sexta-feira, 7 de outubro de 2016

De não haver

"Viver não é fácil não
pergunte pro meu coração"

É outono em algum lugar. Em ocre, as ruas, calçadas – deveria dizer passeios – horizontes. Lá, onde é outono, há música no andar. Eu pisei na folha seca, vi fazer chuá-chuá, cantarolava, percorrendo, cuidadosa, escorregadios caminhos. O outono é suave. Como se houvesse um filtro entre nós e o mundo. Arrefecem os anseios vibrantes e é possível ver o bem querer das miudezas. As árvores perdem folhas, perdem passado e ficam nuas de agoras. Só lhes resta a possibilidade de algum futuro. Chamam, a isso, renovação da vida. Sou lá eu uma planta? Permaneço. Não me dispo, não suavizo, não espero futuros. Ou talvez isso me dê de não haver, aqui, outonos.



Há tanto que não pode ser dito. A única confissão possível: se não doesse, que bonita era a saudade.


Tem esse blog que parece tão bom, mas a letra é tão miudinha. Tem isso na vida, né, coisas tão boas mas que não combinam com o que a gente pode, com o que a gente é, com o que a gente está. 


Mas tem o blog da Fal. Se eu pudesse, largava tudo e ia morar lá, nas entrelinhas. 


Se ela tivesse a coragem de morrer de amor”, como cantavam os moços profetas que escreveram a vida que eu ia ter. 


"Não é possível que você esteja sempre bem, Luciana". Eu lembro da interrogação na sua voz, ao exclamar o que você chamou inveja. Mas não estou sempre bem, eu falei, mas nunca terminei de explicar. E você deu de ombros, desacreditando do meu dito, preferindo o empírico da gargalhada onipresente. Eu não insisti, achei que teríamos tempo. Achei que nosso amor era daqueles que ficam. Que um dia você saberia. Eu teria te contado que o riso é âncora. E pode ser bóia. Podia ter te contado que era uma escolha. E estaria sendo verdadeira, embora equivocada: é mais como uma injunção. Eu confiava em você, teria te falado que o excesso de luz não deixa de produzir sombras. Ou nem precisaria explicar, se houvesse o youtube já, apenas mandaria uma mensagem: "eu, na vida" e o link da Fafá nessa canção. Rodopiamos e sorrimos, ao cantar o que nos faltaria. Faltará.





Um comentário:

Cláudio Luiz disse...

gostava dos outonos de lá. Ou melhor, gostava imenso (pra usar o sotaque local) de ter as estações definidas - quase que com pontualidade britânica.
e foi bom passar a completar primaveras.

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