Estou inclinada a abrir mão do ceticismo e acreditar que o mundo acabou em 2012 mesmo.

Uma vontade: reler tudo que já li. Pelo menos os que ainda tenho em casa. Realidade: reempilhar de tempos em tempos, chorar um pouco folheando um ou outro, passar a semana espirrando.

Eu não tenho falado muito do crime que aconteceu em Brumadinho porque realmente não consigo. Cada pessoa é um mundo e me dói sua não mais existência material de uma forma aguda, especialmente porque não tenho nenhum conforto de fé, paraíso, reencarnação ou qualquer consolo transcendente. Lembro quando houve o massacre de Eldorado de Carajás e eu me refugiei no quarto e só chorava e chorava e chorava.

E na mesma lógica de cada pessoa um universo, logo a seguir vem a crueldade acintosa de proibir o Lula de ir velar o parente.

O mundo é um moinho, bem disse o Cartola.

Eu sempre achei que Heitor era o verdadeiro herói da Ilíada (e da Guerra de Tróia de maneira geral).

Eu escuto o Chico cantando "eu faço samba e amor até mais tarde" e fico pensando se meu tempo passou ou nunca existiu.

E tem aquela frase da Marguerite Duras sobre ter que escrever pra sentir que viveu de verdade (ou algo assim, não vou procurar agora). Euzinha pensava que sentia assim mas suspeito que as coisas realmente importantes e que quero manter vívidas eu tenho um certo pudor de compartilhar.

Daí, escrevo, são quase verdades quase mentiras e nem eu nem elas sabemos onde está a fronteira. Ou se há.

Eu acho bonitinho quando você ri e seu olho fica miudinho e um monte de risquinhos dão vislumbres das histórias que são suas e gosto quando o riso vai virando outra coisa, meio quente meio fome e aí eu já não tenho tempo de achar mais nada e apenas me perco mesmo.

Vejo as pessoas reclamando e penso: ain, que gente reclamona. Daí eu gargalho porque, né, eu sou chata demais. O mundo tentando se comunicar, abrir canais e eu pentelhando: nhé, não gosto de tumblr; nhé, não gosto do medium; nhé, não gosto de newsletter. A verdade é que eu gosto de boteco com mesa na calçada o que, na versão internética, é o superado blog. Só no blog, como no boteco, tem batuque que você não precisa acompanhar, muita conversa atravessada, você comenta atrasado e ninguém estranha e às vezes passa um desconhecido e te dá um abraço. Por isso fica a dica: Central do Textão.

É difícil respirar, mas ainda conseguimos fazer, de uma terça, domingo. E no sábado dormirei ouvindo o mar.A beleza do escritório: vou terminar este post, desligar o computador e subir só com livros pro quarto #nãomaisnotebooknacama


domingo, 6 de janeiro de 2019

Tomate seco, Finitude, Fé, Dias Melhores - e aquele quando maroto

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Você já viu o Rogerinho encerrando um programa do Choque de Cultura? Pois é assim que penso na vida e sua finitude: “cabô, cabô, cabô o programa”. Eventualmente dá pra passar uma mensagem final, enganar um pouquinho e se estender nos créditos, mas, é isso, cabô.... corta, Simone.

Eu não acredito em céu, inferno, reencarnação, vida após a morte, ressurreição, espírito, alma, deuses, divindades. No contraponto, eu sou encantada com rituais e manifestações religiosas várias. Tem pouca coisa na vida mais bonita que tirar um reizado. Não que eu me considere superior ou mesmo “fora a parte”. Sei bem demais que meus valores humanistas e liberais ocidentais tem imbricada relação com o cristianismo (embora os cristãos não os pratiquem com regularidade e tal). Liberdade, igualdade, fraternidade e penduricalhos variados, inclusive o meu antropocentrismo, tudo é oriundo deste caldo civilizacional que tem o cristianismo na lista dos ingredientes principais.

Entretanto tenho sorte suficiente pra, deste combo, ter escapado da Culpa (aquela maiúscula, judaico-cristã, relativa à moralidade, olha o pelo crescendo na mão, menino! fecha as pernas e olha como se senta, menina!). A culpinha, a neurótica, parente da maiúscula, tenho, como não, inclusive me apego, neurose é uma estrutura ok pra se viver com ela.

É isso, não sou de fé e religião, não estou fora do seu alcance.

Modi quê tô falando nisso? É que ontem eu estava assistindo “Selma”* e pensando no quanto a religião e a religiosidade são escorregadias na hora de tacar um rótulo. Ninguém pode contestar o estrago que a religião está fazendo no Brasil, fez no Irã e por aí afora. Uma merda. Ou nem isso, porque não serve nem de estrume. E, no entanto. Frei Tito. Dom Oscar Romero. Irmã Dorothy. O Martin Luther King. Eles não eram quem eram apesar da religião e da sua fé, mas por causa dela. Quando Martin Luther King convocou a Marcha, em Selma, grande parte das pessoas brancas mobilizadas eram religiosas (inclusive o que foi espancado até a morte pela KKK, um pastor branco de Boston).

