quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A Chegada, um sentimento em processo

Ontem eu assisti A Chegada. Fui com meu filho. Antes, falamos, comemos, rimos, falamos mais e mais... e quem me conhece sabe que sou boa nisso. Depois da sessão fiquei quieta. Em casa, fui direto pro circuito banho-boasnoites-cama. Uma bolha de silêncio ao redor da experiência. Esperei o filme assentar em mim. Hoje de manhã tinha um comentárioda Rita e foi aí que comecei a tratar do filme. Contei umas duas ou três vezes pra quem não se importa com spoiler. Comentei onde deu. Fui tentando colocar em dito, o sentido.


SPOILERS E TALZ A PARTIR DAQUI



Preciso dizer que o filme foi uma grande experiência. Comecei bem incomodada, achando as cores pálidas e aquelas pessoas borradas meio nada a ver. Ingênua. Tudo, ali, tem um propósito. Que, claro, a gente (onde a gente sou sempre eu, etc) vai perceber, como na sacada psicanalítica, no só depois. A história do filme? Uma professora vai dar uma mão pro exército quando uns ets meio enigmáticos pousam em Montana. O que importa no filme? Tudo o mais. Eu fiquei completamente envolvida pela discussão sobre linguagem. A língua não só como expressão, mas como apreensão do mundo. E mais, como molde. O filme percorre, com delicadeza, com extrema delicadeza, nossa humanidade. A individualidade. A conexão pelo dito. As perdas. Os encontros. As decisões que tomamos na vida. A solidão. O contato. A dor. Os medos. Um parêntese especial para os medos: acho bem sintomático que seja isso o que a humanidade, como coletividade, no filme, manifesta mais evidentemente em comum, o medo, medo do Outro, medo uns dos outros, medo do desconhecido, as nações optando pela saída do aniquilamento do que ainda não se sabe.

Não saberia dizer qual dos momentos de extrema beleza mais me tocou. Todo o encontro da Louise com Abbott e Costello me reviraram. A hora do “desnudamento”. Que metáfora forte para o processo ensino-aprendizagem. A primeira palavra: humana. Não o nome próprio, mas onde nos inscrevemos neste discurso que vai ser ensinado e aprendido: como produtores de sentido. Humanos. Todas as vezes em que ela vai explicar, para os militares, seu percurso e os motivos. O lance da pergunta. É preciso, primeiro, saber que uma pergunta demanda. Cara, a força desse aprendizado. Depois, a construção do vocabulário. O entendimento de que é preciso um mergulho no outro pra vislumbrar as respostas... e além, o que se diz no que se diz, já que no enunciado há intenções e perdas. O toque: não adianta fazer perguntas se não temos pontos de contato mínimo para entendermos as respostas. A linguagem como arma, método, ferramenta, segredo, potência, tanta coisa, o momento da sacada com o nome Hannah. 

Fiquei embasbacada demais com todo o lance do Abbot e Costello, a beleza de uma comunicação que é construída e não dada. A interpretação como elemento da comunicação. O tempo como elemento da comunicação, feito e transformado por ela. Fiquei tão embasbacada com isso, foi tão grande pra mim que, provavelmente me escapou um pouco de uma outra camada, também presente no filme, o drama pessoal da protagonista. Talvez o imenso impacto da discussão sobre linguagem e tempo e contato e entrega e encontro tenham me adormecido um pouco para as questões da trajetória individual de Louise.  Achei sensacional o passado ser o futuro, mas não consegui me emocionar completamente com a perda específica dela. Acabei achando mais bonito que dolorido. Fiquei pensando que poderia ter sentido mais o drama pessoal se não estivesse tão mergulhada no tudo o mais do filme. Acabei ficando sem tempo, talvez porque ainda estava processando o impacto de tudo porque o tudo o mais foi demais pra mim, como se você esperasse muito tempo que alguém fizesse ou dissesse alguma coisa mas você nem sabia que estava esperando até que a coisa acontece? Pois.

Ou, talvez, porque a perda/escolha ficou pra mim em um registro diferente das ausências usuais. Fiquei pensando: como não há passado nem presente e nem futuro, depois que se aprende o heptapod, então tudo acontece e aconteceu e acontecerá é ao mesmo tempo. Assim não é que Louise escolhe ter a filha sabendo que vai perdê-la, ela escolhe ter uma filha eternamente. E escolhe não ter, também eternamente. A presença e ausência, fora da idéia de sequência, coexistem. O heptato faz, pra frente, o que o inconsciente faz pra trás. Não há antes ou depois. Cada coisa, é, atual.  E a tristeza se dilui na sensação de que é um presente incrível poder saber antes e sempre, que o instante é belo. Daí, confesso, achei meio sacanagem Louise não contar pro moço o caroço do angu do futuro deles. Pra ele poder viver essa beleza junto com a tristeza.

