sábado, 14 de janeiro de 2017

Bóias 5

Quem não tem cão, caça como gato. Se não vai ter estilo, charme, personalidade ou qualquer outro termo usado para definir casas bem decoradas e aconchegantes, pelo menos vai ter piada interna. Ou cartão de visita. Melhor dizendo: uma declaração de intenções. Mandei fazer um quadro dessa cena aí embaixo de C'eravamo tanto amati. Onde todos amam Luciana e se amam entre si. Tinha trazido o poster da viagem a Roma (eita nós) e não me decidia a fazer nada com ele. Pois bem, vai decorar o hall de entrada. O resto ainda não sei. Talvez não haja mais nada. Mas a piada vai estar lá.



Uma coisa que sempre me comoveu em E o vento levou foi aquele prólogo onde o moço, sonoro e melancólico, dizia: uma civilização que o vento levou. Eu chorava (choro?). O filme nem tinha começado e eu já sentia a angústia do irrecuperável. Doía não aquela civilização em si ter acabado (por motivos óbvios não dá pra lamentar) mas pelo que está na entrelinha disso e que eu nem sei explicar direito. Uma finitude que não é só minha. E a tristeza de ver desaparecendo algumas coisas que se perdem no percurso, coisas maiores e melhores que as civilizações específicas que findam (e merecem fenecer). Nem sei que palavra usaria pra definir, mas identifico fácil. Uma certa graciosidade. Alguma ingenuidade. Gentilezas. Mas é isso. A gente acaba. Pior, nosso mundo acaba. Alguns, sortudos, não vêem nem ficam sabendo. Os que vivem o miolo de uma era. Mas eu, eu sei. Eu vejo. Acaba-se o Maracanã. E ele, o maior e mais sagrado templo, vai sendo violado, expropriado, arruinado. A canalhice se sobrepõe à arte, à história, à beleza, às narrativas intensas e emocionadas. Acaba-se o Maracanã e, com ele, um tanto de mim. Necrose na alma.



I can't listen to that much Wagner, you know. I start to get the urge to conquer Poland. Tem disso, filmes, canções, pessoas, imagens que nos despertam o gosto pelo impossível. 

Estava vendo o programa sobre pessoas que juntam cupons e compram com eles e não estou conseguindo nomear o que senti. Pessoas passam de 20 a 30hs por semana cortando e organizando cupons. E gastam de seis a dez horas dentro do supermercado organizando os carrinhos e passando as compras que precisam ser divididas em várias operações (nunca menos de vinte, pelo que percebi). E estocam. Enormes armários para guardar centenas de produtos que vão de sabonete líquido a mostarda, passando por escovas de dente e centenas de enlatados que precisam de prateleiras especiais para serem organizados de forma a gastar primeiro os que tem menor validade. Sim, uma compra de quase mil dólares sai por oitenta e pouco e com isso uma jovem recém casada equilibra as contas da sua casa e contribui com sua família que tem baixíssima renda. Aí você vai ver os carrinhos e tem um deles cheios de tic-tac. 30 horas cortando cupons por semana pra comprar 280 caixinhas de tic-tac. Eu fico só pensando na capacidade de organização, planejamento e raciocínio matemático dessas mulheres (sim, são mulheres). Quanto talento elas tem e que bosta de sistema esse em que vivemos.

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