Às vezes eu sinto, sim, falta do consolo que a fé, qualquer fé pode oferecer. E sinto saudades do tipo de vínculo que participar de igrejas e afins proporciona (não que seja exclusivo, em associações e cooperativas e assins assins também pode rolar, mas a minha experiência na Pastoral da Juventude do Meio Popular foi muito inspiradora, apesar da minha ausência de crença, a não ser, claro, aquela da canção: "fé na vida, fé no homem, fé no que virá...").

O fim dos anos 90. Toda a década seguinte. Agora vai.

De certa forma minha pollyanice compensava a falta de fé, vai dar certo, vai ser melhor, é mais lento do que eu desejaria, mas vamos indo. Qual o quê. Que enorme balde de água gelada. Desde o golpe eu me sinto andando em areia movediça. E sentindo coisas que não me são próprias. Raiva. Muita raiva. Desprezo, um enorme e crescente desprezo por muita, muita gente. E isso não me faz bem, eu gosto tanto de gostar de gente.

Eu ainda estou aqui,ainda o riso, a esperança, o bem querer, a busca pela igualdade, a sensibilidade ante a injustiça, ainda tanto, ainda muito. Mas também aqui a sensação de que o que eu tinha pra ver de bom, de avanço, de transformação pra melhor, eu já vi e já vi retroceder. E que, sim, dias melhores virão, mas eu não estarei neles.

"nenhum homem, nenhum mito, ninguém ache que pode deter este movimento. nós proibimos, pois sabemos que é essa escuridão que mata o melhor que há em nós e os melhores de nós (...) Vocês podem perguntar quando nos livraremos da escuridão. Digo hoje a vocês, irmãos e irmãs, apesar da dor, apesar das lágrimas, nossa liberdade logo estará sobre nós (...) quando seremos livres? em breve, muito em breve, porque nenhuma mentira pode viver para sempre"



* Selma é um filme bom com atuações excelentes. Daqueles que esfregam na nossa cara que a dor é nossa, é de agora, de ontem, de hoje, de ainda. 


** Quem inventou o tomate seco, meu muito obrigada. 


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Em trânsito

Que eu me lembre, o único livro que eu abandonei foi Ulisses.

Falando em abandono, vez ou outra eu volto na cena pós capela-de-casamento de Cristina e Burke. É das cenas - e emoções - mais bem filmadas que eu já vi. Mas a cena que me toca mesmo, que é tão Cristina, vem no começo da temporada seguinte, quando ela fica sabendo que Burke pediu demissão, a forma como reage, aparentemente displicente, o corpo tensionando, ela se obrigando a continuar o que está fazendo. Olha, posso nem comentar. I'm fine. 




Tem dessas coisas que a gente não comenta porque nos deixa assustadoramente desnudos.

Eu tento resgatar o encanto de enviar cartas e afetos pelos correios mas o custo proibitivo e a demora inexplicável inibe os sentimentos.

luciana, luciana, nunca ligue no Telecine Cult, luciana.

Vi o primeiro episódio da série My Brilliant Friend e, como eu suspeitava, vou gostar um tanto. É filmada na Itália, com gente falando italiano, fala sério, como alguém pode não gostar? (mas, Luciana, você nem amou os livros! Amei mesmo não. Aliás, com Big Little Lies também foi assim – e eu amei a série, teci loas e tudo).

Pois se até hoje eu releio dedicatórias só pra ouvir o eco da voz do amigo dizendo Lucciana. 

Um dos poucos sonhos que tive e tenho é daqueles que nunca poderá ser realizado: dançar com Fred Astaire. Sempre que menciono isso eu me lembro e geralmente mais alguém corrobora, como muitos que trabalharam com ele mencionavam que ele era perfeccionista, exigente, difícil e talz. MAS. A gente vê ele dando uma voltinha na Audrey, na Rita, Ginger, Eleanor, Ann Miller, Cyd Charisse, Judy Garland, num cabide, numa capa, num chapéu e tudo, qualquer coisa, fica leve, gracioso, harmônico nos braços dele. Eu aguentaria, feliz, o mau gênio, pra ter três minutos disso.


Eu gosto de gente mas ando com muita preguiça das pessoas.


