domingo, 21 de maio de 2017

Milhões



Não com muita frequência, mas um número razoável de vezes, eu já pensei: e se eu ganhasse na mega-sena/euromilhões? Era o caminho único, achava eu, para ter uma quantidade absurda de dinheiro. Hoje eu já sei que, em algum lugar, pode ter uma conta com 150 milhões (de reais? de dólares?) no nome de outra pessoa, mas destinado a mim.

Caso exista, favor passar a senha.

Enfim, eu fazia planos, quando pensava nos milhões. Muita gente já os ouviu em viradas de noite com cerveja e conversa fiada. Mas enquanto a senha não chega, vou jogar conversa fora aqui também. Eu largaria o emprego pelo tempo que durasse o dinheiro. Tem gente que fala que ainda trabalharia, mesmo rica e tal. Eu, não. Por mais que goste do que eu faço, gosto mais de não fazer nada ou fazer só o que quero, quando quero e tal. Então, nada de trabalho pra mim. Em uma certa época, pensei em uma fundação, ong, qualquer coisa do gênero. Mas eu seria figura decorativa, pessoas engajadas e competentes tocariam o barco. Eu tiraria uma parte da grana pra viver um tempo como na Babylon do Zeca Baleiro e o resto seria pra mudar o mundo.

Depois, menos altruísta, pensei em divulgar pros amigos: vamos gastar até acabar? Viajar com petit comite – ou nem tão petit assim, dependendo de quantos amigos topassem a aventura. Ir pra todo lado, um avião só pra gente, comida farta, risada solta e logo tanto ficaria nada e voltaríamos todos, meio bêbados do encanto, duvidando da realidade do vivido, para o banal, com suspiros enigmáticos de quando em vez.

Sou de criatividade limitada: comida, bebida, passagens, entretenimento. Duas malas de mão: um com roupas miúdas, outras com roupas grossas.

Eu não compraria coisas. Digo, bens permanentes*. Eu gosto da volatilidade. Uma pessoa de âncoras, não de raízes, como escrevi um dia. Quartos de hotéis. Uma villa alugada no interior da Itália. Um apartamento apertadinho no Quartier Latin. Uma casa antiga e espaçosa em Montevidéu. Uma cabana no Vietnã. Um apartamento moderno em Sidney. Uma ilha no Caribe. Um sei lá o quê em Tokyo.

Compraria também um monte de canecas e ímãs de geladeira. Por favor, não perguntem pra colocar onde

Beberia sangrias. Espumantes indecentes. Vinhos, cervejas e drinks de nomes exóticos e sabores esquisitos. Comeria no restaurante do italiano do parmesão e no Bitoque, minha cozinha preferida em Lisboa. Queijos, queijos, queijos. Até uma lasquinha daquele de leite de burra. Visitaria museus com guias preparados e exclusivos. Veria filmes, filmes e filmes, abriria cinemas em sessões especiais pra rever tudo do John Wayne. Sentaria em cafés esquecida do tempo. Acompanharia uma turnê da Bethania. Compraria temporadas em teatros, a temporada de ópera, os concertos, o balé. Montaria um evento literário só pra chamar Verissimo e Chico Buarque e ter uma mesa redonda mais parecida com uma mesa de bar, papo solto, talvez fizesse mesmo o evento em um barOPS. 

Ok, talvez comprasse livros. Mas nem precisaria ser primeiras edições de capa dura e com dedicatórias escritas a punho pelos autores para seus amantes ou rivais preferidos. Pode ser edição de bolso vendida em aeroporto mesmo. 

Eu cozinharia. Iria até onde o ingrediente está. E cozinharia. Em fogões modernos, em fogão a lenha, em cozinhas frescas com ilhas gigantes e coifas, em cozinhas espaçosas com cheiro de alho e cebola, panelas de barro, mesas de madeira. Visitaria amigos. Voltaria a lugares. Aquela barraca querida em Canoa, aquele Cristo esquisito perto de Taranto, os smurfs na estátua dos burgueses, o Pedro jogador em Pedra Branca.

Compararia azuis. Dos céus. Do mar. Viajaria a favor do sol, procurando os dias longos. E, depois, ao contrário, até uma noite encontrar a outra.


*Ok, talvez decidisse comprar uma casinha - numa cidade média, com transporte público eficiente, feiras na esquina, teatro e calçadas baixas - para quando chegar a velhice, se nela eu chegar.

** eu sei lá se eu faria isso mesmo, talvez desse tudo pro sindicato dos trabalhadores rurais de Ipaporanga. Mas é divertido pensar bobice, né.

*** e mecenas? sempre achei legal. quem sabe uma mecenas modernosa, apoiando equipes olímpicas e escritores talentosos.

**** mas a verdade é que ninguém vai abrir uma conta milionária pra mim e eu nem jogo na megasena. O que tenho, no momento, é um óculos defasado, uma pálpebra inflamada e a carência do plano de saúde que ainda não me permite "ver" um oftamologista.

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