quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Bóias 3

Fiquei pensando e pensando. Minto. A palavra certa é matutar. Matutei e matutei. O juízo queimava no porquê de eu não acertar nem mesmo o que eu queria (conseguir fazer já são outros quinhentos). Porque eu não tinha gosto? Porque minha casa tem cara de nada? Porque eu não tenho estilo, essência, whatever (além de dinheiro) que faz a pessoa fazer uma casa parecer que veio pronta, certinha, redonda, ajustada, perfeita pra pessoa? Eu não tenho cara de nada? Nem mesmo sei que cara queria ter? Eu gosto de vidro. Mas vidro parece não gostar de mim. Gosto de gente, mas a não ser que a gente seja a Medusa não dá pra decorar a casa com esse material. E os miolos fritando. Não tenho paciência para sites de decoração, mas até tentei. Passei virtualmente em lojas de móveis e nada parecia ser o que eu não sabia que ia querer, mas tinha esperança de saber quando visse.

Daí comecei a receber umas mensagens do amarelo e do laranja, cores que tem a tarefa de animar o bege do resto das paredes. Pus cuidado e fiquei de butuca ligada pra ouvir direito. Pois num era a canção? “o sertão vai virar mar, dá no coração, o medo que algum dia o mar também vire sertão”.  


Nem sei se algum dia será, mas agora tenho umas vontades. No hall, tapete compridinho e meio estreito, do lado de cá aparador rústico e um caminho de mesa de fibra de coco, uma namoradeira em cima, em baixo aqueles negocinhos, banco, alguma coisa de barro, cabaça grande, qualquer coisa com fuxico. Do lado de lá, quadrinhos de xilogravura. Em algum lugar, cactos. Passa pra sala de estar e é sertão que vira mar num azul escuro feito manta no sofá. Na tonalidade dos quadros e almofadas. Nos enfeites menores da sala alguma coisa azuleja na mesinha de canto, outra coisa azulzinha na mesa baixa de centro. Será preciso uma poltrona, ou duas. Mais tapetes. Outra luminária ali perto da porta do escritório. Alguma coisa embaixo da escada. Quem sabe uma rede separando os ambientes. Já me perdi de novo. Melhor juntar dinheiros pra pagar alguém pra desenhar quem eu não posso ser, aka: uma decoração pra minha casa. Ou conseguir entrar naquele programa americano, ame-a ou deixe-a.

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Será que vou voltar a dizer, escrever, pensar qualquer coisa sem esse embaraço, sem esse vínculo imediato com a ausência? Até um texto bobo sobre reformas improváveis vai sempre provocar essa vertigem?

Um comentário:

Isa disse...

engraçado que também ando nessas... Ikea quebra um galhão :)

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