quinta-feira, 29 de junho de 2017

Do que incomoda. Do que conforta.

Sabe quando você sabe que tem coisas que poderiam melhorar a vida? Saber é o primeiro passo, mas não é tudo (oi, psicanálise, não, não estava pensando em você). Congelar, por exemplo. Eu poderia ter carne no congelador. Mas eu não gosto. Poderia fazer molhos e congelar. Pesto, que eu adoro. Congelar folhas, como rúcula e espinafre. Fazer sorvete de manteiga com ervas. Congelar feijão sem tempero. Pedaços de frango adequadamente cortados, temperados e embalados. Mas. Todas as vezes que eu tentei, a comida foi ficando, ficando, criando aquela cobertura de gelo, até virar algo indefinível e acabar indo pro lixo. O que eu congelo: peixe, camarão, essas coisas. Gosto de ir ao Mercado, no Mucuripe, comprá-los frescos, chegar em casa e separar nas porções adequadas para, aí sim, deixar no congelador esperando o momento de serem comidos (spoiler: logo). Se eu congelasse iria menos ao supermercado, passaria menos tempo cozinhando, etc. Mas eu não gosto. 

Quando escrevi sobre isso no FB foi de uma forma ambígua. Não foi intencional, mas gostei tanto da dubiedade que mantive. Mais de uma pessoa entendeu (com razão, já que não coloquei vírgulas na frase: Sim, eu sei que se eu congelasse minha vida seria mais fácil) que eu falava de congelar a vida. Pode apetecer, à primeira vista. Aquele momento gostoso em que tudo vai bem, trabalho, moço, grana...opa, vamos manter, resfria, vai, resfria. Ou, o contrário, problemão que a gente não consegue lidar? Deixa no congelador até ter uma resposta adequada (como uma coisa puxa outra, lembrei dos jogadores que, com mau desempenho, ficam na geladeira e da expressão “dar um gelo” em alguém). Sei lá pra onde eu ia, daqui. Começou o jogo Alemanha X México e em poucos minutos estava 2 a 0. Fiquei presa lá e foram-se embora as conexões, os insights, as amarrações de um congelamento no outro. O que eu sei é que quando congelo molho, carne, feijão e tento comer, depois, acho meio sem gosto. Sem graça. O courinho da galinha, por exemplo, já não serve pra fazer uma boa farofa. Imagino que aconteceria o mesmo com aquele momento maravilhoso, ao ser congelado, algo da sua elasticidade, brilho, sabor, seria perdido. Ou posso ficar com a postura madura com que terminei o parágrafo anterior: eu não gosto.


Ainda sobre comida, já fiz massa com um bocado de molhos. Mas de vez em quando eu gosto mesmo é de meter o macarrão num refogado simples: bacon, cebola, alho, tomate, manjericão, sal, pimentinha e, com sorte, uns cubinhos de queijo coalho. 


Não é só que eu esteja revendo Downton Abbey. É que estou revendo e revendo e revendo o primeiro episódio. E é engraçado (não achei palavra melhor) como DA parece quase o contrário de Grey´s Anatomy. Em GA os personagens mudam, evoluem, e esse é o encanto. Em DA, não. E, contraditoriamente, isto também é encantador. Desde o primeiro episódio lá está a arrogância de Mary, a doçura aristocrática do Robert, a sensibilidade prática da Edith, o vínculo de Carson com a casa, a admiração condescendente e carinhosa de Mrs. Hughes por Carson, o bom humor forte e sobrevivente de Mrs. Patmore e por aí vai. Passam anos, temporadas e os termos para os definir mudam muito pouco. E fazem lembrar, de um jeito torto, aquelas frases do começo de E o vento levou... aqui, neste belo mundo, o galanteio fez sua última aparição.

E é, provavelmente, esta certa estagnação (também não achei palavra melhor) que faz com que rever DA seja tão confortador pra mim, nestes dias. A certeza de encontrar o belo. Da forma mais gentil. Então, eu revejo. E rio sempre de Violet reclamando da luz elétrica. E me indigno sempre com a maledicência da O'Brien. Há um prazer neste sempre. A certeza da constância da minha reação também me conforta. O que não muda em mim. Apesar de.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...