terça-feira, 30 de maio de 2017

Os Russos

Tem poucas coisas que eu faço todo dia. Tomar banho é uma delas (em qualquer clima). E, ultimamente, voltei a escrever diariamente. Quando falo de escrever não estou me referindo às inúmeras linhas de e-mails de trabalho, páginas de artigos, memorandos, status engraçadinhos ou revoltados no FB. Estou falando daquela empreitada falida de tentar colocar sentido no lugar do oco. Esticar palavras feito cobertor curto pro real. E, de vez em quando, usar com tesoura pra rasgar o véu. Ou seja, contradizer(me). Faz bem, mesmo que nem sempre seja bom. É aquela pocinha d’água arriscada do amigo Narciso. Espelho de Medusa. Mas, também, fio de Ariadne.



Quanto mais escrevo, mais vontade tenho de ler – e não livros de trabalho, não compreensão da geopolítica, não tratados antropológicos. Literatura. Biografias. Psicanálise.

Dia de quarta tem futebol.

Status: amigo imaginário.

As coisas que sinto saudades: deixar a comida fora da geladeira. Fazer mercado a pé. O cheiro da rua.

Quanto mais escrevo mais percebo que não tenho assunto.


Eu tinha preparado tudo para a última vez. Dormir de dedos entrelaçados. O olhar demorado de manhã cedo, antes de você acordar. As poucas palavras no trajeto. O abraço desajeitado na estação. Ia ser cálido. Escolhi e ensaiei esta palavra. Cálido sobe morno do peito e desliza suave na língua. Cálido não tem arestas.  Virar devagar, a mala pesada bambeando na subida da calçada, não olha pra trás, não olha pra trás, coloca a mala no bagageiro, entrega a passagem, não olha pra trás. Olhar. O embaçado do meu olho e o embaraçado do seu rosto. Meios sorrisos. Acolheríamos a saudade como se ela já fosse antiga. Eu tinha tudo preparado. Pena não ter combinado com os russos. 


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