quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Sobre Telegramas, Roupões e Outros Quadros Na Parede da Memória


Eu recebia bilhetes, postais, cartões, cartas, telefonemas falando de amor. Eu recebia telegramas, veja você, com declarações de saudades e desejo de pessoa morando na mesma cidade. Recebia caixas com meias de seda – de seda de verdade, como aquelas do livro da Agatha Christie - com disco do Fito Paez e perfume que fazia o circuito Paris – Buenos Aires – Fortaleza. Grandes gestos, recebi-os todos. Homens viajavam 300Km pra ir me buscar em algum lugar e me levar pra casa. Atravessavam uma estrada, na serra, à noite, para me ver um tiquinho. Serenatas. Flores. Eu era esse tipo de mulher, sabe? Esse tipo de mulher que esse tipo de homem ama.  

A tudo eu recebia com naturalidade. Como se fosse banal. Veja, eu não era fria ou inalcançável ou algo assim que os clichês perpetuam, repetindo a idéia de que se anseia apenas pelo impossível. Não. Eu ardia. Eu incendiava. Eu também escrevia longas cartas, fazia colagens, pensava em presentinhos insólitos. Tocava. Eu tocava muito. Acontece que eu era displicente. Ou jovem demais, nunca saberei - já reclamava o Kundera, a vida não tem esboços. Hoje penso na urgência e arrebatamento que leva alguém, morando na mesma cidade, a enviar um telegrama. Um bem querer que transborda. Mas, na época, abria o telegrama, curtia um pouco e colocava na caixa junto com os outros telegramas, cartões, pétalas de flores, discos e o que mais estivesse sendo ofertado, futuros, casamentos, casas e viagens, felicidades. Como se fosse pra ser assim. Eu nunca me espantava, nunca me surpreendia. Eram enormes os gestos? Tudo parecia ser o que devia ser, apenas. Não estou me gabando, sabe. Se conto essas coisas é para explicar, um pouco, o tipo de pessoa que eu era e, além, o tipo de pessoa que me amava. Eu dava muito (oi, Renata), mas havia tanto, em mim. Não entendia que o muito que recebia podia ser tudo que havia do lado de lá.

Eu era esse tipo de mulher, sabe? Esse tipo de mulher que esse tipo de homem amava. Como disco arranhado na canção do Chico, os moços eram sempre os do bicho de pelúcia e broche de ametista. Até os que eu, pensando diversificar, ia catar no bar. O professor de matemática pegador, o poeta de olhos famintos, o alternativo que queimava móveis na fogueira, todos inesperadamente tornavam-se mandantes de telegramas simbólicos. Esse tipo de mulher. Esse tipo de homem. Esse tipo de amor. De gestos e palavras eloquentes.

É de se entender que eu tenha entendido muito pouco quando você não disse nada. Quando não chegaram flores. Quando não soaram serenatas. Distraída eu nem reparei quando você colocou o último vinil antes de dormir e disse: escuta essa. Só ouvi. Distraída eu nem reparei quando, andando daqui pra lá, você parou de repente, enfiou a mão entre grades e trouxe de lá uma flor miudinha e mostrou pra mim, depois dissse: leva. E levei. Distraída eu quase não escutei o som dos seus dedos entre os meus cabelos até me fazer dormir, nem o barulhinho da frigideira ao preparar as minhas comidas prediletas, nem o ruído do aquecedor ligado antes de eu tomar banho pra evitar qualquer desconforto. Ditos expressivos mas em uma língua que eu mal decifrava.

Hoje não tenho uma caixa com telegramas seus, nem cartões, nem cartas, nem mesmo bilhetes em papel de embrulho. Tenho um roupão imenso e desnecessário pendurado no meu quarto, um roupão enorme que você nunca chegou a me dar, mas veio comigo. Um roupão imenso que você tirou pra vestir em mim (das coisas mais bonitas era você me vestindo, casacos, roupão, lenços, luvas, meias… um vestir tão erótico como nenhum despir antes conseguiu ser). Um roupão imenso que era seu, que usamos juntos e que veio meu, companhia improvável, roupão imenso que uso como abraço em noites como essa, que tento saber quem sou, ao não ser mais aquele tipo de mulher, sabe?

Porque eu não sei. 


3 comentários:

Renata Lins disse...

mas ó, escreve cada carta de amor que deixa a gente com lágrimas nos olhos...

D. disse...

"Hoje penso na urgência e arrebatamento que leva alguém, morando na mesma cidade, a enviar um telegrama. Um bem querer que transborda. "

Ai, menina. Nunca mais, sabe? Cheguei a suspirar. Não existe mais urgência, no geral, ou eu não sei mais ser o pavio ou o fogo?

Isa disse...

Que beleza...

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