sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O quanto baste ou Sully, um filme bem vindo pra sair de 2016


Tom Hanks fez de novo. Transformou um filme que poderia ser uma experiência absolutamente inesquecível em um mergulho inquieto na (minha) humanidade. Acho que o principal mérito na construção dos personagens que repetidamente Hanks engrandece, é a forma como ele transmite a sensação de que alguém absolutamente comum pode fazer algo extraordinário não por algo de excepcional que lhe seja intrínseco e se revele, mas justamente pelo oposto, por sua completa banalidade lhe instrumentalizar para a vida, inclusive do ponto de vista ético. Foi assim, pra mim, em Ponte dos Espiões – só para ficar no exemplo recente. Lembra-me, muito, James Stewart.

O filme, tanto roteiro como direção, parecem ser tocados meio no automático dando a impressão de que se não fosse a grande interpretação de Hanks, seria uma boa sessão da tarde ou pouco mais.  Depois de uma noite de sono continuei achando que foi uma direção inferior ao talento de Clint mas já percebi alguns méritos discretos como presença da cidade de Nova Iorque como um cenário dolorosamente indiferente em contraponto à casa/lar sentida como distante e inalcançável, sempre adiada mesmo como contato ligeiro enquanto as implicações do pouso continuassem operando. Gostei também da força seca de “preparem-se para o impacto”, emitida pelo comandante, diferenciada da musicalidade presente na repetição dos alertas feitos pelas comissárias de bordo, que chegaram a soar como mantras.

As inquietações simples do Sully me comoveram: fazer dar certo é o suficiente? Fazer dar certo é o mesmo que fazer o certo? O que pode nos definir? Uma vida construída ou um momento fora da curva nessa construção? Esse momento é realmente fora da curva ou resultante do que se viveu e fez, antes? O que é o bastante? O que devemos levar em consideração a tomarmos decisões? Há algo nas tragédias que faz minimizar limites, preconceitos e reservas? Ou apenas na leitura que fazemos delas a posteriori? É possível fazer uma escolha certa ou apenas uma escolha que deu certo?

O filme teve, sobre mim, um efeito de sopro Capra, o que foi bom pra sair deste dolorido 2016 com algum alento. Chorei sem nenhuma tristeza, mas comovida pela potência que há no existir e fazer humanos. Terminou o filme e eu quase ouvi: “fé na vida, fé no homem, fé no que virá”.

PS. Achei extremamente desrespeitoso, na sessão que vi, o fato de começarem a acender as luzes antes dos créditos terem terminado de passar, quando ainda havia o que se ver e ouvir. 

4 comentários:

TinaLopes disse...

Semana que vem vou passar sozinha, sozinha, e já vou começar indo ao cinema, atrás de um Capra pra mim também. Obrigada, honey. Às vezes penso em desistir do Clint, mas não consigo.

Renata Lins disse...

vim agradecer tb. pelo post. estou precisando de todos os alentos. verei o tom/clint. beijos.

Alessandra Trindade disse...

Obrigada pela partilha. Todo alento ajuda na travessia deste período tumultuado pelo qual passamos. Beijo!

Cláudio Luiz disse...

não tenho ido ao cinema, mesmo planejando várias idas. perdi todos os filmes, mas ainda bem que seu posts ficam mais tempo em cartaz.
"É possível fazer uma escolha certa ou apenas uma escolha que deu certo?"

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