domingo, 15 de janeiro de 2017

Eu li e vi Animais Noturnos. Sugestão: escolham uma coisa ou outra.

Eu vi Animais Noturnos. Eu li Animais Noturnos (mais exatamente li Tony & Susan, livro que foi adaptado para o cinema). Talvez se o filme fosse só sobre o livro dentro do livro tivesse sido melhor. Explorado mais o desenvolvimento de Tony, por exemplo. E a relação com o investigador. Modus que o que se segue sou eu me ressentindo por um livro do qual eu nem gostei tanto.

O livro não é ruim, mas não é bom. Tem umas sacadas bem inteligentes, a idéia é melhor que a execução. O filme é bom. Não excepcional. Toda a parte do suspense e a construção do personagem líder da “gangue” é muito bem feita. Mas o filme todo, pra mim, meio esquecível, apesar das cores maravilhosas. Talvez por eu ter lido o livro, o maneirismo nas reviravoltas não me cativou tanto. Ou talvez por achar que o roteiro acabou escolhendo alternativas fáceis para ficar mais didático. A mudança no perfil dos personagens fez muita diferença, acho. O Edward bonzinho, irgh. As mudanças na trajetória dele, nunca ter voltado a casar e tal, tudo isso afasta o personagem da sombra que ele é na vida futura de Susan. No filme fica parecendo apenas que ela foi escrota em trocá-lo por outro cara. Fica faltando nuance no Edward. O marido atual ser meio fracassado, isso também afeta a insatisfação de Susan. Fica parecendo que é a mesma insatisfação (nenhum homem está à altura das ambições e do sucesso dela) enquanto no livro se trata justamente do espelho, mesmo com um cara bem sucedido e estável o animal noturno que nela habita a invade e domina nas poucas horas em que ela se permite ficar sem controle do que pensa e sente. E, principalmente, Susan ser um sucesso nos negócios e ter tanta vida “fora”, isso muda demais os signos todos da história. Acho que facilitou o pareamento casamento Edward e Susan/O que rola no livro escrito por Edward. Daí os expectadores “entendem”. Mas acho que perde na sutileza. 

No livro Tony & Susan a inquietação e a não compreensão da mensagem são a tônica. Susan vai se envolvendo com a história, mas não compreende direito por quê. Porque é tão bem escrito? (no livro ela sempre o considerou medíocre e sempre duvidou da possibilidade dele ser escritor, ao contrário do que aparece no filme onde ela no primeiro jantar de reencontro dá corda pra ambição dele). E porque é dedicado a ela? Ela não entende e se debate e até na hora de tentar marcar o encontro com ele o que ela quer é uma chave pra sua vida, mas sem se comprometer nisso. Ela ainda acha que está marcando o encontro pra falar sua opinião sobre o livro. Porque ela importa. Toda a vida de Susan é “pra dentro”. Ela cuida da casa, dos filhos e tenta ignorar sua rica vida interior que lhe coloca perguntas, reminiscências e alguma revolta. O livro de Edward vem sacudi-la em um mundo “lá fora”, apesar de ficcional, que não é possível controlar ou ignorar. A relação dela com o livro é cheia de nuances. Apesar da empatia pelos personagens, em muitos momentos ela se empolga com o sofrimento de Tony. Fica ansiosa por saber o que vem depois. E tenta se lembrar que não é algo construído por Tony, mas que tem Edward por trás. E isso também é meio excitante. Parece-me que a tal vingança não é dizer “olha o que você me fez” apenas. Talvez um pouco de olha o que você é, mas também um olha o que você não é...não é capaz de ser, de se saber, de se olhar durante o dia.

Outra coisa que eu acho que ficou menos interessante foi o momento da abordagem. Por força do meio (acho) a situação perdeu aquele clima de ameaça intangível. No livro, Tony sabia o tempo todo que algo não ia bem, era perigoso, mas não era possível identificar exatamente o quê até ser irremediável, no filme tudo se tornou uma ameaça explícita, palpável e incontrolável. No primeiro caso Tony não se posicionava por não conseguir identificar contra o quê. No filme, ele até tenta, mas é inócuo. E, claro, no filme não acompanhamos a noite insone, andando, perdido, que é de uma imensa riqueza na definição do personagem. Acho que faz uma imensa falta a vida pós-tragédia do Tony pra gente ir entendendo como ele foi se relacionando com a mesma, com a memória do que aconteceu e foi reconstruindo um ele-mesmo mais capaz, mais feroz, menos civilizado para o momento final. Por isso, retomo, se tivesse sido um filme só sobre o enredo do livro do Edward poderia ter sido um filme melhor. 

E, vamos combinar, aquela sobreposição das banheiras foi uó (de todos os banhos, aliás). Que solução paia. Mas as cores, ai, ai, que cores. Se estou pensando em copiar aquele escritório? ô se estou.


Um comentário:

Juliana disse...

Tenho o livro no Kobo faz séculos, nunca me animei a ler.

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