domingo, 6 de janeiro de 2019

Tomate seco, Finitude, Fé, Dias Melhores - e aquele quando maroto

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Você já viu o Rogerinho encerrando um programa do Choque de Cultura? Pois é assim que penso na vida e sua finitude: “cabô, cabô, cabô o programa”. Eventualmente dá pra passar uma mensagem final, enganar um pouquinho e se estender nos créditos, mas, é isso, cabô.... corta, Simone.

Eu não acredito em céu, inferno, reencarnação, vida após a morte, ressurreição, espírito, alma, deuses, divindades. No contraponto, eu sou encantada com rituais e manifestações religiosas várias. Tem pouca coisa na vida mais bonita que tirar um reizado. Não que eu me considere superior ou mesmo “fora a parte”. Sei bem demais que meus valores humanistas e liberais ocidentais tem imbricada relação com o cristianismo (embora os cristãos não os pratiquem com regularidade e tal). Liberdade, igualdade, fraternidade e penduricalhos variados, inclusive o meu antropocentrismo, tudo é oriundo deste caldo civilizacional que tem o cristianismo na lista dos ingredientes principais.

Entretanto tenho sorte suficiente pra, deste combo, ter escapado da Culpa (aquela maiúscula, judaico-cristã, relativa à moralidade, olha o pelo crescendo na mão, menino! fecha as pernas e olha como se senta, menina!). A culpinha, a neurótica, parente da maiúscula, tenho, como não, inclusive me apego, neurose é uma estrutura ok pra se viver com ela.

É isso, não sou de fé e religião, não estou fora do seu alcance.

Modi quê tô falando nisso? É que ontem eu estava assistindo “Selma”* e pensando no quanto a religião e a religiosidade são escorregadias na hora de tacar um rótulo. Ninguém pode contestar o estrago que a religião está fazendo no Brasil, fez no Irã e por aí afora. Uma merda. Ou nem isso, porque não serve nem de estrume. E, no entanto. Frei Tito. Dom Oscar Romero. Irmã Dorothy. O Martin Luther King. Eles não eram quem eram apesar da religião e da sua fé, mas por causa dela. Quando Martin Luther King convocou a Marcha, em Selma, grande parte das pessoas brancas mobilizadas eram religiosas (inclusive o que foi espancado até a morte pela KKK, um pastor branco de Boston).

Às vezes eu sinto, sim, falta do consolo que a fé, qualquer fé pode oferecer. E sinto saudades do tipo de vínculo que participar de igrejas e afins proporciona (não que seja exclusivo, em associações e cooperativas e assins assins também pode rolar, mas a minha experiência na Pastoral da Juventude do Meio Popular foi muito inspiradora, apesar da minha ausência de crença, a não ser, claro, aquela da canção: "fé na vida, fé no homem, fé no que virá...").

O fim dos anos 90. Toda a década seguinte. Agora vai.

De certa forma minha pollyanice compensava a falta de fé, vai dar certo, vai ser melhor, é mais lento do que eu desejaria, mas vamos indo. Qual o quê. Que enorme balde de água gelada. Desde o golpe eu me sinto andando em areia movediça. E sentindo coisas que não me são próprias. Raiva. Muita raiva. Desprezo, um enorme e crescente desprezo por muita, muita gente. E isso não me faz bem, eu gosto tanto de gostar de gente.

Eu ainda estou aqui,ainda o riso, a esperança, o bem querer, a busca pela igualdade, a sensibilidade ante a injustiça, ainda tanto, ainda muito. Mas também aqui a sensação de que o que eu tinha pra ver de bom, de avanço, de transformação pra melhor, eu já vi e já vi retroceder. E que, sim, dias melhores virão, mas eu não estarei neles.

"nenhum homem, nenhum mito, ninguém ache que pode deter este movimento. nós proibimos, pois sabemos que é essa escuridão que mata o melhor que há em nós e os melhores de nós (...) Vocês podem perguntar quando nos livraremos da escuridão. Digo hoje a vocês, irmãos e irmãs, apesar da dor, apesar das lágrimas, nossa liberdade logo estará sobre nós (...) quando seremos livres? em breve, muito em breve, porque nenhuma mentira pode viver para sempre"



* Selma é um filme bom com atuações excelentes. Daqueles que esfregam na nossa cara que a dor é nossa, é de agora, de ontem, de hoje, de ainda. 


** Quem inventou o tomate seco, meu muito obrigada. 


2 comentários:

Juliana disse...

Eu tenho sentido muita raiva e muito desprezo. Não tava acostumada com isso

Beatriz Francisco disse...

"Raiva. Muita raiva. Desprezo, um enorme e crescente desprezo por muita, muita gente. E isso não me faz bem, eu gosto tanto de gostar de gente." Isso tb me mata, viu. Quando percebo que estou desumanizando pessoas por causa do posicionamento político, saio do fb, paro de pensar no assunto (tento), vou ler outras coisas, vou olhar pela janela. E olha que sou uma pessoa de fé. E está mais difícil ainda do que se eu não tivesse fé (pra mim), pq pessoas que tb têm fé estão defendendo atitudes horríveis, ideias horríveis, e meu queixo cai pelo menos uma vez por dia com isso. O mundo está tomando um rumo bem sombrio, não vejo como melhorar. O negócio é cuidar da minha vida, dos meus queridos, estender a mão a quem eu possa e respirar.

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