segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Planeta dos Macacos


Call me nostálgica e, em muitos aspectos, não estará errado. Este fim de semana fiquei brincando de pega-pega com uma gripe e mal saí da cama, que dirá de casa. Aproveitei e vi uma ruma de Planeta dos Macacos. É aí que entra a nostalgia. Como o filme de 2011, com muito mais tecnologia, referências e dinheiro pode ser tão inferior ao da década de 60? Parece que a gente esquece que o que importa é contar uma história. A pressa de fazer tudo acontecer faz perder o fio de meada, a consistência dos eventos, a força dos personagens.
No filme de 60, antes de qualquer conflito ou confronto já sabemos muito sobre os personagens que saem da nave. O que curte ser um desbravador e faria qualquer coisa se soubesse que leva ao conhecimento. O que almejava a glória e a imortalidade. E o líder, aquele que ele não tem vínculos com a Terra, mas se sente solitário. Que é meio cínico (veja a risada que ele dá quando o companheiro de nave coloca uma bandeirinha dos EUA no planeta “descoberto”). É ele que apresenta o que trazem, no balanço que faz antes de seguir a pé: armas, comida e tal. E é ele quem diz, como se fosse cético, sendo apenas ingênuo: eu acredito que em algum lugar do universo há alguma coisa melhor que o homem. O filme nos prepara pacientemente para a jornada, estamos prontos, podemos seguir com ele percorrendo o planeta novo. No filme do Tim Burton nada é convite, tudo é imposto. Do nada o cara sai voando na navinha. Vai por apego ao chipanzé extraviado? Porque ele se sente entediado? Aquela mensagem dos amigos na Terra, qual o sentido? Não sabemos nada do personagem e ele cai no meio de uma caçada, tonto e nós mais que ele. O atordoamento dele passa rápido, o nosso dura o filme inteiro: porque mesmo isso está acontecendo e porque insistimos em ficar até o fim e não desligamos a tv?
Aí vem a captura. No filmão antigão a galera se liga nos trajes exóticos do astronauta. No filme novo, não faz diferença. Zero curiosidade e é porque eles são a espécie dominadora. Aliás, no filme novo não tá claro o porquê. Talvez tenham tentado des-antropomorfizar a civilização dos macacos, mas não conseguiram construir nada no lugar. O filme de 68 é uma jornada reflexiva sobre nossa humanidade, sobre o processo civilizacional e suas limitações. Cada embate de Taylor com os doutos símios é um questionamento sobre nossos próprios processos de produção de cultura/estrutura. Quando Taylor pergunta: do que você tem medo? é uma convocação ao espectador. Sempre que assisto essa pergunta reverbera em mim.

Gosto de tudo no filme de 68 (ou de quase tudo): gosto da forma como o relacionamento entre Taylor e Zira vai se estabelecendo, gosto da crítica evidente à miscelânea entre ciência e religião, gosto que o herói seja um cético escroto, gosto da forma didática como a questão da civilização/evolução é tratada. E gosto demais da cena final, mas é, também, minha maior ressalva, também: neste momento, não precisava ser tão explícito e explicar tudo pro espectador em fala. Dou o desconto pra época, mas mesmo assim me incomoda. Deixa o Taylor cair no chão, ajoelhado e chorar e mostra pra gente a Estátua da Liberdade sem precisar mastigar. Todos nós sabemos que nesse passo não chegaremos em outro destino mesmo. 

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