No fim das contas, ou quase fim, porque se escrevo é para dar conta do sentir mas também para abrir as possibilidades de novas incursões no assunto, além de delicadeza me vem a palavra vulnerabilidade. Uma angústia que é casulo e caminho. Mas, Luciana, sobre o que é mesmo essa parada? Ontem eu responderia uma coisa. Agora, direi que é sobre a possibilidade do contato, na superação do estrangeiro como ameaça. Amanhã certamente direi outra coisa. Ou mesmo daqui a pouco, na caixa de comentários, caso alguém decida papear. Um filme que se enraíza em perguntas e belezas, acho que essa é uma das melhores referências que posso dar.


PS. É interessante que um filme que fala da reinvenção da forma de lidar com o tempo seja especialmente lento como opção narrativa. Achei genial que o filme nos envolva de tal forma que o tempo passe a ser irrelevante. 

PS2. "Na guerra, não há vencedores, apenas viúvas" foi o que ela disse ao telefone. 


7 comentários:

Juliana disse...

Tbm achei genial o ritmo do filme porque você vai sendo enredada, perde tbm um pouco a noção do seu próprio tempo. Eu, que não sou de filmes, no início senti uma preguiça, fiquei me perguntando o q eu tava fazendo ali, aí de repente aconteceu um clique e percebi que tava vendo um filme maravilhoso.


Rita disse...

Obrigada, minha flor. Que privilégio poder conversar sobre esse filme com você. E sim, pode ser sobre o inconsciente também, como não? :-) E que bom, não é, como falamos, que podemos rever seja falando sobre ele seja na TV seja em nossas cabecinhas malucas, porque é tanta coisa pra ver e ponderar sobre. Eu continuo no cinema, de certa forma. A sessão mais longa de minha vida, hehe.

E esse seu texto, impecável.

Como você sabe o que ela falou ao telefone?

Bj

Mônica disse...

Ah, que lindo o seu texto, eu também saí do cinema com um monte de sensações. Principalmente as do seu 'Ou talvez...'. Eu sou suspeita pra falar do tanto que eu gostei porque, né, é sobre linguagem, minha praia total. E eu amo as coisas do Villeneuve, porque ele é dos diretores que acreditam que o público é inteligente e sabe ligar os pontos e vai levar o filme com ele pra casa. Coisa que também o Wilder fazia super bem, mas hoje em dia é mais exceção do que regra (acho que, né, sempre foi). E a escolha perfeita da Amy Adams, delicada mas firme, que lindeza. Adorei as cores, os borrões, a ausência de trilha sonora trazendo sons, mas não música, a história dela retalhada. Ainda quero ver de novo, acho que a cada assistida, a gente descasca mais uma camadinha. <3

Murilo Melo disse...

Texto brilhante. Eis minha contribuição para discussão.

No meu chinês passável, e por conta da forma como o que a Louise fala ao telefone com o comandante chinês está muito cortado e muito baixo, só consegui entender o "mei huá", que significa, "não falar, não conversar". Só daí já dá pra inferir o que de tão poderoso a esposa do comandante lhe teria dito e porque as palavras dela, repetidas ao telefone pela Louise, tiveram tanto peso e fizeram com que a China voltasse atrás na sua decisão de não declarar guerra aos alienígenas. Certamente, a relação do comandante com sua esposa foi difícil porque não devia haver comunicação entre eles. E conexão, através da comunicação, é o tema central do filme.

A simbologia do filme realmente é poderosa. O ritmo lento nos dá tempo de parar para absorver e refletir, a quase inexistência de uma trilha sonora permite que nos foquemos na discussão central do filme, a escolha dos símbolos circulares, não só da escrita heptadpod, mas também o número 12, que remete à circularidade do tempo (12 horas no relógio, 12 meses no ano), da astrologia (12 signos do horóscopo ocidental, 12 animais do horóscopo chinês), e pos aí vai.

Enfim, um filme para se ver várias vezes. E não recomendo ir pra casa depois dele. Tem que ser do cinema para o boteco!

mel disse...

lindo seu texto. vim aqui pq cliquei no link que tinha no lágrima de crocodilo no texto tb sobre esse filme, e comentei lá, assim como comento aqui com a vergonha alheia própria de dizer que tb escrevi sobre o filme. normalmente não faço propaganda de mim mesma, juro, mas é que a conversa sobre esse filme tá tão linda, as interpretações sensações etc tão tão maravilhosas...... acho que é isso que um filme tem que fazer né, iniciar um diálogo sobre todas as suas possibilidades

Cláudio Luiz disse...

agora é correr pro cinema... mas serei lento... tempo...

Unknown disse...

Filmão. Na verdade, nem sei onde minha cabeça foi parar quando terminei de assistir. Presente e futuro dividindo o mesmo 'instante', "se eu visse minha vida toda, até o último dia, eu mudaria alguma coisa?".. Acho que ainda tô assentando as ideias.. rsrs.. Bjao do seu primo

Felipe Seno

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