sábado, 5 de novembro de 2016

Estranhos

Para se viver com alegria é preciso esquecer a felicidade. Ou desconsiderar, acrescentou uma amiga. Pois. Para se viver com alegria é preciso esquecer ou desconsiderar as felicidades já vividas. Elas são como aquele espelho que o Dumbledore acabou por esconder do Harry. Elas podem imobilizar. Se elas são usadas como referência, como matéria de comparação, fenece a alegria, incapaz de competir com a imobilidade perfeita do que é memória. E nem vou falar do estrago que se faz à alegria quando se vive em função da possibilidade de felicidades futuras.


Eu não digo a verdade, eu digo o que deveria ser a verdade. 

Fico me perguntando se voltarei a fazer com a mesma desenvoltura o que já fiz tão naturalmente: escrever pro Biscate, preparar apresentações dos meus trabalhos, respirar.

Uma amiga perguntou lá pelo FB: como as pessoas conseguem trepar no avião? Respondi, claro. #UtilidadePública. Por ter respondido passei a receber as notificações de comentários. Alguém respondeu: “a pergunta não é como, mas porquê”. Não sei se tenho as competências para viver num mundo em que esta questão é pertinente.

Pesquei em uma TL recém incorporada que Cioran perguntou a Beckett: por que, então, seguir escrevendo? Pela alegria, foi a resposta. Um dia, quem sabe, escrever possa ser algo além de uma necessidade. 

Às vezes você não sente que tem, em algum lugar do peito, um delicado cristal na pontinha da mesa?

Sempre dependi da delicadeza de estranhos, disse Blanche, uma das personagens da minha vida. E sim. Tanto. Porque o que é o outro, qualquer Outro, inclusive o que é eixo do nosso eu mesmo, senão um estranhamento, uma diferença, uma alteridade? Da delicadeza. Diria ainda: da existência. 



Não é interessante que Vivien tenha dado corpo a duas personagens tão distintas, uma em que sua fraqueza era a força indomável e irrefletida e outra cuja única potência e capacidade de sobrevivência é proveniente de uma fragilidade tão central e absoluta? E que, assim, tenha feito como um belo jogo de espelhos em que força e fraqueza deixam de fazer sentido e passam a pedir sentidos outros? Ou, claro, pode ser só em mim esse mistério.


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