segunda-feira, 22 de maio de 2017

Big Little Lies - Monstros, Sonhos, Tesouros Escondidos

Se você se importa com spoiler, não leia o texto, 
é provável que tenha um bocado.


Eu não sei o que cada um vê quando assiste Big Little Lies. É um pouco como espiar o mar, acho. Um enorme e navegável clichê. Uma beleza estonteante. "Quando um mar tem mais segredos é quando é calmaria...". Na superfície é um compacto Desperate Housewives. Donas de casa de classe média (aquela classe média idealizada norte-americana, muito dinheiro, muito tempo livre, muitas neuroses) em conflito. Para mim é, principalmente, uma série sobre alguém que se importa e como não basta - e isto me tocou muito. Não ser suficiente, a síntese do que é humano.

A série é muito bem dirigida, consegue equilibrar coisas como fofoca, rivalidade, bullyng, estupro, violência doméstica, relacionamento extra-conjugal, crise de adolescente, maternidade e mais uma porção de drama sem escorregar na saída fácil da emoção comprometida. É esteticamente empolgante, luz da bonita e idealizada cidade, sombras nas vidas íntimas. Nenhuma vida é perfeita, poderia ser um resumo precipitado. Porque sim, é isso que a trama nos diz, mas não fica na constatação. Ela nos faz perguntar os porquês. Cada episódio é uma espécie de abismo que nos convida à vertigem e depois nos sacode de novo no material da vida.




Inveja, mesquinharia, desejo, carinho, medo, ressentimento, culpa, mágoa, amizade, cumplicidade, raiva, um mosaico do humano em entrelinhas consistentes. Segredos, daqueles que escondemos tanto de nós mesmos como dos vizinhos, cujo olhar e aprovação praticamente nos define. Angústia, como se o viver fosse em queda livre.


Cada personagem carrega uma dor ou duas. Temos a mãe mais jovem, traumatizada, que cria o filho sozinha e é sempre meio injustiçada. A vítima de violência doméstica, psicológica e física. A mãe executiva, cheia de culpa e arrogância. A namastê sedutora vida saudável que não se enturmou muito bem. A “abelha-rainha”, mãe em tempo integral, que é alvo de uma admiração invejosa e que sofre com o crescimento das filhas. Um enorme dramalhão? Seria, não fosse a delicadeza, a ambiguidade, a sutileza com que os temas e vidas se desenvolvem, se enroscam, se contradizem e se sustentam.

Eu gosto da Madeline (sim, no presente, é daquelas personagens que levo comigo pós-evento, daquelas de quem sinto saudade, em quem penso quando vou decidir alguma coisa, etc). É uma série de frestas e é nela que isto mais se evidencia. Madeline parece ser o modelo e é onde ele implode. Ela é intensa. Tem valores, se compromete com eles, ignorando saídas fáceis. Se mete na vida alheia e tenta torná-las melhor. Suas próprias rachaduras e falhas são escamoteadas mas estão ali, prontas para se tornar ebulição. Ela se importa, eu disse logo no começo do texto. Preocupa-se com a formação que está oferecendo às filhas – e vê o relacionamento da filha com a madrasta como um sinal de que ela não basta. Preocupa-se se não é suficiente o relacionamento que tem com o marido – e compara a própria vida sexual com a vida sexual alheia e acha que ela não basta. Preocupa-se com os valores da comunidade e com uma petição tentando proibir uma peça – e acha que se não conseguir convencer o prefeito a apoiar a produção é porque ela não fez o bastante, não basta. Vê a injustiça no colégio das crianças e toma partido. Nada menos do que conseguir um tratamento justo para todos parece ser o bastante para ela.  



Madeline fica ali, olhando o mar e tomando café. O que você está olhando? Nada. A potência do mar. Monstros? Sonhos? Tesouros esquecidos? A impermanência, ela parece responder. Ela sente a falta. Do quê? Não se pode saber. Porque não há palavra que diga o real da ausência.

O que mais gosto em Madeline é que ela se vincula, faz laços, parece ver mesmo as outras pessoas. Mas ela erra. E muito. Mesmo procurando ver o que há pra ser visto ela não vê a orientação sexual do amigo barman, a violência sofrida pela amiga, a carência da filha, a insatisfação do marido. Porque a gente não basta, nunca.


E quando as coisas explodem na sua cara ela não evita. Mergulha. Não ignore a ferida, jogue álcool nela. Ela se inquieta por não ser o bastante. E se surpreende e se machuca ao perceber que não há o que baste para ela, também. Viver não é suficiente, mas a outra opção é pior.


Ela não explica nem se desculpa. Ela acolhe sua falha como uma maneira de sobreviver. Enquanto a manutenção da imagem de perfeição isola cada mulher em seu inferno próprio, Madeline busca o contato. Somos vulneráveis.


Adoro quando ela chora. A grande ficha caindo. Que não tem metade da laranja. Que a paixão inconsequente também não ia completá-la. Nada completa. Ninguém completa. A gente faz, do possível, felicidade. 





Madeline e a série parecem encontrar um desfecho maduro. Do tipo de maturidade que anseio. Que reconhece a dor, mas valoriza a beleza. A cena final, o silêncio, a tranquilidade impermanente, a abertura para a incerteza, tudo isso me comove. Não sabemos as respostas. Não. Não existem as respostas. Mesmo o desenlace que liberta, pesa. Mas seguimos. De vez em quando, entre amigos. Entre amores. E à beira-mar.

PS. Ia escrever um pequeno texto, virou isso aí que vocês leram (ou não). E ainda não cheguei nem perto de tudo que quero falar, tem o lance da narrativa da Jane, a memória da violência, que quero abordar: tem o lance do mar como personagem, que também quero mencionar; tem o lance do bullyng e a personagem da leura dern, affe, é muita coisa pra tratar.

4 comentários:

Monix disse...

Muito, muito obrigada por me explicar por que eu amei Madeline! E quero ler sobre essas outras coisas todas aí :)))

TinaLopes disse...

Quero que você leia o livro pra comentar depois, também, porque como tenho os dois na cabeça, misturo muito. E mesmo sendo um livro leve, aparentemente, ele cria essas imagens (as pessoas também são menos ricas e lindas). Adorei o texto, você encontrou poesia na explosão. ;)

Juliana disse...

não vi a série, só li o livro. Gostei tanto do livro, gostei tanto de Madeline.


não sei se consigo ver a série. O livro apertou meu botões, apesar de ser uma leitura leve, foi difícil levar até o fim.

Mesmo não tendo visto, não me conformo com Nicole Kidman como Celeste. A Celeste da minha cabeça não é uma boneca.



Renata Lins disse...

Achei o post bem lindo. E é isso, o mar. O mar como personagem. O barulho do mar, sempre, marcando o ritmo.
Madeline é uma personagem sensacional. Mas gostei de todas elas. Gostei da falta de maniqueísmo. Gostei que quem parece mais injusta tem de repente um gesto de grandeza. Gostei que a criança culpada não fique estigmatizada, tão pouco americano isso. Gostei do final aberto e da pouca importância do "quem foi que matou". Porque não é isso que importa.

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