quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Bóias 2

Ando pela casa lembrando o som da Blitz. Longe de casa há mais de uma semana. Quase um mês. Quanto consigo bagunçar em poucas horas parece ser a questão que me move. Muito. As malas abertas pelo chão do quarto revelam as vísceras de um bicho findo: férias. Já há louça na pia e pequenos objetos em cima da mesa, do sofá, do aparador. A cozinha cheira a temperos ainda inexplorados. No que eu vou colocar fumaça? E quem sabia que tártaro em pó era assim? Limão em pó, limão com pimenta... Cravo. Que não sei se brigou com a rosa, agora é pó em um potinho na minha prateleira e cheira em minha mão. O pensamento não para de bobear. Passo um tempão nos sites de móveis, coloco coisas no carrinho, calculo fretes e desisto sempre. Nem preciso decidir se o que me impede é a falta de dinheiro ou de gosto. Quem tem tudo, tem tudo. No meu caso, nada. As horas seguem, indiferentes ao meu espanto de seguir nelas como sempre. A inércia. Tudo dói, mas lembro que isso é estar viva. Durmo fora de hora e me vejo acordando sem ar. Tenho pudor de falar qualquer coisa sobre isso. Ou falar um isso que seja sobre qualquer coisa. E sigo respondendo "tudo bem" porque que outra resposta pode existir para os esbarrões rápidos? Preciso de molduras. De novos pés para a cama. De um projeto para a sala. De uma rota de fuga. 

Seremos sempre, diz o texto. E eu completo: grama sobrevivente da passagem de Átila.


Um comentário:

Isa disse...

Escreve mais, saudades de te ler, mulher. Bjo de Lisboa onde o inverno vai chegar em força amanhã...

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