quarta-feira, 23 de maio de 2018

Cortiça


É engraçado como a gente pode se sentir distante de alguém que já foi tão próximo.

Às vezes eu uso engraçado, mas não é sobre algo que me faça rir.

Percebo que tenho e sempre tive uma vida muito protegida. Embora a minha amiga não goste do termo, é uma vida, no sentido a que vou me referir, privilegiada. Leio e escuto, por exemplo, pessoas falando de pessoas chatas com quem convivem. Eu não convivo. Não convivia, não convivo. Por sorte, primeiro, por escolha, agora. Minha família expandida é divertida. Muito. Uma infância de vila, uns tios maneiros, umas primas confidentes. Sempre tive oportunidade de ler muito, então só tive os amigos e companhias que quis ter na adolescência, incluindo o grupo de jovem da teologia da libertação e não da renovação carismática. Na faculdade, entrei logo para o projeto de extensão mais cheio de gente boa. Sim, tinha uma chata, mas não ficávamos perto uma da outra (ela devia me achar chata também). Depois um mestrado de amizade única e irmã do lado. Trabalhos, só os  que pagavam pouco e exigiam muito, no interior do estado, quem tem tempo de conhecer gente chata neste contexto? Depois, a autonomia (por enquanto) de lecionar na Universidade pública. Poder entrar na copa e dizer o que pensa sobre a palestra tosca da véspera. Não tenho colega de trabalho no FB. Levo livro pras confraternizações pra evitar conversa que não topo. Divido sala com uma amiga querida. Não faço parte de grupos de zap que tem pessoas que não são muito, muito íntimas. E é por isso que mesmo amando bastante pessoas que estão em um espaço, prefiro não frequentá-lo quando percebo que, ali, elas serão tolerantes com piadas, ofensas, pensamentos que, em espaço aberto e vindo de pessoas desconhecidas, não seriam.

Li um texto bem interessante sobre os rumos das publicações acadêmicas e percebi como sou intransigente. Não consigo nem mesmo arrumar artigos de material que já tenho, só de pensar em submetê-los em outra língua que não português.

Se eu fosse rica contrataria alguém para sempre fazer suco pra mim.

Pensando aqui que o mundo gira, o tempo passa e eu sempre volto ao Guerreiro Ramos.

Estes dias um conhecido postou foto da sua sala e me deu uma saudade dolorida do meu divã. Porque a gente tem que ser tão orgulhosa e não tem coragem de dizer: pessoa, pode ficar com meu móvel guardado por 3 anos entulhando sua casa? Geralmente eu não me importo de não ter raiz, não ligar pras coisas, mas me arrependo, muito, de ter passado o divã pra frente.

Capitonê, serve pra costura, serve pro juízo.

Recomeça o semestre e eu arrumo meu quadro de cortiça. Umas coisas ficam, outras saem, troco o calendário letivo. Mise em place.

Também escolho novos textos, defino novas formas de avaliação, tento bagunçar meu pensamento pra não andar nas mesmas passadas que já dei. Só deixo quieto O Homem Bicentenário na disciplina de Psicologia: indivíduo, trabalho e organizações porque ainda não consegui pensar em um estímulo melhor pra discutir o que nos faz humanos.

Status: filme italiano.


Consegui fazer os dez minutos (que mencionei no post de ontem) da palestra virarem quinze. Nessa velocidade, precisaria de mais seis dias pra chegar ao tempo ideal. Porque não sou mais sabida?



Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...