sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Cavalo


Até que chega o dia em que você se apega ao cavalo.

Todo mundo sabe (porque eu vi nos filmes e livros e todo mundo, no caso, sou eu) que há situações em que é preciso sacrificar o cavalo. Mesmo que você ame o cavalo. Que ele tenha sido vital pra sua sobrevivência nas pradarias. Que lhe carregue durante o dia e seu resfolegar manso lhe faça companhia nas noites. Que ele seja seu companheiro de estrada há muito tempo. Que ele tenha o pelo macio e o olhar morno e afetuoso. Se o cavalo enfia o pé no buraco e quebra a pata longe de tudo (ou mesmo perto, nos filmes e livros ainda não existem veterinários), é preciso sacrificá-lo. Dê um tiro logo nele. É a atitude corajosa. E generosa. A alternativa é uma longa e dolorosa agonia. Dê um tiro. Na cabeça. Entre os olhos. Sim, de frente para esse olhar vulnerável e perturbado – porque dói tanto? ele parece perguntar – mas, também, confiante de que você vai ter uma resposta. E a resposta é: acabe logo com isso. Dê um tiro. Faça a coisa certa, é o que o olhar diz, sem saber que a coisa certa é uma despedida definitiva.

Eu sempre me irritava com as pessoas que tinham dificuldade de tomar a decisão. Afinal, o certo e bom estava previamente definido. Um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer, mesmo que este homem seja uma mulher. Eu sentia. Eu sabia. Superior. Ética. Dê logo esse tiro, eu esbravejava com o livro, com a tv, com a tela do cinema.

Até que chega o dia em que você se apega ao cavalo. E ele enfia o pé no buraco.

E mesmo o certo e bom estando dado, você (que sou sempre eu) titubeia. A perna quebrada. A agonia. Mas. Afinal. Entretanto. O olhar do cavalo, no agora. As memórias do cavalo, no antes. As esperanças de montaria, mesmo infundadas, pro depois. E a gente (eu, eu) vacila. Arrodeia. Pondera. Procura alternativas. E se. Uma tala? Nem. Paliativos? Nem. Outra pessoa pra fazer o necessário? Nem. E o tempo latejando.

É preciso colocar a cabeça do cavalo no colo. Acariciar seu pescoço lentamente, olhando firme em seus olhos até que o afeto aja como anestesia temporária. Sentir o sal escorrer do seu olho para o dele. Encostar suavemente o cano na têmpora. Apertar, firme. Deixar a arma deslizar, abraçar aquele corpo íntimo até senti-lo frio. Empilhar pedras. Colocar a sela nas costas.

E ter cuidado para não enfiar o pé em um buraco sem ter alguém melhor que você por perto.

2 comentários:

fal disse...

que lindo isso.

Marissa Rangel-Biddle disse...

Tão bonito e tão dolorido.

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