quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Tempo e Espaço

Sei que privilégio é uma palavra controversa, mas é um privilégio, ou, vá lá, uma vantagem, ter história. No nível subjetivo, claro, saber de onde se vem ajuda a dar aquela orientada no pra onde se vai ou pelo menos porquê esses caminhos se apresentam. Mas eu estava pensando em uma coisa mais material e ordinária, como ter móveis usados para comprar. Você que mora no Rio de Janeiro ou Salvador, alegre-se por ter passado, história materializada naquela cristaleira que precisa de um novo vidro e verniz, nas cadeiras charmosas de palhinha, nas mesinhas de base de ferro, vasos e pequenos ornamentos que se amontoam em antiquários ou lojas comuns de compra e venda de usados e que pedem pra ir pra sua casa. Eu vivo em uma cidade nova. Eu cresci em uma cidade de espírito novo. O que é velho é ultrapassado e dispensado (no segundo caso) ou simplesmente inexistente, na cidade atual. A gente só encontra acrílico e mdf e coisas assim. Móveis descartáveis ou peças assinadas caríssimas. Nas lojas de usados você acha apenas móveis de escritório, estantes de ferro e afins. Não tem nem antiquário em Fortaleza, Luciana? Tem, onde uma peça (telefone) da década de 50 é considerada “uau que velha”. Aqui o adjetivo “novo”, parece-me, tem o poder e função de trator. Tantas casas demolidas para novos prédios, fachadas icônicas ignoradas e trocadas por vidro espelhado e aço. 

Parecia normal me sentir desenraizada e solta por aqui, afinal cresci num outro ali - que devia funcionar como a memória idealizada de casa/lar. Mas fui bem pra lá do aqui e logo sabia me virar. Conforto. Voltei e mesmo juntando todos os anos passados ainda me sinto estrangeira, não conheço nada, não sei onde encontrar nada, vou aos mesmos lugares pelos mesmos caminhos, distraída e sem ânimo de aprender. como se fosse desnecessário, um pouso rápido e não o lugar onde a âncora ficará uns 30 anos mais (se viva estiver).

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