Somos em trânsito. Não mais, ainda não. O movimento é o que possibilita e é, também, o que impede. Com alguma sorte, cruzamentos. para quem acredita, as paralelas marcram encontro no infinito.


uma coisa realmente triste é não lembrar o sabor do seu beijo. eu lembro, sim, eu lembro, como você me fazia (me) sentir, lembro a sensação de desejo, ternura e aconchego, mas o gosto?  como era o gosto? 


Se a gente quisesse, se meu dinheiro desse.


Estou envelhecendo, né. Já suspiro, em pensamento, imaginando encarar aquela escada de casa daqui uns quinze anos. Não me atrai. Lavar três banheiros e um lavabo? Não quero. E, principalmente, suspiros, limpar os livros. Todos aqueles livros que se apegam à poeira com a mesma intensidade que eu me apeguei a eles. Ou mais. Estou envelhecendo, estou envelhecendo, estou envelhecendo, não quero magoar o joelho subindo escada, não quero escorregar lavando banheiro, não quero ter crises respiratórias limpando livros. Estou envelhecendo, tenho que começar por algum lugar a lidar com isso, daí resolvi doar mais uns tantos livros. Desapegar. Tá até na moda. Era pra ser mais fácil, viu. Tento estabelecer critérios: livros que consigo no kindle, os policiais, os que nunca reli, os que já reli bastante, os mais velhos, os menores, os maiores, os clássicos, só os de determinados autores de quem tenho muitos, só os de determinados autores que só tenho uma produção, estes, esses, aqueles, alguns, quais, quais, quais.


Eu sinto tanta falta do outono que até lixo no quintal me enternece:







segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Nunca é apenas


“Você só diz isso porque você é gorda”. Bom, eu sou mesmo, não pretendo deixar de ser e não vejo como um elemento da minha vivência poderia desmerecer um posicionamento meu sobre o assunto. Mas, olha, nem é “por isso”. Eu já tive, depois de ultrapassar 1,60m, ou seja, vida jovem e adulta, pesos variados, desde o 47 mais ou menos. Fotos minhas pós-gravidez chegam a ser meio assustadoras, de tão magra que eu estava. E sempre pensei essas coisas mesmas, com maior ou menor profundidade. Os argumentos podem ter melhorado, mas a sensação sempre foi a mesma.

um mundo em que uma criança que ainda nem aprendeu direito a falar "não se preocupe" já tem opinião sobre o que engorda é um mundo em que me custa muito viver (não coloquei nenhuma vírgula porque é bem difícil respirar mesmo, às vezes).

uma coisa que não faz sentido nenhum: perguntar se é namoro ou amizade. não são coisas excludentes, pô.

outra: dizer é "só" atração física. olha, atração física nunca é um apenas.

O Método Kominsky demanda um tubo de oxigênio e soro caseiro, a cada episódio. É uma Scania atrás da outra me atropelando, termino desidratada. A série entrega muito, eu me enterneço, rio e me deparo com meus medos, alegrias, angústias. É uma série madura, com temas delicados, diálogos inspirados e atuações envolventes. Envelhecer e sua beleza (a beleza é complexa). As perdas. A solidão. A amizade. A amizade, a amizade, a amizade.


Efeito colateral da estréia de Amiga Genial: enxurrada de expressões que me enervam, que nem esquedomacho, na minha TL. 

Ei, Luciana, você vai ver a série? mas não foi você que nem gostou dos livros? então, eu não achei os livros esta paçoca toda, mas eu li tudinho (eu leio até Sabrina se ainda cair na minha mão, gente, eu li Sidney Sheldon, leio demais a Ferrante). não considerei a tetralogia maravilhosa, achei ok. Vou ver a série, mesmo que seja bem fiel aos livros é outra linguagem - além disso  foi filmado na Itália, os atores são italianos, quem vai se desmanchar com o sotaque? o/

eu não sei paquerar. 

quem sabe eu mando uma garrafinha: pode ser ou tá difícil? ou o cartão da Renata Lins. 

eu gosto de mar. de boteco. de conversa sem rumo. de beijo na boca. gosto de gente. de prédios antigos. de fazer a mala. de comprar passagem. gosto de torresmo. de queijo, gosto muito de queijo. gosto de abraço, de contar história. de contar muitas vezes a mesma história. de ouvir. de abraçar. de fazer ciranda no terreiro, de fazer ciranda a beira mar, de fazer ciranda em reunião, aula, o que for. gosto de blusa decotada. gosto de batom vermelho - mesmo esquecendo de usar. gosto de cafuné. gosto de pele com pele. gosto de fresta, de brecha, de fenda, de deixar em aberto. gosto do quem sabe. gosto.

"tem que ter perna batendo com perna, 
coxa roçando com coxa, 
no umbigo e no pescoço, 
tem que ter um roça roça toda hora, 
um pra dentro outro pra fora, 
pra gente sentir o gosto"


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