terça-feira, 4 de outubro de 2016

Memória da Pele

Minha memória é muito ruim. Não lembro do que eu disse, ouvi, vi, das cores, das horas, dos fatos. Mas me lembro daquela fração de segundo como se estivesse sempre a acontecer no minuto passado. Um pequeno momento, uma pedacinho de quase nada do tempo mas que permanece como se ainda. Ou sempre. Uma fração de segundo. Que passou. Acabou. Ou talvez ainda dure já que ainda falo nela apesar do trabalho do tempo em acinzentar as bordas da memória. Foi uma nada, eu disse, não disse? Olhávamos juntos na mesma direção e, ao contrário da poesia, isso me contava de distâncias e impossibilidades. Resignada, eu estava. Uma ponte tão bonita, eu lamentava que não nos levasse um em direção ao outro. Foi quando. Um gesto de nada e uma palma de mão roçou o dorso da outra. Nem sei se íamos pegar a mesma garrafa. Se ele ia aumentar o volume do rádio. Se eu apenas me esticava no carro que parecia cada vez menor com a certeza do não crescendo a cada minuto entre nós. Eu lembro de muito pouco, lembra? Mas aquela palma da mão no dorso da minha. Aquele instante, a textura da pele, a temperatura da pele, a pele na pele. Aquela fração de segundo. Que se fez sim, se fez boca em boca, abraços, noites longas e manhãs preguiçosas, se fez viagem, se fez peixe e carne e queijo e laranjas descascadas de uma forma peculiar. Tudo que foi eu misturo, esqueço, embaralho. Mas ainda sinto a pele, a temperatura da pele, a textura da pele, a palma da sua mão roçando o dorso da minha mão e, após um instante como de surpresa e descoberta, fechando-se sobre ela como para evitar que ela fugisse. Ficou. Fiquei. 



Perto de muita água tudo é feliz. Já repeti o o mantra aqui tantas vezes. Eu sou. Ou o mais perto da felicidade a que se pode chegar. Em qualquer lugar que haja mar, me reconheço. Mas há aquele cantinho que é mais meu. Onde, ao entrar, o sei bem dentro de mim, nas minhas sedes, nos meus abismos, na minha infertilidade. O sal corrói o canto da boca, por isso o riso, talvez. O água avança e recua sobre o peito e por isso os espaços vazios. O mar é cemitério da dor.

Eu posso ficar sem falar com você. Mas é difícil ficar sem falar pra você que mergulhei e reencontrei o mar em mim. Difícil não contar pra você os dias cheios, os dias vazios, as noites atravessadas em repouso ou ansiedade. Difícil não contar a conquista, a tristeza, o encontro, o desamparo, a beleza. Difícil não fazer minha vida encostar na sua.

Uma das lembranças mais fortes de eleição que eu tenho não é de vitória ou derrota, mas do meu irmão paramentado para votar. Botom, adesivos no corpo todo, blusa, boné, broche, nome escrito na cara, tudo ao mesmo tempo. Bandeira, claro. E a gente cantava. Na rua. Juntos. Não tem nenhuma fotografia dessas eleições. Porque, provavelmente, a gente estava embriagado com a possibilidade. Ia ser sempre assim. Alegre. A cores. Em vermelho. A gente sempre ia votar junto. Todos em uma seção, depois na outra e tal. Uns mais à esquerda que outros. O meu vermelho é mais vermelho e tal. Ainda que os prognósticos não fossem sempre de vitória, a sensação era de que estávamos caminhando. Assim, ríamos muito, conversávamos nas filas, cumprimentávamos pessoas desconhecidas mas que eram íntimas, reconhecíamo-nos nas roupas vermelhas, bandeiras, adesivos e, principalmente pelo brilho no olhos. Era o tempo do sonho. De eleger presidentes e prefeitos e deputados de esquerda. Sem medo de ser. Depois de cada um dos seis membros da família votarem, chupávamos um picolé Pardal. Ontem eu fui quatro vezes às seções. Fui votar com mamys e papys. Depois, com meu filho e minha irmã. Fui votar eu mesma. E, por fim, acompanhei meu irmão. Não fomos todos juntos. Não tem havido festa na rua. A esperança anda acanhada. Mas ainda tinha picolé Pardal.

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Queria férias. Mentira, queria dinheiro. Para tirar férias.



4 comentários:

Renata Lins disse...

é tão engraçado q vc é tão diferente de mim. como posso me encontrar tanto nas suas palavras?
beijo, beibe.
qdo quiser fazer um ddd, a gente estará na escuta, cê sabe.

Isa disse...

Adorei a pele na pele, tenho uma memória dessas muito presente, uma pele que parecia seda <3

BethS disse...

ah, a pele macia na minha pele...
impressionante como fica para sempre.
e o mar, né?
tenho essas mesmas memorias igualitas às suas...
beijo enorme, viu?
nunca escutei a sua voz, e acho que um dia...
<3

Maria Fernanda disse...

Já li seu nome várias vz. nunca havia te lido. até agora. e uau: memória ruim. sensação, pele, mar, felicidade, juntos, votar, vermelho, esperança, acanhada...

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