quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Strip, claro

Estou tentando me convencer que o que vale é a experiência, o aprendizado, o conhecimento construído porque ganhar dinheiro mesmo com meu doutorado parece que é nunca.

E não tem quem desate o nó que se ata, não consegui tirar um artigo que seja da bicha. Pelejo, mas fico emperrada e só escuto o sussurro por dentro: ela ainda não vale nada.

Eu sou capaz de pensar em dez filmes favoritos de faroeste sem nem respirar, se duvidar sou capaz de pensar dez só com o John Wayne.

Comprei pastas, pastas coloridas. Agora vai.

Sou um fracasso como mulher autônoma: não consegui montar meu apoio ergonômico, aka suporte pra pés.

43 anos, já tá bom de começar a me endividar por razões mais maduras, né.

Faço longas cartas pra alguém.

você lembra, lembra, naquele tempo eu tinha estrelas nos olhos...



Queria estar falando ternuras. Entre sussurros de bobagens carinhosas: deixa eu ficar no seu abraço. Queria escrever, como quem lança sementes em terreno fértil: amor, desejo, ontem, sempre, quando, depois, agora, querido. Queria poder tocar. Ignorar geografia e tempo, estender a mão, leve, fortuita e delicadamente encontrar sua pele. E deslizar, como quem reconhece território para nele fazer morada. Queria ouvir seu forasteiro gemido, porque a voz do Outro é estrangeiro que às vezes faz morada. Queria não fazer planos, descansando o amor na certeza de um agora. Queria dividir o travesseiro. Encaixar minha coxa na sua. Queria era cuidar de miudezas: pão, cebola, café, alimentar o corpo, saciar o desejo. Enfileirar cervejas, esse cruzamento de estradas que somos. Queria era facilitar sua vida. Cantar, como o Chico, que ajeitava o meu caminho para encostar no seu. Queria era passar estações, reclamar do frio, reclamar do calor, celebrar as mudanças com você. Queria ver a lua. As luas. Minguante a cheia, deixar a vida fazer seu ritmo em uma cama compartilhada. Queria era dividir sonhos. Segurar na mão. Saber do trabalho. Fazer álbuns. Enfileirar poentes. Queria era mergulhar no mar e lamber o sal no seu pescoço. Entrelaçar dedos. Rir junto, olho brilhando. Queria abraçar com fome, desabotoar camisa, acordar a tua vontade. Queria ser repouso, depois. Alegria, durante. Queria era lhe ver cochilando no meu ombro. Queria diminuir distâncias. Fazer pontes. Não posso. Escaneio memórias, rabisco perguntas. E conjugo futuros dos pretéritos.

Status: reescrevendo textos, quero mais é uma realidade inventada #claricefeelings


2 comentários:

Ivani da Cunha Coutinho disse...

Que bonito!

Deh disse...

Meu deus do céu, esse paragpará grandão. Era o que eu queria ter escrito um dia. Numa carta que jamais seria aberta. Não sei até agora da última, se afinal foi lida ou não.

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