quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Call Me By Your Name, um filme que dá vontade de morder

Ontem foi divulgada a lista dos indicados ao Oscar e começou minha correria para ver o máximo possível até a data da premiação. Como eu sou uma pessoa de torcida e não de opinião (ou como essa frase cabe aqui pra justificar o post), já tenho favoritos em várias categorias mesmo sem ter visto todos os trabalhos. Isso significa que vou encher este blog de comentários não solicitados acerca de um bocado de filmes? SIM.

Pra começar, devo dizer que o filme do ano, pra mim, é Call me by your name. Até tentei escrever um post pro Biscate Social Club sobre ele (considero pertinente, ainda está aberta a vaga pra quem quiser fazê-lo) mas não consegui: tão bonito que me deixou sem palavras. Call me by your name não tem as cores, a narrativa, o ritmo de um filme de hoje. Até as letras dos créditos parecem destoar de uma estética do agora. A impressão que fiquei é de um filme de sempre. 


esta cena, ai, ai, oi passado da luciana, como vai?

Se alguém me perguntar sobre o que é o filme, eu não saberia responder. Mas sei o que ele fez comigo: fez-me olhar com ternura para os relacionamentos que tive quando era jovem, fez-me perdoar o atabalhoamento com que atropelei os sentimentos alheios, fez-me cantarolar docemente, com Luiz Gonzaga, “se a gente lembra só por lembrar, do amor que a gente um dia perdeu, saudade inté que assim é bom pro cabra se convencer que é feliz sem saber”... Como não consegui um texto amarradinho, vou por tópicos mesmo:

1. O Belo. Este filme foi, para mim, prioritariamente, a experiência da beleza. Um filme bonito. De uma beleza hedonista, calcada no prazer. É um filme de sensações: tato, olfato, visão, paladar, audição, tudo se faz presente e harmônico. Um filme que dá vontade de morder. As estátuas gregas, as paisagens italianas, a mesa posta ao ar livre, as frutas, as conversas. O desejo. O olhar passeia pelos corpos tornando-os bonitos. A luz que acalora os corpos e pede pele. O filme é extremamente generoso com todos os corpos, a câmera é gentil, como se fosse possível apenas isso: gozar. O erótico como belo. E comum. Próximo. A sedução, menos que um jogo, é uma dança. Um vai, pisa no pé do outro. Esbarram. Um pro lado, outro pro outro. Até que. São dois pra lá, dois pra cá. A beleza do fortuito. Do que não se pode manter, mas não se deixa esquecer. Do que fica.

2. O tempo. Desde Matar ou morrer não vejo um relógio tão bem utilizado. A partir do momento em que se conhece o teor do bilhete, a gente sente com Elio: a ansiedade, o tesão, a curiosidade, a tensão a cada espiadela no relógio. É um belo contraponto para a forma como o tempo aparece no resto do filme: fluido, perene, sem obrigações. Pode-se ir nadar ou comer ou ler ou tocar piano ou andar de bicicleta ou pegar frutas no pé ou dançar ou cochilar ou nada fazer, sentindo o tempo apenas ser. Menos naquele dia. Naquela hora. Tem uma reflexão da Izzie, em Grey´s Anatomy, com a qual eu costumo concordar: “Você nunca sabe qual dia será o mais importante da sua vida. Os dias que você pensa serem importantes, nunca são tão importantes quanto você imagina. São os dias normais, os que começam normalmente, que acabam se tornando os mais importantes. (...) Você não reconhece o dia mais importante da sua vida. Não até que você esteja bem no meio dele. O dia que você se compromete com algo ou alguém. O dia que você tem seu coração partido. O dia que conhece sua alma-gêmea. O dia que você percebe que não há tempo suficiente, porque você quer viver para sempre. Esses são os dias mais importantes... Os dias perfeitos”. E por isso Elio é privilegiado: ele sabe. Aquele talvez não seja “o” dia mais importante porque esta é uma escala impossível, mas é “um” dia importante. E ele se permite. É um filme em que o tempo é sempre evocado, o tempo que é fluxo, fluido, potente; o tempo que é compromisso, promessa, espera; o tempo que é finitude, despedida, separação. O tempo que é em Elio, o tempo que vai ser, o tempo que foi – como sente e diz seu pai. O tempo das desimportâncias, que é onde a vida acontece. O filme não tem pressa de ter uma história, é como se o ponto final é que desse sentido ao foi contado.




