terça-feira, 3 de abril de 2018

Magoar


Tem esta parte na gente (a gente sou sempre eu) que está constantemente dolorida. Como se a alma tivesse esbarrado em algo contundente e se a gente não mexe, quase não incomoda, mas se algo encosta mesmo sem querer, a respiração falha com a intensidade da dor.

Acho bonitinho como a gente dizia, na infância: magoar a ferida.

Daí a Juliana mencionou um livro da Tana French e eu mergulhei nele. Um daqueles policiais que o crime é um bom mote pra gente pensar sobre ser gente. No caso, adolescentes, amizades e amadurecimento. Acho que nessa época a alma leva umas pancadas que ficam sensíveis, naquele modelo acima, pro resto da vida.

Na minha caixinha acontecem coisas estranhas. E lindas. Como uma oferta de mar, amor, rede e cumplicidade. Estou contando os dias? Estou contando os dias.

Tem aquela parte no livro, que o moço fala que a amizade “congela” a gente. E aquela outra de todas as vidas potentes na fotografia, a que foi e todas que a mulher não viveu, mas poderia. E aquela cacetada que é redescobrir que o eterno é, justamente, porque já não existe. Só assim, nunca mais deixará de ser o que foi.

Senhor, dai-me dinheiro porque discernimento eu já abri mão.

Eu não gostava de tumblrs. Sei lá se já gosto. Mas gosto do meu. Um tanto pela série Ofélias. Como era mesmo... a beleza é o véu que encobre o horror da falta. E vício e verso. Ou algo parecido. 


"As pessoas possuem cicatrizes. Em todos os tipos de lugares inesperados. Como mapas secretos de suas historias pessoais. Diagramas de suas velhas feridas. A maioria de nossas feridas podem sarar, deixando nada além de uma cicatriz. Mas algumas não curam. Algumas feridas podemos carregar conosco a todos os lugares, e embora o corte já não esteja mais presente há muito, a dor ainda permanece...(...) Talvez velhas feridas nos ensinem algo. Elas nos lembram onde estivemos e o que superamos. Nos ensinam lições sobre o que evitar no futuro. É como gostamos de pensar. Mas não é o que acontece, é? Algumas coisas nós apenas temos que aprender de novo, e de novo, e de novo..."

Eu já disse por aqui... entre a ferida e a cicatriz, a pele fininha. E os cuidados que devemos ter. Reconhecer a fragilidade. E apreciar o desenho que a vida vivida imprime no outro e na gente. Eu já escrevi lá pelo biscate: se a ferida estiver demorando a fechar, inchada, com vermelhidão a muito tempo, dolorida ao toque, ou ainda se você estiver com dificuldade de deixar a casquinha fazer o trabalho dela, ficar cutucando, etc, procure um médico. Ou uma canção.

(eu me repito? sim, eu me permito)

Um comentário:

Lunna Guedes disse...

Viajei aqui nos últimos dias em que tantas coisas aconteceram comigo e eu só fui sentindo a pele rasgar. Respirei fundo, olhei o sangue e pensei 'escorre tudo de uma vez'. Já me magoei muito (me sinto velha quando digo isso e adoro ouvir-me e me sentir) mas hoje dói menos e não sei o que isso quer dizer. Não me diga. Sei que me incomoda por algum tempo.
Enfim, sempre há o que ler, escrever...

bacio

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