terça-feira, 31 de julho de 2018

O Sertão da Gente Minha



Pois lá tem minha gente. Abraço que chega meio de lado. Sorriso que nem precisa de dente.  Açude. Garrafa de feijão enchendo um quarto. Memória em hipérboles de deixar meu riso ainda mais solto. Carne torrada. Fogão a lenha. Jogo de baralho. Pé descalço. Anos que nem parecem ter sido mas foram muitos e doloridos. Cartão de aposentado pra um, 3 doses de cachaça por dia pra sustentar as pernas do outro que pega num pega os cem anos. Conversas. Apostas. Ausências. Leite da vaca – e se você faz a piadinha de que sempre é da vaca não sabe mesmo do que estou falando. Gema tão laranjinha que parece pintada com giz de cera. Galinha no terreiro, capote solto além da cerca. Uma pessoa que passa pra agradecer um favor antigo e toma um café. Uma buzinada na estrada pra saudar. Outro que compra fiado uma garrafa de vinho de 5 reais. Uma rede na varanda. Vento na varanda. A vida na varanda. Antena. Celular sem sinal. Cafuné. Caçar cabelo branco. Jerimum caboclo. Pizza, viva. Crianças. Casa nova. Concurso, moto, trabalho. Formaturas e orgulho. Azulejo. História de trancoso. Onça, alma, adevogado, paquera, madrinha, festa de são Gonçalo, barca de noé. A arte de contar, se alguém pensa que já viu, se não for esta, foi muito pouco quase nada. Gente de toda idade passando em moto, chega dá aperto no peito. Mãe Bia, Capazorelha, O Vó, Pai Sal, gente que já não está mas é como se. "Manel, qué casar com uma santa?". Relógio de ouro. Parede que fala, boneca que dança ao som de palmas, calça rasgada num susto, bolsinha perdida e achada, "vestigar". Um passado dolorido, mas também bonito. Um presente bonito, mas também dolorido. Eu fui. Fui? Lá chegando, já estava. Pois lá tem minha gente. 



Lamento um bocado não morar perto de vocês e poder sentar num boteco e contar todas as histórias dos meus tios (tios-avôs) e os aprendizados e conclusões decorrentes. Claro que é triste pra mim, mas que perda imensa pra vocês.


***************************************

Uma maldade. Nós somos uma sociedade excludente e cruel. Dá uma angústia andar pelo sertão e ver, retornando, a miséria, falta de perspectiva, ver de novo a fome, crianças fora da escola, pedindo, homens sem trabalho, tapando buraco na estrada, arriscando-se por uma moeda ou cédula de pequeno valor. Nossa sociedade é torpe. 

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...