3. O Eu é um Outro. “Me chame pelo seu nome que eu lhe chamo pelo meu”, tão linda frase e com tantas interpretações possíveis, todas elas com o subtexto: amor, que nunca é nomeado, mas que se faz presente por todo o filme. Me chame pelo seu nome porque você está tão dentro de mim e eu te chamo pelo meu nome porque sei que estou tão dentro de você: o amor é uma confiança.  Algumas pessoas reclamaram que o filme é arrastado. Penso eu que o ritmo é justamente a chave que dá consistência a esta construção de um no outro. É no vagar, nas entrelinhas, nos dias longos e nas noites quentes que a ausência de um vai se fazendo presença no outro. Quando Elio passa a usar o cordão tal qual o loirinho, tão bonito o signo, me lembrou Vinícius, a menina com uma flor e as camisas esporte. Amar é saber o outro em nós. Chega meu coração falhou uma batida. “Me chame pelo seu nome que eu lhe chamo pelo meu”: o amor é um aprendizado, uma transformação. Com quem amamos aprendemos sobre quem somos, o que nos mobiliza, o que nos atrai, o que nos afasta, o que nos conforta, o que nos machuca. Com quem amamos aprendemos sobre quem somos, como machucamos, afagamos, afastamos e atraímos. Não é o outro que nos define, mas ao construirmos uma relação, juntos construímos a nós mesmos. No comecinho do filme Elio diz: o usurpador, ele chegou! e ele está falando do loirinho, mas sabendo que é o ponto final que dá sentido à narrativa, podemos pensar que ele se referia ao amor.

Elio ou Você é o Sol. Depois que o filme assentou em mim fiquei pensando em Educação. A ligação mais óbvia é que os dois filmes são protagonizados por adolescentes, mas eu sentia que tinha mais coisa. A conversa com as amigas no FB me fez achar o que eu não conseguia nomear. Nos dois filmes os adolescentes se envolvem com pessoas mais velhas e o senso comum nos diz que eles vão se dar mal, afinal seus parceiros são adultos, sofisticados, experientes. E, nos dois filmes, este tapete é puxado. Os dois jovens aprendem. Os dois jovens se permitem. Os dois jovens acolhem a dor e a alegria e os transformam em ternura. A gente sabe que Elio vai seguir sentindo. Atraindo e sendo atraído. Que as despedidas abrem espaço pro que será. Vi reclamações de que Elio é muito indeciso. Como se o desejo fosse linear e certo. Não é. O desejo não tem objeto certo. Ele vaga. Desejamos o que não sabemos nomear, o desejo é uma inquietação. Vamos revestindo essa incerteza com rótulos que nos tranquilizam: filho, diploma, Fulano. Mas, por baixo da seda, faca amolada. A gente nunca para de querer e de não saber o que se quer. É o loirinho que é bonito, maduro, intrigante, atraente, à primeira vista. Mas, ainda assim, é Elio, desengonçado, imperfeito, incompleto, que brilha. Que esquenta. Que se deixa arder.

Ou fale ou morra. Provavelmente grande parte do meu encanto com esse filme é autoindulgência. O filme mostra o relacionamento entre dois homens e não quero tirar o foco daí, mas ele fala mais, fala do relacionamento entre duas pessoas. O filme todo eu não pensei em heteros ou gays ou bissexuais ou whatever. Assisti pensando em pessoas e desejo. Me reconheci, uma luciana que foi, em Elio. Na fome. Na inconsequência. No acolhimento da sua vontade e da sua falta. A conversa que eles tiveram: você sabe coisas demais/eu não sei nada do que importa/ não sei porque você está falando disso comigo/ ah, você sabe sim, podia ter sido tirada do meu diário, se eu tivesse escrito um. O amor é a vertigem ante o abismo e Elio se lança. Deu-me vontade de abraçar uns tantos homens que conheci quando reconheci a reserva, o desejo, o olhar do loirinho. Elio o fascina e assusta pela simplicidade do seu desejo. Aquela cena na vila, eu beijaria você agora, se pudesse – quem nunca? Ressoou em mim como se fosse um agora. Nostalgia gostosa. O filme é previsível E que bom que é. Ele evoca os amores que foram. O amor é uma jornada. Atravessamos a nós mesmos e daí sabemos o que sobreviveu e quem passamos a ser. O verão nunca vai terminar – sabemos nas lágrimas de Elio -  e, ainda assim, ele já era mesmo quando ainda estava sendo. Antes de ser, inclusive. Para recuperarmos o ar, depois da travessia, podemos precisar de ajuda e, por isso, me tocou tanto a mãe ir buscá-lo como a conversa com o pai. Cada um, a seu modo, sustentando a máxima do Vinícius: o amor só é bom se doer. Ou: o amor, quando é bom, dói. Faz parte. Eliminar a dor é impossibilitar a alegria.

E o filme tem uma cena na estação de trem: como não amar?

PS. Porque não se pode dizer tudo, o amor, assim como a verdade é o impossível de dizer, as cenas feito rima:








PS2: Pra não se perder a minha impressão sobre o filme: o cara pode ser lindo como for, tem que ter um jeitinho pra ficar bem de bermuda.


PS3: Provavelmente uma das coisas que me fez gostar ainda mais do filme foram os bons textos que quem gostou escreveu sobre ele:

texto do Eduardo Sterzi

texto do Eduardo Benesi

entrevista com o autor do livro

texto do chico fireman

outro texto do chico fireman

2 comentários:

Cláudio Luiz disse...

"Provavelmente uma das coisas que me fez gostar [ainda mais] do filme foram os bons textos que quem gostou escreveu sobre ele:"
o seu tá no ponto.

marcos farias disse...

Lindo texto,filme glorioso.

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