segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Fôlego


Eu entendo cada um dos pecados capitais. Mesmo. Luxúria, como não? Inveja, ira, avareza, preguiça, orgulho, gula. Tudo tão humano. Essa fome de sentir, de viver, de tentar garantir alguma completude, de tentar vislumbrar alguma felicidade. Mas eu realmente tenho dificuldade de lidar com a falta de gentileza.

Outra coisa que entendo: que o vislumbre da finitude seja aterrador. O que tenho dificuldade de lidar: a forma tosca como a sociedade tenta esconder o tema embaixo de um tapete tecido às custas de galhofa, zombaria e desprezo pelo corpo das pessoas velhas.

Status de relacionamento: volto mais cedo da farra pra ver os gols da rodada. 

O pecado capital do fim de semana, inclusive, foi a inveja. Comecei a reparar em um tanto de pessoas vivendo vidas que eu não vivi. Não estou bem certa do que tenho inveja exatamente. Por uma série de escolhas e valores e desejos, abri mão delas. Hoje, se me fossem oferecidas, voltaria a recusar. E, ainda assim, a inveja. De alguma coisa que eu nem sei se está lá. Durma-se com um barulho destes.




E tem o medo. Aquele. De sempre. Que por mais presente que seja, nunca me acostumei com a companhia. Que assombra ainda mais os dias que as noites. Confundo com preguiça. Apelido de procrastinação. Disfarces para ver se o distraio. Ou me engano. E, ainda assim, seu constante hálito frio.

As coisas que a gente aprende prestando atenção. Todas as vezes que revejo Grey’s eu tenho dificuldade de seguir do último episódio da terceira temporada (quando Burke e Cristina não casam) e o primeiro da quarta. Eu vejo outras séries. Leio livros. Assisto filmes. Até trabalho. Procrastino. São minhas férias no Havaí. Que a gente nunca sabe direito o que lá aconteceu. Ou suspeita que nada aconteceu. Mas que precisa ter existido para tomar fôlego.

Eu viajei com minha cunhada. Fomos ao Louvre. Em determinado momento, depois de muitas salas, quadros, esculturas, painéis, ela virou pra mim e disse: deu. Vamos embora. Não aguento mais tanta beleza. Já não estou conseguindo apreciar. Achei de uma incrível sabedoria. Esta semana eu vi Versailles. E sentia exatamente isso ao fim de cada episódio. Que precisava ir embora da série. Havia beleza demais nos cenários, roupas, atores. Para usufruir de verdade eram necessários intervalos. Trapped, então.

A beleza é o véu que esconde o horror. O horror da morte, da falta, da impossibilidade. Encobre, principalmente, o Nada.

A vida é o que me acontece entre uma viagem e outra.  


4 comentários:

Renata Lins disse...

sou muito, muito assim. preciso de respiros. de quietude. de silêncio. preciso ir embora de vez em quando. entrar em mim pra digerir. belezas, tristezas, alegrias. tudo o que for muito. minha alma paquidérmica precisa de tempo e de calma.
beijo pra você.

Rita disse...

O terror da finitude, né. Verdade. Ainda bem que temos a arte - a gente faz um intervalos se precisar, sim, mas é ela que nos salva. Eu me agarro a ela, pelo menos.

Bj

Carla Regina disse...

Como eu queria um café com você, meu deus.

Rozane Alencar disse...

Luciana, como pode a vida ser assim tão justa, tão na conta certa. Escuto você em uma vontade infindável de te dizer exatamente isso.

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