segunda-feira, 23 de julho de 2018

Xaxando


Eu nunca me afoguei, mas imagino que seja um pouco parecido com isso. A gente (a gente sou sempre eu) vai cada vez mais fundo e fica cada vez mais difícil voltar à superfície. É cansativo. Demanda força e uma certa inocência de supor que vai ser diferente se voltarmos à tona. Cada vez que imergimos, a gente (eu, eu, eu) se pergunta se vale a pena mesmo todo esforço que vem acompanhado daquela queimação no peito, olhos ardendo, engasgo. E, no entanto. Rufem os tambores, ou melhor, vamos colocando o Luiz Gonzaga na vitrola: “ói eu aqui de novo, xaxando, ói eu aqui de novo para xaxar”.



A verdade é que minha vida tem sido um pouco como a frase: há coisas boas e novas, as novas não são boas e as boas não são novas.

Eu tenho visto uma série (mais uma) policial nórdica. Disse mais uma, mas nem. Primeiro porque ela não tem aquele crime que se desenrola pela temporada toda que é legal mas às vezes a gente se pergunta se precisa mesmo tanto vai e vem pra descobrir um lance em cidade pequena. Bordertown, não, tem um pegada quase de série americana e aí tá tudo desenrolado em três episódios (eu disse quase porque tem algo que atravessa tudo e permanece). Outra coisa legal é que no começo a gente pensa: mais um detetive estranho com dificuldade de se relacionar. Aí, tchans: ele faz sexo amorosamente e com regularidade, a filha o ama, ele faz amigos, não é “problema de comunicação”: a esposa esconde umas coisas dele só porque ele curte descobrir e talz. Quando você pega o clima, puxam o tapete e os probleminhas de relacionamento, não os óbvios, os sutis, aparecem mesmo.

Meu tempo não tem dado pra nada e, concomitantemente (sim, eu gosto desta palavra, me julguem) nada tenho feito. Nem ver os programas de reforma e comida na tv. Nem terminar a série que mencionei. Nem ler direito. Nem arrumar a casa. Cozinhar. Só fazer o básico do básico o trabalho e ver a noite virar dia e o dia virar noite.

Num desses esforços de pôr a cabeça fora d’água comprei umas roupinhas e os alunos terão uma professora que não vai mais pra aula com a roupa desmanchando.

Luciana mas por dentro pedro pedreiro.

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